Log in

Bem-vindo Log out Alterar dados pessoais

Esqueceu a senha?

X

Qualquer dúvida click no link ao lado para contato com a Central de Atendimento ao Assinante

Esqueceu a senha?

X

Sua senha foi enviadad para o e-mail:

Indígenas do Amazonas querem divulgar conhecimento dentro das universidades

Grupo de estudantes indígenas cria o Colegiado Indígena, formado por alunos de mestrado da Ufam e graduandos da UEA

O estudante de mestrado João Paulo Barreto, da etnia tukano

O estudante de mestrado João Paulo Barreto, da etnia tukano

Para além das discussões sobre necessidades mais urgentes como demarcação de terra e saúde diferenciada, os indígenas também querem debater produção do conhecimento intelectual dentro e fora das instituições de ensino superior.

Esta é a proposta de um grupo de estudantes indígenas que esta semana criou o Colegiado Indígena dos Alunos de Pós-Graduação em Antropologia Social e Sociedade e Cultura na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e de graduação em Pedagogia Intercultural da Universidade do Estado do Amazonas (Ufam).

O mestrando em Antropologia Social João Paulo Barreto, 39, da etnia tukano, explica o que move a criação do colegiado: “Queremos produzir conhecimento indígena dentro da academia. Realizar palestras, escrever artigos, atuar em sites e produzir livros. Discutir até que ponto podemos contribuir para a universidade a partir do nosso conhecimento”, diz Barreto”.

Segundo ele, por meio do Colegiado Indígena, os estudantes querem trocar experiências entre os pós-graduandos e lançar propostas que encorajam para que novos indígenas entrem na universidade.

Peixe

João Paulo Barreto é um exemplo característico da importância do conhecimento como estratégia de luta dos povos indígenas.

Nascido na aldeia São Domingos, na calha do rio Tiquié, na região do Alto Solimões, João Paulo mora em Manaus há 20 anos, onde estudou ensino médio, mas nunca abandonou os laços com sua aldeia. Também jamais deixou de falar a língua nativa tukano, predominante naquela região.

Suas viagens a São Domingos ocorrem regularmente e qualquer tomada de decisão que diz respeito ao Alto Rio Negro, seja em qualquer esfera social, incluindo o movimento indígena, precisa ser submetida às lideranças que vivem em São Gabriel da Cachoeira.

Barreto formou-se em Filosofia pela Ufam. Hoje estuda Direito na UEA, onde entrou pelo sistema de cota, e faz mestrado em Antropologia, junto com outros cinco estudantes indígenas das etnias wapichana, pira-tapuia, ticuna e cambeba.

Sua dissertação de mestrado pretende  mostrar como o “peixe”, sob diferentes dimensões, é visto tanto pelo indígena quanto pelo “branco”.

“Vou estudar e fazer pesquisa sobre o peixe a partir da visão do índio. Para os tukanos o peixe também é gente. Tem personalidade e afetividade. Toda a natureza é sujeito e não objeto. Temos outro campo de compreensão sobre o peixe", diz.

Dificuldades

A Ufam não possui sistemas de cotas para indígenas na graduação. Apenas nos programas de mestrado em Sociedade e Cultura da Amazônia e em Antropologia Social.

O sistema de cotas em Antropologia Social foi aplicado em 2010, quando dois estudantes indígenas ingressaram. Em 2011, outros quatro indígenas entraram.

Na graduação, apenas a UEA possui o sistema de cotas.

Desde 2005, 439 indígenas por este sistema na UEA. Até março desde ano, 30 indígenas oriundos das cotas se formaram.

Os cursos com maior demanda são os da área de Ciências da Saúde, como Medicina, Enfermagem e Odontologia.

No curso de Pedagogia Intercultural Indígena, estudam 745 indígenas de 32 etnias.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos estudantes indígenas, segundo Barreto, é a financeira. Sem auxílio, eles desistem da faculdade.

“Há muita desistência. Os estudantes passam no vestibular, mas quando chegam aqui não têm onde morar. Não têm ajuda financeira porque os pais são agricultores. Mas seria importante que estes estudantes continuassem na universidade porque eles têm a contribuir para a sociedade”, explica o estudante.

A maioria dos estudantes da instituição é proveniente da região do Alto Rio Negro, área que tradicionalmente sempre esteve vinculada ao sistema educacional tradicional.

“O pessoal do rio Negro tem essa rede de solidariedade. Mas há outras regiões onde isto não existe. Queremos chamar atenção para essa necessidade”, contou.

Diferença

O Colegiado Indígena está vinculado diretamente ao Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai).

O professor de antropologia e coordenador do Neai, Gilton Mendes, explica que a iniciativa ocorre em um contexto onde os indígenas vão apresentar um conhecimento que o não-indígena não possui. “Um conhecimento diferente”, diz.

“Muitas vezes, os indígenas ficam engolidos e pulverizados no sistema acadêmico. Mas não são chamados para fazer esse tipo de exercício intelectual. Para refletir sobre sua produção e reprodução do conhecimento entre eles e os não-indígenas e entre eles mesmo, entre diferentes etnias. E acho que a antropologia é um campo privilegiado para que isto aconteça”, observa Mendes.

Para o professor, as instituições de ensino precisam se adequar às diferenças e se mobilizar para identificar estas diferenças, além de dar apoio aos indígenas.

“É preciso trazer essa diferença do ponto de vista do outro para dentro da ciência antropológica. Acho que só a Amazônia é capaz de fazer isso”, diz.