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Famílias indígenas cobram respeito de profissionais da saúde

Comunidades da região do Marau, em Maúes, reclamam que não há respeito dos profissionais para com as tradições indígenas, o que afeta o atendimento

Povo de sorriso fácil, Sateré-Mawé habitam a região do rio Marau, entre Maués e Barreirinha

Povo de sorriso fácil, Sateré-Mawé habitam a região do rio Marau, entre Maués e Barreirinha (Érica Melo)

As 47 comunidades que compõem a reserva indígena Andirá – Marau, no município de Maués (a 268 quilômetros de Manaus) enfrentam os problemas mais variados quando o assunto é saúde pública. Faltam medicamentos, agentes de saúde e até lanchas para transportar os doentes para os pólos de saúde.

Entretanto, a principal queixa dos quase cinco mil indígenas da etnia Sateré-Mawé, que habitam a região, é que não há respeito dos profissionais da saúde para com as tradições indígenas, o que afeta o tratamento e a qualidade do atendimento.

No último sábado, durante uma audiência pública em que eles discutiram com políticos e lideranças indígenas os problemas coletivos da região do Marau – como saúde e educação –, a indignação manifestada sinalizou a falta de diálogo no trato com as famílias indígenas. “Técnicos de enfermagem que nos atendem hoje não são indígenas e não conhecem a nossa realidade. Sem conhecer, eles não têm como respeitar”, reclamou a professora da comunidade Terra Nova, Cristina Santos de Souza. Ela ainda comentou que os aproximadamente 37 agentes de saúde da região, além dos profissionais que atuam na Casa de Saúde Indígena (Casai) e no hospital de Maués, possuem conhecimento técnico, mas não estão preparados para trabalhar com os indígenas. “A gente se sente desrespeitado e humilhado. Em vez de entender nossos costumes, eles querem nos tratar como se não fôssemos um povo diferenciado”, reclamou.

Tradição

Cristina conta que quando as mulheres da etnia ficam grávidas pela primeira vez ou são de idade avançada, é costume, entre os Sateré-Mawé, que o marido acompanhe a esposa e passe pelo período de resguardo com ela. “Quando a mulher está de resguardo, o homem também está. Os dois não fazem esforços, não comem certas comidas e ficam juntos até que o umbigo da criança caia”, relatou a professora.

Entretanto, Cristina e outras mulheres reclamam que os profissionais de saúde não permitem a presença masculina nas enfermarias. “Eles alegam que não tem comida para os dois nem estrutura física. Mas mesmo se levarmos nossa comida, eles não aceitam”, continuou.

Os desentendimentos não param por aí. Para a indígena Maria José, da comunidade Menino Deus, lembra que a alimentação na etnia também possui regras específicas, como a que diz que as mulheres não podem comer peixe no período inicial de amamentação. “Mas nos hospitais a comida é essa e se não comermos, passamos fome. Não há opções. Pode não parecer grave, mas é uma agressão à nossa cultura”, ressaltou.

Para Maria também é um “crime” cortar o cordão umbilical do recém nascido e jogar fora como fazem as enfermeiras. “Nós esperamos o umbigo cair e pegamos uma tala, enrolamos o cordão umbilical e enterramos. Há um significado mítico nisso. Não podemos simplesmente cortar com uma tesoura e jogar fora”, reclamou.

Problemas na infraestrutura

O conselheiro municipal de saúde da etnia Sateré-Mawé, Zervaldo Pereira da Silva, salientou que além do fator cultural, outros problemas concretos na área da saúde afetam os indígenas. O primeiro deles é a falta de Agentes Indígenas de Saúde (AIS). Para 47 comunidades, existem em torno de 37 agentes. Segundo ele, o ideal era que cada comunidade tivesse pelo menos um agente. Porém para comunidades maiores seriam necessários mais um profissional da área.

Conforme o conselheiro não é o que acontece. “Temos nove agentes de saúde aguardando contratação. A maior parte deles trabalha como voluntário e nunca foram formalizados. Também não há capacitação desses profissionais. Trabalhamos do jeito que dá”, disse.

Outra queixa do conselheiro é a falta de medicamentos. Conforme contou, desde outubro do ano passado, os medicamentos deixaram de ser entregues. “Só recebemos ibuprofeno, sulfa e soro fisiológico. Não temo acesso à paracetamol e nem soro antiofídico”, informou.

Recurso não chega na ponta

A audiência pública, organizada pela Comissão de Educação e Assuntos Indígenas da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM), verificou outras deficiências no setor de saúde na reserva do Marau.

Para o presidente da comissão, deputado estadual Sidney Leite (Pros), que mediou a discussão, a falta de prédios adequados para servir de casa de saúde e hospitais nas próprias comunidades, equipamentos e mais lanchas para o deslocamento dos doentes estão entre as demandas levantadas por cerca dos 200 indígenas presentes na reunião.

O parlamentar informou que um recurso de R$ 1 bilhão é destinado para resolver problemas de infraestrutura na área de saúde e saneamento em terras indígenas. “Mesmo com a criação da Secretaria de estado para os Povos indígenas (Seind), o recurso não chega na ponta. Por isso precisamos investigar os motivos”, alegou.

Ainda conforme o deputado estadual, as demandas apresentadas no debate serão encaminhadas até a próxima semana ao Ministério Público Federal (MPF), em forma de relatório. “Já iniciamos uma discussão no MPF para a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) voltado para a saúde indígena do Estado. O relatório vai contribuir na definição de quais responsabilidades cabem ao Estado e quais cabem ao município”, detalhou.