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Quinta maior cheia da história obriga famílias a viverem sobre tábuas

A grande cheia do rio Negro deste ano obriga a população da Zona ribeirinha a viver sobre as marombas

O martelo é a arma de dona Daílde Baraúna para enfrentar a cheia no bairro

O martelo é a arma de dona Daílde Baraúna para enfrentar a cheia no bairro (Lucas Silva)

Com o registro de 29,44 metros da cheia do rio Negro na última sexta-feira, chegar em algumas áreas da cidade como a zona ribeirinha de bairros das Zonas Oeste e Sul é um exercício de malabarismo sobre pontes, algumas tão estreitas que colocam em risco a segurança dos moradores, especialmente os idosos e crianças. Nesses locais também, a água  invadiu as casas, obrigando a construção de marombas, que são madeiras postas sobre o assoalho

Um desses locais é a rua São José, no bairro da Glória, Zona Centro-Oeste, onde mora Elci Almeida, 49. As águas chegaram, e com força, gerando preocupação com a segurança, principalmente do neto de três anos de idade. Meio que “acostumada” com as enchentes, pois mora ali há mais de 20 anos, ela lamenta, no entanto, ver que nos últimos anos só tem havido cheia grande, sinal de mudança na geografia da cidade. “Acho que estão mexendo com a terra e as águas, porque as enchentes estão vindo com mais força”, lamentou Elci, que é vendedora.

Agravamento

Nas contas dela, os anos de 2009, 2012, 2013 e 2014 trazem as marcas da mudança do ritmo das águas do rio Negro. “Em todos esses anos ficamos na maromba”, afirmou. Com cinco filhas adolescentes e um neto, ela se preocupa com a segurança de todos e com a saúde por conta da presença de animais como ratos, baratas e caracóis. “É muito bicho que tem por aqui”, disse ela, destacando a quantidade de lixo acumulada entre as casas.

De acordo com informações do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), a cheia recorde do rio Madeira influenciou a do Negro este ano. Para Elci, viver na maromba é difícil, mas não há o que fazer. A resignação é vencida com o sorriso de esperança que ela oferece para quem se propõe a olhar a casa por dentro. “Dá só tristeza ver, mas é o que se tem no momento”, afirma. A esperança dela é o Programa Social e Ambiental de Manaus (Prosamim), que retirou algumas moradias da área e deve voltar. Enquanto isso, Elci prepara os alimentos para vender, refaz a esperança de que terá, em algum dia, uma moradia digna para viver com a família. “A esperança é que nunca morre”, diz.

Bairros

Pelo menos 14 bairros da cidade de Manaus foram atingidos pelas águas da enchente que já é a quinta maior já registrada pelo CPRM em Manaus. Na quinta e sexta-feira, no entanto, o nível das águas permaneceu em 29,44 metros.

Outra que mora ali, durante 57 dos 58 anos de idade, Socorro Lima se preocupa com o neto. O fato de ficar só em casa é ruim porque não há espaço. A demora pela indenização que será feita pelo Prosamim a fez passar por mais uma enchente naquele local. “Muitas casas foram retiradas daqui, estou esperando a minha vez”, disse ela, cuja vontade era conseguir um bom valor para comprar outra casa próxima dali. “Vivi minha vida toda aqui, ter que sair para longe vai ser sofrido”, afirmou ela,  sabendo que a saída é a melhor alternativa, já que a cada ano as águas estão chegando mais altas e trazendo mais riscos para a vida dos moradores. “Isso não é vida”, assegurou.

No beco do Aterro, na Betânia, Zona Sul, há um mês, Dailde Baraúna, 50, teve que construir a maromba (piso sobre o assoalho) que na última sexta-feira,  estava sendo reforçada para acomodar os móveis e demais objetos da casa. “O jeito que tem é a gente fazer”, disse ela, que é viúva e ainda espera conseguir um marido. Enquanto isso, ela trabalha vendendo roupa, alimentos e o que aparecer. “Gosto e preciso trabalhar”, explica. Daílde, que foi professora por 35 anos em Maués (a 260 quilômetros de Manaus). Para chegar em casa, ela tem que passar por um caminho de pedras e depois subir na ponte construída pela Defesa Civil. Já em casa, a ponta foi ela quem construiu com madeira arranjada porque não viu ajuda ainda.

Morador do beco, seu Marcírio Campos, 57, autônomo que conserta geladeira, lavadora de roupa e fogão, diz que a agonia é diária ao ver a água subindo e trazendo imundícies para dentro de casa. Junto à filha Diene Maquiné, 20, que tem um filho de dois anos de idade, ele é outro preocupado não só com a chegada das águas, mas com elas os ratos, caramujos e baratas. “É muita sujeira que vem pra perto de nós”, diz ele. Leanderson Vasconcelos, 24, tem um comércio cuja mercadoria está na maromba, que foi suspensa pela segunda vez. Para ele, a alternativa era a retirada de todas as casas, mas esse processo é demorado. Enquanto não chega, vai livrando a si e a família e aprendendo a contornar os efeitos das águas, afinal, essa tem sido sempre a vida dos amazonenses.