Pela primeira vez no Brasil uma equipe multidisciplinar de médicos veterinários realizou um tratamento de alta complexidade em animais selvagens. O procedimento que envolveu especialistas de várias áreas da saúde está sendo realizado desde a última segunda-feira, 23, no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs) na Zona Centro-Oeste de Manaus.
Até essa quinta-feira (26), oito do total de dez onças pintadas que fazem parte do zoológico foram submetidas aos procedimentos. Os últimos dois animais devem ser atendidos nesta sexta-feira. A bateria de exames consistiu principalmente na área odontológica, análises clínicas, anestesia, bioquímica sanguínea e ultrasonografia que gerou imagens que auxiliaram na condução dos trabalhos.
Pelo menos quatro onças precisaram fazer tratamento de canal e restauração de dentes fraturados. A estimativa dos profissionais era que todos os animais precisassem das intervenções. Uma onça, em especial, precisou ser submetida a três canais. Os outros três animais fizeram um canal cada. Os animais foram anestesiados e monitorados pela frequência cardíaca e temperatura durante todo o procedimento.
O trabalho inédito foi realizado, voluntariamente, por dez profissionais. O projeto foi idealizado pela veterinária amazonense Fernanda Santoro, que convidou os amigos paulistanos Murilo Penteado Del Grande e Caroline Hozawa, também veterinários, para realizar o trabalho no Cigs. Os três fazem especialização médica em São Paulo e decidiram vir a Manaus porque Fernanda já tinha realizado alguns trabalhos com animais do Cigs e detectado a necessidade do tratamento nas onças.
Para a tenente do Exército Brasileiro Maria Juliana Moreira, adjunta da divisão de veterinária do Cigs, o procedimento é chamado de manutenção periódica, feito a cada seis meses, que prevê entre outras intervenções médicas, vermifugação, exames de sangue e de pele, limpeza dentaria, corte de unha, medição de peso e do corpo. O diferencial segundo ela foi o reforço no tratamento com a parceria dos veterinários voluntários. Juliana explica que os exames são fundamentais para acompanhar o crescimento e a saúde dos animais, além de identificar possíveis alterações e tratá-las.
Segundo Juliana, o trabalho feito ao mesmo tempo por especialistas de várias áreas é inédito no país e teve o ponto de partida no Amazonas. “O trabalho de tratamento das onças exigia um grau de complexidade que só especialistas de cada área poderiam realizá-los. Isso só foi possível por meio da parceria e dedicação de todos os profissionais envolvidos”, disse. Ela completa que os Cigs está aberto a novas parcerias com outros profissionais que possam contribuir com o bem estar dos animais.
Quadro geral de saúde é bom
Segundo o médico veterinário e anestesista Diogo Costa, foram encontradas pequenas alterações de hematologia normais para idade dos animais mais velhos. No entanto, ele frisa que o quadro geral de saúde dos animais é bom. “Os animais estão saudáveis graças ao tratamento que recebem semestralmente. Estão com peso que varia de 50 a 65 quilos, sendo que eles não podem pesar muito, caso contrário, teriam a alimentação prejudicada”, disse.
Ele trabalha com anestesia de animais selvagens há seis anos e observa que o ganho maior das onças tratadas foi na parte odontológica, uma vez que os dentes são fundamentais para a sobrevivência do animal. “Quando as animais perdem a dentição ficam com dificuldade para se alimentar e correm o risco de adoecer. Com o tratamento avançado terão dentes saudáveis por muitos anos assegurando a qualidade na saúde.”