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Entrevista com Secretário de Cultura, Robério Braga

Origem, tradições e manifestações, mudança na configuração de um povo e políticas públicas são assuntos abordados pelo secretário de Cultura do Amazonas,Robério Braga ,nesta entrevista

Secretário de Cultura, Robério Braga, ao lado de uma estátua antropológica, que representa uma etnia indígena, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Foto: Juca Queiroz

Secretário de Cultura, Robério Braga, ao lado de uma estátua antropológica, que representa uma etnia indígena, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Foto: Juca Queiroz

A cultura amazônica tem peculiaridades. Influenciada por uma mistura de povos - indígenas, negros e europeus -, ela vem sofrendo mutações com o passar do tempo.

No início, a migração, principalmente dos nordestinos para a região, com o objetivo de fugir da seca e para explorar a borracha, foi fundamental para modelar as tradições e costumes da população. O boi bumbá de Parintins sofreu essa influência e ajudou o amazonense a valorizar a figura do índio. Sua história tem como pano de fundo as manifestações culturais nordestinas e agora, influencia outros municípios do Estado.

A vinda dos japoneses, coreanos, chineses e dos sulistas, por causa do Polo Industrial de Manaus, deve dar uma nova configuração à cultura amazonense. É sobre esse e outros assuntos que o secretário de estado da Cultura, Robério Braga, fala nesta entrevista.

Secretário, quais os elementos fundamentais da cultura amazonense?

Os aspectos que nos identificam, as particularidades, as peculiaridades, a linguagem, a culinária, o folclore, a música, as tradições populares, tudo isso gera uma identidade. Dentro disso, nós temos uma política pública de cultura com resultados significativos. Uma política com continuidade, sequência e que está focada em alguns pontos fundamentais. A identidade que gera uma propulsão na autoestima da população, a reabilitação de patrimônios material e imaterial, que inclui prédios, danças, folclore, o resgate dos brinquedos infantis, das danças folclóricas do interior, por exemplo, o gambá que é muito pouco conhecido e que tem uma liturgia artística centrada em dois grupos: Borba e Maués, com tendência a desaparecer.

De onde vem a influência cultural do Amazonas?

 Índio, negro e europeu são a essência. Agora, nós recebemos uma grande leva de nordestinos, desde a década de 1870, com o problema da seca do Ceará, com a economia da Borracha, piauienses, cearenses, maranhenses, pernambucanos, a tal ponto dos pernambucanos e piauienses terem feito aqui a primeira universidade brasileira. Eu mesmo sou filho de baiano com pernambucana. Nascido em Manaus, mas com essa mistura. Isso é muito comum. Hoje nós estamos mudando para uma nova configuração. São os filhos de coreanos, de japoneses, de chineses, filhos de paulista com gaúcho, paranaense com gaúcho, por causa do Pólo Industrial de Manaus. Essas influências vem junto.

E o que tem sido feito para resgatar as tradições originais?

Procuramos resgatar uma literatura regional, estimular a produção musical, literária, com a formação de grupos artísticos, sobretudo centrada numa ação de formação de recursos humanos, seja artístico ou técnico. Nosso Liceu de Artes Cláudio Santoro está aí para isso. Ele forma o aluno que está aprendendo todo instrumento de orquestra, canto, dança, instrumento de música popular, artes visuais, cinema e forma o contrarregra, diretor de iluminação, o maquiador, costureira, bordadeira, que são o apoio pro artista. Não adianta eu ter o artista e não ter o corpo técnico. A ação cultural exige uma engrenagem. Então, há uma política pública de cultura com uma gestão profissional e qualificada que tem uma abrangência tão importante, que é um exemplo que eu dou: hoje, uma criança entra no Cláudio Santoro com 4 anos de idade e pode chegar numa universidade, no curso superior de música ou de dança. Essas coisas quando foram feitas foram conectadas. Fui eu quem implantei o curso de dança e de música da universidade (UEA), ao mesmo tempo em que eu era secretário aqui. Pra quê? Pra haver essa conexão. Essa conexão tem que continuar com as artes visuais, com o teatro, porque eu vou formar profissionais. É uma nova geração e é uma geração ao mesmo tempo de artistas, de técnicos e de expectadores.

Como a população do Amazonas têm acesso a essa cultura?

Com os grandes festivais. Porque eles se constituem em eixos, ícones de promoção internacional do Estado. Com a promoção nacional e internacional, eu atraio a atividade turística, fortaleço a economia e incremento o orçamento da cultura. Segundo, ao mesmo tempo, eu gero a oportunidade de um programa pedagógico de formação que eu não teria sem o festival. Não tem um festival, seja jazz, seja ópera, seja teatro, seja cinema, todos eles têm uma bateria pedagógica, porque ao mesmo tempo em que eu estou apresentando o espetáculo, eu estou qualificando os nossos técnicos e os nossos artistas. Essa conjugação de um grande evento internacional serve para entretenimento, para construção de um calendário cultural de porte internacional do Estado, o deslocamento do pólo cultural brasileiro do eixo Rio-São Paulo. O festival de ópera gerou um patrimônio para o nosso povo. Um acervo de mais de R$ 60 milhões. Um investimento de R$ 5 milhões que deixou quatro óperas novas. Hoje nós temos 28 óperas no nosso acervo.

Na sua opinião, que peso tem para o Amazonas sediar a reunião da SBPC?

A SBPC é um fórum de discussões acadêmicas. É um tempo de avanços científicos, reúne um sem número de estudiosos. É muito importante que esteja em Manaus, já que tem um conjunto de universidade. Nós que tivemos a primeira universidade do país, que temos duas universidades públicas. Era preciso trazer, mostrar de perto a nova realidade da Amazônia Brasileira e sobretudo do Amazonas para esse grupo de cientistas. O tema da reunião - ciência e cultura - significa harmonia. Um está ligado ao outro intimamente. Veja por exemplo os saberes populares, que é a expressão da cultura, que fundamenta todos os estudos científicos, de laboratório, de testes. Onde é que se toma as primeiras informações sobre a Medicina, sobre os remédios, sobre a farmacêutica? Nos saberes populares, na aplicação das ervas, das plantas medicinais. Essa ciência vem da cultura. Quantas informações o homem do interior tem da capacidade de observação da natureza? A capacidade do homem da Amazônia de observar a natureza é extraordinária.

Atualmente, o boi de Parintins é a maior expressão cultural do Estado. Como o festival chegou aonde está?

Há algum tempo atrás, as mulheres amazonenses não gostavam de usar cocar, brinco de pena. Ser índio era pejorativo, era vergonhoso. Por quê? Porque nós não tínhamos encontrado nosso autorreconhecimento. Nós somos de origem indígena, de origem negra e de origem européia. Nós somos esse misto. Não tem jeito. Nós não temos como construir uma identidade valorizando somente uma das vertentes, nós não temos como nos reconhecer sem conhecer as três conjugações e o festival de Parintins contribuiu para despertar essa identidade indígena, identidade natural do dois pra lá, do dois pra cá. Depois, ele serviu como base econômica para Parintins. A forma de fazer os movimentos nas alegorias é uma expressão cultural tanto quanto a festa em si. A tradução da festa, a construção das alegorias, os figurinos, o enredo, tudo é uma tradução cultural, mas esta da solução tecnológica é uma outra expressão cultural de um outro grupo que não está na arena, que nem aparece não é nem referido mas que, sem ele, o festival não teria a expressão que tem.

Como o festival de Parintins tem influenciado a vida do povo amazonense, sua tradição cultural? Ela existe?

Eu acho que ele tem uma enorme representação na identidade amazonense. Ele tem uma grande contribuição cultural. Ele não é um boi bumbá. Ele é uma festa folco-carnavalesca, grandiosa, importantíssima. Ao mesmo tempo, sem desejar, sem que os parintinenses quisessem, ele tem sufocado e suprimido outras manifestações de outros municípios que estão copiando esse modelo como se isso fosse um modelo. Em Parintins demorou quase 100 anos pra acontecer. Eles estão transformando o boi de Fonte Boa, a ciranda de Manacapuru, o boi de Manaus em uma caricatura dessas alegorias e dessa forma de elaboração da festa. Isso não é bom. Cada um tem a sua tradução, a sua forma. A dança dos imperiais, a dança do congo, a dança do jacundá, a quadrilha regional, a ciranda tipicamente como ciranda. Agora, isso também é inevitável. Nós estamos vivendo uma intraglobalização no Estado. Influência tão grande do boi de Parintins que ele está se globalizando no Estado. Então isso é um equívoco que não é de Parintins. É da pouca resistência cultural de outras expressões. Nós temos apressado pesquisas, registros, gravações, fotografias, anotações pra termos um banco de registro disso porque está sendo avassalador. O próprio festival tem mudado, mas ele muda hoje com menos velocidade e na mesma linha de conceito. Os outros estão perdendo o conceito.

PERFIL

Robério Braga nome: Robério Braga estudos:Advogado experiência: professor de Direito, mestre em Direito Ambiental pela UEA, doutorando da Universidade de les Illes Balears (UIB), Espanha, membro do Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e atual Secretário de Estado de Cultura do Amazonas.

SAIBA MAIS

“Diálogo com escritores amazonenses” é o tema da mesa-redonda da qual participará o secretário Robério Braga. A atividade acontecerá dia 14 de julho, das 12h às 14h, no hall da Faculdade de Direito da Ufam, no espaço Prof. Oyama Ituassu Filho.