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Gerações que cresceram na Reserva de Mamirauá assistiram transformação de comunidades

De vilões, que desmatavam e praticavam a pesca predatória, a mocinhos que investem tempo, dinheiro e arriscam a própria vida na proteção dos lagos

São mais de 2 mil famílias que vivem espalhadas pela região de Mamirauá

São mais de 2 mil famílias que vivem espalhadas pela região de Mamirauá (Bruno Kelly)

Símbolos da cultura cabocla que se espalha há séculos pelas margens dos rios amazônicos, resistindo geração a geração, os ribeirinhos começam a transformar os ‘beiradões’ em comunidades empreendedoras e sustentáveis e, junto com a vida de quem mora ali, a própria maneira de ver a floresta.

De vilões, que desmatavam e praticavam a pesca predatória, a mocinhos que investem tempo, dinheiro e arriscam a própria vida na proteção dos lagos. Assim eles conseguiram, em dez anos, reduzir o desmatamento dentro da reserva a quase zero, aumentar a população de pirarucu em 400%, e as perspectivas das quase dez mil pessoas, que vivem nas 170 comunidades da RDS Mamirauá.

“Quando a gente era novo achava que podia tirar peixe o quanto quisesse, que ia morrer e não ia acabar. Hoje a gente sabe que é aqui que tá o futuro. Essa é a riqueza de verdade”, contou Esmeraldo Antunes Correia, 67, que se mudou para a comunidade da Ilha do Rumão, no rio Solimões, aos 14 anos, com os pais.

Mas o maior benefício que as comunidades podem ter, segundo Esmeraldo, é a qualidade de vida e a garantia de que as próximas gerações também poderão viver na floresta. E sobreviver dela. “Nasci, me criei e quero morrer aqui, mas antes quero ver as mudanças acontecerem, pra melhor. Água na torneira, escola e saúde, pra que meus netos não precisem sair daqui pra tentar a vida na cidade”.

Vida nova

Melhorias que a família dele ainda está começando a ver, mas que já estão presentes no cotidiano da comunidade Terra Nova, no médio rio Solimões. Escola, água encanada e energia elétrica são alguns dos investimentos feitos com a renda do manejo e a parceria com comunidades vizinhas e instituições como a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Instituto Mamirauá e programas governamentais.

Tudo fruto de uma administração comunitária organizada, como conta a presidente do Setor Jarauá, onde fica a comunidade, Cleudimar da Silva Oliveira, 33. “Aqui somos uma grande família, decidimos juntos quais as necessidades. Isso permitiu que a nossa comunidade se desenvolvesse e melhorias na nossa qualidade de vida”.

As mudanças na comunidade foram acompanhadas de perto pelos irmãos Vítor, 63, Maria, 71, Damião, 81, Edegardina, 74 e Evilázio de Souza, 66, os primeiros a chegarem naquele pedaço de terra, em 1960. Ao longo dos últimos 52 anos, eles viram o que era apenas uma “localidade” virar o “lar” de outras dez famílias. “Antigamente a vida era mais difícil, as crianças não tinham como estudar. Hoje tem água encanada, saúde, escola e energia, pelo menos enquanto o gerador aguentar”, disse Evilázio.

Em São Raimundo do Jarauá, a união já fez a força. A administração comunitária permitiu que os moradores estruturassem a comunidade, que já conta com um gerador, rede elétrica e abastecimento de água, por meio de uma placa de energia solar que movimenta a bomba, e leva água do rio Solimões às torneiras das casas. Casas que, por sinal, também são bem estruturadas, com sanitários, chuveiro, energia elétrica, água encanada e uma estrutura de dar inveja a quem vive nas periferias de Manaus.

Na comunidade também foram construídos uma escola, centro social, cozinha comunitária, uma granja e um flutuante, onde o peixe é tratado. A ambulancha foi a aquisição mais recente, que supriu uma das principais carências da comunidade: saúde. E em meio a tudo isso, as crianças jogam bola no gramado, de frente para uma vista de perder o fôlego. “Morar aqui é um privilégio”, disse Maria Luziliane, uma das moradoras da comunidade.

Escolas entre as maiores conquistas

Investimentos à parte, uma das maiores conquistas das comunidades ribeirinhas é a construção de escolas, onde as crianças e adolescentes aprendem, desde cedo, a preservar e empreender.

Uma delas foi construída pelos próprios moradores, com apoio da FAS e da prefeitura de Fonte Boa, na comunidade Terra Nova. A escola atende 17 crianças, com idade entre quatro e 15 anos, por meio de um programa multiseriado, como explica o professor Ziza Rodrigues, 32, que é funcionário da Secretaria Municipal de Educação de Fonte Boa. “Hoje atendemos crianças de primeira à quarta série pela manhã e, de quinta à oitava, à tarde. Depois disso, elas precisam sair da comunidade para continuar estudando, o que favorece o abandono”, analisou.


Mas, a partir deste ano, eles pretendem implantar um curso tecnológico para alunos do ensino médio e, assim, reduzir o abandono e preparar os jovens para o futuro. “A ideia é formar, sem sair da comunidade, os futuros professores, tecnólogos, que vão usar o conhecimento a favor da própria comunidade”.