Log in

Bem-vindo Log out Alterar dados pessoais

Esqueceu a senha?

X

Qualquer dúvida click no link ao lado para contato com a Central de Atendimento ao Assinante

Esqueceu a senha?

X

Sua senha foi enviadad para o e-mail:

Rio Madeira: vazante revela rastro de destruição

Após atingir nível recorde na cheia deste ano e deixar milhares de famílias desabrigadas no interior, nível do rio começa a baixar e deixa à mostra os prejuízos, que vão desde casas destruídas pela força das águas até plantações inundadas e aterradas

Desolado, o agricultor Raimundo de Queiroz Filho observa o que se transformou a plantação de cacau, macaxeira e banana que ele mantinha na comunidade Santo Amaro, zona rural de Novo Aripuanã: tudo foi alagado e, depois, aterrado

Desolado, o agricultor Raimundo de Queiroz Filho observa o que se transformou a plantação de cacau, macaxeira e banana que ele mantinha na comunidade Santo Amaro, zona rural de Novo Aripuanã: tudo foi alagado e, depois, aterrado (Bruno Kelly)

O prenúncio de uma cheia recorde na região do baixo Amazonas tem como pano de fundo o rastro de destruição que a enchente deste ano deixou na calha do rio Madeira, e que agora a vagarosa descida das águas vai revelando. Cidades alagadas, plantações submersas, casas destruídas, famílias desabrigadas. Cenários que vêm se repetindo em um intervalo de tempo cada vez menor. Nos últimos quatro anos, a cheia bateu recorde em quatro calhas de rios do Amazonas – Branco, em 2011; Negro e Solimões, em 2012; e Madeira, em 2014.

No médio e baixo Amazonas, região que “recebe” o volume de água dessas calhas, a última grande cheia aconteceu em 2009, quando o rio chegou à marca de 9,45 metros. Este ano, a estimativa é que a cota máxima seja superada entre os dias 8 a 10 de junho, segundo o coordenador de Defesa Civil de Parintins, Suami Patrocínio. Na sexta-feira, estava em 9,30 metros. E, se depender da enchente do rio Madeira, deve ser uma das maiores da série histórica. “A água do Madeira está chegando, este ano tem tudo para superar a de 2009”, analisou Patrocínio.

Prejuízos

Mas não é só o fenômeno da natureza que está batendo recordes. Os estragos também. Em todo o Amazonas, mais de 230 mil pessoas já foram atingidas pela enchente, 31 municípios declararam situação de emergência e, dois, estado de calamidade pública, segundo a Defesa Civil estadual. Em Novo Aripuanã (a 225 quilômetros de Manaus), que está em situação de emergência, foram 1.198 famílias afetadas e mais de 600 desabrigadas pela cheia do rio Madeira, que este ano superou a enchente recorde registrada em 1993 e atingiu a cota de 25,63 metros.

Enquanto quem vive na calha do Amazonas acompanha, com apreensão, a cheia nos outros rios, os moradores da calha do Madeira esperam a água baixar para voltar para casa e contabilizar o prejuízo.

Aos 58 anos, o agricultor Raimundo de Queiroz Filho conta que nunca viu estrago tão grande. Ele, que perdeu plantações de açaí, mandioca, mamão, banana e cacau - inundadas e aterradas -, teve a casa invadida pelas águas barrentas do Madeira e precisou se mudar com a família para um barco, onde mora desde o dia 1º de abril. Fiz o assoalho da minha casa 20 centímetros mais alto do que a marca da enchente de 1997. Mas este ano o rio subiu 55 centímetros acima do meu assoalho. Casa, plantações, tudo ficou debaixo d’água”, disse Raimundo, que mora na comunidade Santo Amaro, zona rural de Novo Aripuanã.

Da plantação dele, restaram apenas alguns pés de cacau. Todo o resto foi destruído pela água e pelo barro, que aterrou os roçados com o início da vazante. “Um prejuízo incalculável. É triste de ver”, lamentou.

Casas destruídas pela água

Das mais de 600 casas atingidas pela cheia do rio Madeira na zona rural de Novo Aripuanã, pelo menos 100 delas foram totalmente destruídas pela força da água, que em muitos casos chegou a partir os imóveis ao meio e arrastá-los para o meio do rio. Os dados são da prefeitura municipal.

Quem passa pela comunidade São Pedro custa a acreditar no que a força da natureza foi capaz de fazer com a casa dos vizinhos de Rodrigo Cabral, 26, dividida pela correnteza do Madeira. O cenário é de assustar, e lembra mais uma cidade destruída por fenômenos como tsunamis e furacões. “É impressionante”, comentou.

Casas tombadas, sem paredes, janelas, telhados e assoalhos são inúmeras às margens do Madeira. Muitas delas terão que ser reconstruídas. Em outros casos, uma reforma pode ser suficiente.

Pelo menos, é o que espera o agricultor Miguel Pavão, 40, que após dois meses morando com a sogra, voltou para casa esta semana. Ele conta que perdeu a plantação de macaxeira e cacau, mas tem esperança de recuperar a casa. “A água arrancou muitas tábuas, vamos ter que reconstruir tudo, mas tenho esperança que vai dar certo”, relatou ele, enquanto levava os móveis e eletrodomésticos de volta para casa, com a ajuda do irmão.

Pontos

O Governo do Estado anunciou anistia e renegociação de dívidas junto à Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) a produtores rurais que sofreram prejuízos com a cheia. Segundo o Instituto de Desenvolvimento do Amazonas, as culturas mais afetadas foram: banana, com perda de 84,7 mil toneladas; macaxeira (39,2 mil); mandioca (11, 8 mil); maracujá, (1,5 mil) e milho (1,1 mil).A Fundação Amazonas Sustentável (FAS) também está realizando ações de saúde, distribuição de filtros e hipoclorito, reconstrução de casas e distribuição de mudas e sementes. Segundo a prefeitura de Novo Aripuanã, as famílias afetadas receberam 358 cestas básicas, 1.150 kits com água e alimentos, 630 kits de higiene pessoal e 630 kits dormitório (rede, toalha e lençol).

‘E a enchente do rio levou...’: Famílias da zona rural perderam a safra do ano

Dramas como o de Raimundo Queiroz Filho se repetem em todo lugar, ao longo das margens do rio Madeira. O agricultor Francinal Rodrigues Coelho, 36, precisou deixar para trás a casa, na comunidade Zé João, e mudar com a mulher e os três filhos para a residência de parentes, onde espera o nível do rio baixar para que possam voltar à rotina. O mesmo aconteceu com as outras 12 famílias que vivem nessa comunidade e mais de 600 em todo o Município de Novo Aripuanã.

Mas o prejuízo vai muito além da reconstrução da casa, que inevitavelmente vai precisar de reparos, uma vez que a correnteza do rio Madeira é tão forte que arranca tábuas e joga árvores contra elas. A maior preocupação de Francinal é com o sustento da família, que vem exclusivamente da agricultura.

Como os outros, ele perdeu plantações de mandioca, açaí, banana e cacau – carro chefe da economia local. Francinal relata que a plantação de 3 mil pés de cacau foi inundada e que, das três toneladas que ele esperava colher este ano, só conseguiu salvar 200 quilos. O resto foi por água abaixo. Literalmente. “Dos R$ 20 mil que esperávamos lucrar com a venda da nossa produção este ano, que era o dinheiro para sobrevivermos até a próxima safra, só vamos conseguir R$ 1 mil, com a venda desse cacau que restou. Todo o resto a água levou”, disse.

Com as plantações alagadas, Francinal precisou se adaptar para colher o que restou nos poucos pés de cacau que sobreviveram à cheia. Para salvar os frutos das formigas, que “invadiram” as árvores que sobraram, ele passou a usar a canoa para colher o cacau, enquanto o nível do rio não baixa. “É o jeito que a gente encontrou para o prejuízo não ser ainda maior e poder levar alguma coisa para o sustento da casa. Mas precisa ter muito equilíbrio”, contou.

Além das casas, os moradores das margens do rio Madeira aproveitam a descida das águas para reconstruir e recuperar escolas, que ficaram alagadas, e até igrejas, como a da comunidade Santa Maria. Mutirões são feitos para lavar móveis, assoalhos e as paredes e, assim, tentar retomar a rotina que tinham antes da cheia recorde.

Blog: Virgílio Viana -  superintendente-geral da FAZ

 “A atuação da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) em eventos extremos, como a cheia do rio Madeira, inclui ações de curto, médio e longo prazo. No campo social, promovemos ações de saúde, com vacinação e distribuição de filtros e hipocloreto. No campo econômico, a distribuição de sementes de culturas que podem dar um retorno a curto prazo. A longo prazo, promover a discussão, entre os próprios ribeirinhos, sobre adaptação e mudanças de estratégias na produção rural. Em vez de levarmos a solução, levamos um debate. Temos que estimular esse debate também junto às prefeituras, governos federal e estadual, para que essa não seja uma agenda apenas emergencial, mas estruturante e relacionadas aos eventos climáticos extremos”.

*Repórter viajou a convite da FAS