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Estudo comprova que onças vivem na copa das árvores durante a cheia dos rios

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Mamirauá e não há registros de que este tipo de comportamento ocorra em outras partes do mundo

Com a comprovação científica, a Pousada Flutuante Uacari iniciou a operacionalização de expedições científicas para turistas avistarem esses animais

Com a comprovação científica, a Pousada Flutuante Uacari iniciou a operacionalização de expedições científicas para turistas avistarem esses animais (Divulgação )

Pesquisa realizada pelo Instituto Mamirauá comprovou cientificamente que nas florestas inundáveis da Amazônia, durante o período da cheia, as onças-pintadas (Panthera onca) permanecem em cima das árvores durante aproximadamente três meses do ano. Desde a semana passada, onças estão sendo avistadas diariamente na copa das árvores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas. Não há registros de que este tipo de comportamento ocorra em outras partes do mundo.

"Esse é um comportamento inédito para grandes felinos, que precisam de grandes quantidades de alimento todos os dias para sobreviver e que até agora eram considerados terrestres", afirmou o pesquisador Emiliano Esterci Ramalho, responsável pelo Projeto Iauaretê, desenvolvido desde 2004 pelo Instituto Mamirauá, com o objetivo de estudar a ecologia e promover a conservação da onça-pintada na várzea Amazônica.

Ainda em 2013, os pesquisadores já haviam avistado os espécimes nas árvores, um, inclusive, com seu filhote: "Seguindo a trilha do GPS de uma das nossas onças-pintadas encoleiradas, uma fêmea, a achamos com seu filhote de seis meses vivendo numa árvore a 12km de distância do solo seco mais próximo. O filhote dormiu na nossa frente. Isso implica que as onças-pintadas fêmeas estão vivendo nas árvores e nadando diariamente para outras árvores para conseguir caçar presas", relatou Emiliano. 

O ambiente da várzea da Reserva Mamirauá possui características bem específicas, como a variação do nível d' agua, variando anualmente em média 10 metros. Segundo o pesquisador, o comum seria que esses animais terrestres se deslocassem para áreas não inundadas. "Mas Mamirauá é uma ilha, então uma espécie que vive aqui dentro, vai ter que necessariamente cruzar o rio Amazonas toda vez que encher, ou seja, não é a melhor ideia. A alternativa é subir muito bem em árvores. O senso comum diz que "gato não gosta de água", o que não é o caso das onças, ou seja, em teoria, elas podem viver em Mamirauá".

Na opinião do pesquisador, a descoberta tem sérias implicações para a conservação da onça-pintada e levanta outras questões sobre o comportamento e a ecologia de grandes carnívoros. "As florestas de Várzea, que foram esquecidas em propostas de conservação para a onça-pintada no passado, são áreas extremamente importantes para a onça-pintada na Amazônia porque abrigam um grande número de onças-pintadas, são áreas de reprodução da espécie, e também porque os animais que vivem nessa região da Amazônia tem uma ecologia única. Aumentar o número de áreas protegidas na várzea pode ser crucial para a sobrevivência das onças-pintadas na Amazônia", afirmou.

Turismo científico

Com a comprovação científica de que as onças de Mamirauá permanecem na copa das árvores, a Pousada Flutuante Uacari, em parceria com a equipe de pesquisa do Projeto Iauaretê, iniciou a operacionalização de expedições científicas para turistas avistarem esses animais. "É a primeira expedição científica com onças-pintadas da Amazônia", afirmou Gustavo Pereira, gestor operacional da Pousada Uacari.

As expedições são parte de uma estratégia de conservação que tem o objetivo de aumentar o valor da onça-pintada para as comunidades da Reserva Mamirauá. O recurso das expedições será usado gerar benefícios econômicos para as comunidades locais e para apoiar a continuidade do projeto de pesquisa com onças-pintadas visando reduzir o conflito entre onças e comunidades locais. A Pousada Uacari é um projeto de turismo de base comunitária, cuja gestão é compartilhada entre o Instituto Mamirauá e comunidades da Reserva Mamirauá.

*Texto de Eunice Venturi/Assessoria de imprensa do Instituto Mamirauá