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Seca recorde do rio Negro, no Amazonas, faz surgir raridades arqueológicas

Vazante fez surgir gravuras rupestres feitas há pelo menos 7 mil anos em pedras localizadas às margens do rio Negro, na ‘área das lajes’

Entre os achados está uma pedra tomada por rostos. Entre as fisionomias se destaca a de um moleque sapeca. Imagens pode ser vistas melhor à noite devido o reflexo da lua

Entre os achados está uma pedra tomada por rostos. Entre as fisionomias se destaca a de um moleque sapeca. Imagens pode ser vistas melhor à noite devido o reflexo da lua (Foto: Walter Calheiros/Free lancer)

Uma raridade arqueológica foi descoberta às margens do rio Negro, em Manaus, graças à vazante extrema deste ano: gravuras rupestres nas rochas localizadas nas proximidades do encontro das águas. O local é mais conhecido como “área das lajes” e pertence à União. Entre os desenhos está uma série de rostos humanos gravados nas pedras localizadas à beira do rio. Também foi possível identificar figuras geométricas, espirais e desenhos sinuosos em forma de cobra.

Com a subida do rio Negro, os desenhos começam a ser cobertos pela água. No início da semana passada, o subgerente do Centro de Projetos e Estudos Ambientais do Amazonas (Cepeam), um departamento da Associação Brasil Soka Gakkai, Akira Tanaka, registrou em fotografia os entalhes de vários “rostos” que haviam sido descobertas por um pescador que passava pelo local.

Anteontem, a área já estava submersa, mas outra pedra onde o nível do rio ainda não chegou continuava visível. A área das lajes localiza-se próximo a uma praia, nos fundos do Cepeam, e ao lado do Mirante da Embratel, localizado no bairro Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste.

 A bióloga Elisa Wandeli frisou que a descoberta é inédita, pois as peças mais comuns encontradas na área são cerâmicas e urnas funerárias, objetos que fazem parte do chamado “Período Paredão”, que compreende do século 9º D.C. “Estas são inscrições rupestres na pedra, em forma de gravuras e não de pinturas. Pode ser uma forma de comunicação social. Mas isto só os arqueólogos podem dizer”, observou.

Importância Científica

Ontem, após analisar fotografias das imagens enviadas por e-mail pela reportagem de A CRÍTICA, o presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira, Eduardo Góes Neves, que mora em São Paulo, disse que trata-se de “gravuras de grande importância científica, datadas de épocas mais recuadas, quando o clima era um pouco mais seco na região”.

Para Neves, as gravuras, foram talhadas provavelmente entre o período compreendido entre 7 e 3 mil atrás. “Talvez tenha sido feito também durante uma seca excepcional como a deste ano ou numa época em que o rio era mais baixo do que agora”, disse.

 Neves destacou que encontrar gravuras rupestres na margem do rio Negro, na região de Manaus, é algo raro, embora seja comum em outras localidades da bacia. Ele salientou a dificuldade de se fazer pesquisa em gravuras rupestres já que estas, diferente das pinturas, não deixam restos orgânicos.  

Pesquisa


O historiador André Bazzanela, ex-superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), disse que os “petróglifos cujo desenho lembra um rosto humano geometrizado”, como ele prefere chamar as gravuras, lembra os encontrados em Itacoatiara, onde também há muitos rostos gravados em pedra, alguns deles em quadrados.

Mas ele destacou que para qualquer análise é preciso que seja realizada uma pesquisa mais aprofundada.
 “É importante ver que a inscrição está em um abrigo e não na face exposta da rocha, ao contrário das espirais e linhas sinuosas encontradas também na Ponta das Lajes. Esta situação tem, com certeza, um significado, uma vontade de perpetuação”, comentou André Bazzanela.

Tanto o historiador quanto Eduardo Góes Neves lembraram que pesquisas na margem do rio Negro vêm sendo desenvolvidas pelo arqueólogo Raoni Valle. A reportagem tentou entrevistar Valle, mas foi informada de que ele está fazendo “trabalho de campo”, na região do alto rio Negro, incomunicável.

“O Raoni fez alguma coisa empiricamente naquela região, levantando a hipótese de que, por algumas gravuras estarem permanentemente sob as águas, as inscrições poderiam datar de até 7 mil anos, quando o nível do rio Negro estaria mais baixo”, disse Bazzanela.

Para o historiador, é preciso fazer uma pesquisa dos símbolos empregados e um levantamento iconográfico comparativo. “De qualquer modo, a aparente relação entre Manaus e Itacoatiara que surge por meio desses petróglifos, caso seja confirmada, é mais um importante passo na construção da história do território da Amazônia.”