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O japonês que quis ser índio: imigrante vive há 13 anos isolado entre ruínas na Amazônia

Shigeru Nakayama, de 65 anos, é o único morador de Airão Velho, cidade abandonada no meio da floresta amazônica. Há 13 anos vivendo entre construções abandonadas, ele é o guardião da história local - e só quer sair se deixar um sucessor

Nakayama sabe da importância da história da região e faz de tudo para preservar a área, que é patrimônio histórico localizado dentro de parque estadual

Nakayama sabe da importância da história da região e faz de tudo para preservar a área, que é patrimônio histórico localizado dentro de parque estadual (Fotos: Victor Affonso)

O município mais perto de Shigeru Nakayama - um imigrante japonês de 65 anos, sendo 52 destes vividos no Brasil – está a quase oito horas de distância de canoa equipada com rabeta, único meio de transporte que ele dispõe. Para voltar até sua casa é o dobro do tempo, já que precisa ir contra a correnteza do Rio Negro. Seu Nakayama, como é conhecido por todos da região, é o único morador de Airão Velho, município amazonense abandonado completamente no início da década de 1960 e que, hoje, conserva apenas nove prédios, sendo só dois de alvenaria, além de três ruínas e um cemitério, com lápides que datam de meados do século 19, e se diz o único preocupado com a conservação do local.

Nakayama mora há 13 anos no local e adora a tranquilidade que a floresta amazônica lhe proporciona. “Muito diferente das cidades grandes, principalmente as do Japão. Sempre quis me meter na mata”, explica, num bom humor que parece habitual. O japonês natural de Fukuoka carrega um sotaque ainda bastante forte que nem meio século no Brasil amenizou, mas que se mistura naturalmente às expressões nortistas. Quando perguntado se ele se ofende ao ser comparado com um ribeirinho, Nakayama nem deixa a pergunta terminar ao interromper, exclamando “Mas eu SOU caboclo! Como vou me ofender?”.

Ele passa a maior parte do tempo sozinho em meio às ruínas de uma cidade fundada pelos portugueses e que foi muito importante para a região durante o Ciclo da Borracha. Sozinho exceto quando recebe turistas, a maioria estrangeiros, curiosos pela história do local; jornalistas e pesquisadores; nos dois festejos religiosos comemorados na cidade antiga, um em janeiro e outro em julho, quando são celebrados os santos padroeiros da cidade e do estado; e quando é ocasionalmente visitado por seu vizinho, que mora a 50 metros de distância (depois dele, o mais próximo mora a 20 minutos de barco), mas que fica mais tempo em Novo Airão.

Mas Nakayama está ficando impaciente. “É tudo nos meus ombros”, desabafa, reclamando do descaso com a conservação da estrutura e história do local por parte do município, do Estado – já que Airão Velho está situado no Parque Estadual Rio Negro Setor Norte, a poucos minutos dos Parques Nacionais de Anavilhanas e do Jaú – e de órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam).

Enquanto ninguém colabora com nada ao agricultor, sua principal atividade, Nakayama continua cuidando da área. Ele leva a preservação tão a sério que mantém sua horta a 100 metros da residência, já que o local é tombado como patrimônio histórico e não poderia servir como local de plantação. Seu maior medo, como revela, é que a história de Airão Velho se perca, mas sabe que é um risco iminente já que, do jeito que está, ele admite aguentar mais dois anos, no máximo. Depois disso, planeja morar em Belém, onde seus outros dois irmãos constituíram família.

Mas se engana quem acha que o imigrante é solitário. "Acho muito bom o sossego. Alguns anos atrás não tinha luz, rádio e nem televisão. Hoje tem tudo. Eu, que já estava acostumado a essas coisas, ia morar sozinho só com a lamparina, sem rádio nem TV?! Ia nada! Tem que ter. Eu tenho freezer, tenho televisão, rádio, tudo aqui. Só celular que não pega. Não estou totalmente isolado do mundo, ainda não virei macaco não", diz, rindo, enquanto traga seu cigarro.

A visão de vida de Nakayama impressiona por fazer um contraste entre o moderno e o tradicional. Quando indagado se ser de uma época em que as tecnologias não eram tão difusas ajuda a superar o isolamento, ele é rápido na resposta: "Bom, sim, mas se não tivesse essas coisas quem é que ia morar aqui? O pessoal daqui é acostumado porque nasceu e se criou assim, então não está nem aí se não tem televisão. Eu não", responde, novamente entre risos.

No meio do bom humor, que se mistura naturalmente a uma timidez nipônica, restam as atividades diárias: Nakayama segue uma rotina habitual, ao acordar cedo e limpar o terreno, cuidar da sua plantação (que tem de tudo, desde melancia, limão e cupuaçu até tomate e repolho), receber eventuais visitantes, pescar ou caçar (cutia, paca e tucunaré são os pratos prediletos) e recolher objetos centenários, que não deixam de aparecer a cada nova capinada.

"Comecei a organizar um pequeno museu num dos quartos da casa onde moro com as coisas que acho", revela. "Para quem tem condições, é fácil e rápido montar um museu, mas para quem não tem, como é o meu caso, é aos poucos. E tudo que acho guardo: um pedaço de ferro, uma foto antiga. Mas tem também telhas portuguesas, uma garrafa holandesa antiga, um artefato indígena, uma espingarda do século passado...".


Nakayama mostra os pertences que compõem o seu humilde museu - montado num dos cômodos da casa onde vive

O valor histórico dos objetos é o que motiva o japonês a organizar seu museu com tanta dedicação. "Isso é a história daqui. Quando as pessoas perguntam como era naquela época da borracha, tem uma foto ou um objeto para comprovar", diz, sempre lembrando de Glória Bizerra, última descendente e herdeira de Francisco Bizerra, coronel de barranco de Airão Velho, na época chamado apenas de Airão, que mandava e controlava toda a área. Foi ela quem chamou Nakayama para servir como uma espécie de caseiro da cidade esquecida, no início dos anos 2000.

Glória Bizerra já morava em Novo Airão há décadas quando conheceu Nakayama, que estava se mudando do Jaú após três anos morando no local. Ele foi obrigado a sair por determinação do Governo, que tinha acabado de transformar a área no Parque Nacional do Jaú, mas Nakayama nem se incomodou muito, pois contou com uma ajuda do destino para localizar sua residência seguinte. "Eu estava subindo o rio quando ela me chamou e me convidou para ficar morando aqui. Eu disse que tudo bem, mas que iria embora assim que reabrisse (a área), e ela concordou".

Depois de um ano, ele quis partir, mas Glória não deixou. "Acabou que ela morreu em 2012 e eu ainda estou aqui. Antes ela me ajudava, mandava algumas coisas (alimentos, ferramentas), mas eu já plantava para me manter, então, consegui continuar sobrevivendo", lembra o agricultor, com um semblante saudoso. Nakayama imaginava que sua antiga patroa gostaria de ser enterrada junto com sua família, no cemitério de Airão Velho, que concentra lápides com datas como 1892.

"Muitas coisas que eu sei foi a dona Glória que me ensinou, me contava muitas histórias e eu guardava na memória. Agora não pois a maioria já faleceu, mas até dez anos atrás muitas pessoas que moraram em Airão Velho e nessa região ainda estavam vivas, com 80, 90 anos, e eu ia atrás desse pessoal para perguntar. Lá em Novo Airão, no Jaú, em qualquer canto que estivessem eu ia atrás", conta, dizendo que sempre foi guiado pela curiosidade. "Eu queria entender o que foi aqui e o que tinha acontecido".

Morando entre ruínas, Nakayama realiza um sonho que habitou sua mente desde que era criança

Nessa busca incansável, o japonês virou um especialista na área e sabe tanto quanto os guias que transportam turistas pela região. Airão Velho, inclusive, é uma das paradas quase obrigatórias nesses passeios pelo Rio Negro, onde o único morador da cidade caminha pelo local com estrangeiros, sempre munido de seu terçado, contando histórias da época da borracha e dos coronéis de barranco. Mas a crescente falta de interesse pela história da Amazônia preocupa Nakayama cada vez mais: segundo ele, o ecoturismo está matando o valor histórico da área. 

"Antigamente a história daqui fascinava as pessoas, mas hoje em dia existe o que chamam de ecoturismo. Onde tem animais, cachoeiras, pedaço da floresta bonita, já é ecoturismo, e as pessoas gostam mais destes roteiros. Aqui não tem nada disso, é só casas antigas e ruínas, além dos objetos que acho quando limpo e  guardo, e cada vez está diminuindo mais o interesse. As pessoas preferem ir mais para outros cantos. Não querem saber de história, querem é ver macaco", desabafa.

Segundo ele, em certos meses grupos de até 100 pessoas desembarcam no município de um habitante só, e o número de visitas vem crescendo a cada ano. O Ipaam até mandou uma lista onde ele deve anotar os dados das embarcações e pessoas que visitam o local. "Às vezes vêm duas lanchas grandes de Manaus, cada uma com 30, 40 estrangeiros. Tem agência de turismo que atende só americano, por exemplo, e quando faz a visita ao Parque Nacional de Anavilhanas (no entorno do Parque Nacional do Rio Negro Setor Norte), eles sempre param aqui. E se vem duas vezes ao mês, já basta isso para completar 100 visitantes. O resto vem de rabeta, motor de poupa, duas ou três pessoas", comenta Nakayama.

As pessoas que ainda vão ao seu encontro - e isso inclui norte-americanos, italianos, alemães e chineses, além dos brasileiros, entre turistas e pesquisadores - recebem uma digna aula sobre a região, inclusive sobre a verdadeira história da desocupação de Airão. E o imigrante deixa claro que não há nenhuma taxa obrigatória a ser paga. "Já disseram que eu tenho que cobrar por estar deixando de fazer algum trabalho meu, mas eu não gosto", resume. O que mais impressiona os visitantes? "A questão da borracha. Eles se encantam com as seringueiras, acham incrível como o leite sai do tronco e depois se transforma em borracha. Mas eu explico que aqui tudo foi plantado", esclarece, sempre preocupado em dizer a verdade. 


O japonês demonstra para visitantes como era feito a extração do látex nas seringueiras da Amazônia

O mito das formigas terem expulsado os moradores do município, o que teria consequentemente deflagrado a criação de Novo Airão, é um assunto que chega até a irritar Nakayama. Quando indagado se essa história é verídica, o agricultor grita, num misto de sotaque japonês e amazônico, "Não senhor!", e explica: "Não tem nada disso. Isso é história do prefeito Hilton Santos. Era meu amigo, mas foi uma questão política. Inventou isso para tirar dinheiro. E o historiador Vitor Leonardi escreveu isso também. E você sabe, escreveu já era, o pessoal acredita no que está escrito. Depois para explicar que não é nada disso é complicado. O que eu sempre explico é que foi a economia que fracassou e isso levou as pessoas a abandonarem a cidade".

Mas, apesar de Nakayama morar no meio da floresta amazônica e, literalmente, tirar todo seu sustento da selva, ele sabe que a área não é dele. "Aqui é patrimônio histórico e Parque Estadual. Eu não saio porque eu gosto muito daqui. Se eu sair, a historia daqui vai morrer, e eu não quero isso. Tem até algumas pessoas próximas daqui – e eu não estou me gabando – mas a cabeça delas é muito atrasada. Não sabem da história daqui e nem se interessam. Isso que me preocupa, não quero deixar morrer esta história", diz, apreensivo.

Mas a hora de partir está próxima e ele sabe disso. O plano é voltar para Belém do Pará, onde ele tem dois irmãos, ou passar um tempo em Boa Vista, capital de Roraima, onde um sobrinho seu é político. "Meus dois irmãos vivem me chamando e eu só não levantei daqui porque ainda não é o momento certo. Mas futuramente terei que ir, não quero morrer sozinho aqui, né?", confessa. De acordo com o asiático, se tivesse alguém para assumir seu posto, a situação seria bem menos complicada, "mas não tem ninguém", como ele mesmo diz. E se não aparecer ninguém? "Bom, aí vou ter que abandonar. Só aguento no máximo mais dois anos. Vou ter que dar um jeito", completa.

Mas outra questão o preocupa ainda mais: a política regional. "Aqui é território de todos. É Parque Estadual, então quem manda é o governo do estado do Amazonas, apesar de ser território de Novo Airão. Então primeiro precisa decidir quem é que vai resolver as coisas aqui. Um joga para o outro. Enquanto isso estou sozinho nessa", reclama, dizendo que a única coisa que recebeu de valor de políticos foi a rabeta, que é para todos que moram na região usarem, e um motor de luz, doado pelo então governador Eduardo Braga.

"É tudo política... Vereador, você sabe, só vem na época de eleição. Agora só nas eleições. É sempre a mesma coisa: chegam aqui, abraçam, são todos amigos, mas durante o resto do ano nem pisam por aqui. Mas é assim mesmo, brasileiro é complicado", declara, como se tivesse nascido aqui.


Você morou até os 13 anos no Japão, certo? Me explica como foi a sua vinda ao Brasil.
Bom, eu era criança e tinha que acompanhar meu pai. Ele inventou de imigrar para o Brasil, para a Amazônia, por causa de um acordo entre os dois governos (brasileiro e japonês) para implantar a agricultura oriental aqui. Sou japonês mas criado no Brasil, sou caboclo mesmo. Não sei se paraense ou amazonense, mas caboclo.

Isso foi em que ano?
1965. Aí fiquei um tempo trabalhando em Belém do Pará como funcionário na agricultura, mas meu sonho não era isso. Depois que um irmão meu casou e ficou morando com meu pai, foi quando eu disse: “Bom, agora eu que vou sair”.

Você tinha quantos anos?
18 anos. Arrumei emprego em Belém e depois me mandaram para a filial em Manaus. Fiquei dois anos trabalhando. E eu gostei daqui (do Amazonas). Mas sempre, desde pequeno, meu sonho era estar na floresta, não na cidade.

Mas o que despertou esse sonho?
Com 13 anos a pessoa já sabe mais ou menos das coisas, não é tão criança. Na minha terra era tudo muito apertado, vinha de uma guerra onde estava tudo destruído, a vida era meio ruim. Lá (no Japão) não tinha esse negócio de espaço não. Queria muito estar na floresta, meu sonho sempre foi vir pro interior. Um dia eu disse: “Agora vou andar no mato”. Numa colônia japonesa conheci um rapaz, o Nagai e combinamos de explorar o Rio Negro, uma grande área, mas grande mesmo, para fazer plantio. Mas aí implantaram o Parque Nacional do Jaú, área onde morava, e expulsaram todos, sem dar indenização nem nada.

Você chegou a ficar quanto tempo no Jaú?
Mais ou menos três anos, só com o meu plantio. Como não tínhamos barco, ficava direto. Aqui (em Airão Velho) ainda era só matagal, não estava como está hoje. Eu abandonei o Jaú e parti rumo a Manaus. Foi quando a Dona Glória Bizerra, descendente e herdeira de Francisco Bizerra (coronel de barranco de Airão Velho, na época chamado apenas de Airão, que mandava e controlava toda a área), quem eu já conhecia um pouco, teve a ideia de abrir aqui (limpar a área), como era o sonho dela, e me chamou: “Seu Nakayama, você vai para onde?”, e eu disse que tinha resolvido ir para outro canto, que ia procurar meu rumo. Ela disse “Pelo amor de Deus, seu Nakayama, queria que você orientasse o povo para reabrir (Airão Velho)”. Ela me contou o plano dela.

E as pessoas começaram a sair daqui de Airão quando?
Começou a cair na década de 1930 e abandonaram por completo nos anos 1950 e 60. Depois de 30 ainda aguentaram um pouco, começaram a produzir castanha-do-Pará que ainda segurou um pouco, mas foi fracassando, fracassando e em 60 acabou.

E até então, antes de 30, o que sustentava Airão era a produção da borracha mesmo?
É, algumas pessoas ainda se seguraram até um pouco depois disso. Mas quando as pessoas me perguntam onde é que fica o seringal, eu digo que não tem seringal. Não em Airão Velho. As seringueiras que tem aqui foram todas plantadas por ordem do dono que morava aqui, do coronel de barranco. Aqui forte mesmo era o comércio durante a época da borracha, era daqui que se despachava materiais, alimentos... O que era preciso. Isso porque muitos afluentes abaixo do Rio Negro tinham que passar por aqui. Rios Branco, Uarini, Carabinani, Jaú... Tanta coisa que tinha no seringal e tudo era comandado por ele (Seu Francisco). Então porque colocaram a administração aqui? Porque daqui que começa todos os afluentes. Seja quem for, de onde estiver vindo, é obrigado a passar por aqui. Só nos anos 60 é que mudou a sede do município para Novo Airão.

E quando você veio para cá foi logo depois que a Marinha do Brasil deixou de usar este local como área de teste, certo?
Isso, testavam tiro e míssil.

Não sabiam a cidade que tinha por trás deste mato?
Não deviam saber, pois se soubessem não teriam feito aqui. Destruiu muita coisa. Se soubessem que era patrimônio, não iam derrubar as casas. Isso foi um grande erro. Mas acabou por volta de 1994.

Já achou algumas coisas? Tinha muitas marcas nos prédios?
Ih, demais! Andando você achava muitas balas e bombas. Até hoje dá para achar algumas, se prestar atenção. Eu até tinha guardado mas acabou sumindo com os anos. Mas essa Casa Comercial (a maior ruína da cidade), por exemplo, foram eles que derrubaram.

Todo o seu alimento vem da plantação que mantém?
É, além da caça pequena, como cutia e paca, e os peixes que pesco, principalmente tucunaré. Às vezes não dá para ir até Novo Airão e aqui do outro lado (no lado contrário do rio, margem esquerda do Rio Negro) é movimentado, com três municípios além de Novo Airão. E tem toda hora passando recreio, motor particular e acabamos trocando algumas coisas.

Qual desses municípios é o mais perto?
Barcelos, que dá mais ou menos a mesma distância daqui para Manaus.

Você sabia que Barcelos já foi a capital do Amazonas muito tempo atrás, inclusive com outro nome?
Claro que sei! Aqui mesmo, até o século 18, tinha outro nome, não era Airão. Se chamava Santo Elias do Rosto do Rio Jaú. Isso foi missionário jesuíta que nomeou por ordem do governo português. Caboeira, Barcelos, Airão... Tudo tinha outro nome e ganharam nomes portugueses na mesma época.

Você usa muito remédio natural?
É difícil eu comprar remédio na farmácia. Eu uso de tudo, andiroba para mim não falta, por exemplo. Tiro o óleo e guardo, uso em arranhões, mordidas de formiga, um cortezinho... Pode passar que não inflama. Já conheço milhares de coisas, como a paracanaúba, usada como antibiótico. Tudo do mato serve para alguma coisa.

Bebe chá com coisas da mata também?
Bebo mais chá do que café, como de capim santo e de folha de abacate.

Você é bem familiarizado com a selva, parece um caboclo mesmo, um ribeirinho...
Pareço não, eu sou caboclo! Quando vou bater em Novo Airão, sou respeitado.

Mas onde você aprendeu as coisas daqui? Onde aprendeu a caçar, por exemplo?
Ah, mas quando entrei aqui no Jaú eu já tinha passado por Cacau Pirêra e Manacapuru, já estava acostumado com o mato. Já conhecia bastante a vida de interior.

Então ninguém chegou e lhe ensinou as coisas?
Não senhor, eu que fui me virando. Tinha que se virar.

Tem muita cobra nessa área?
Muita, eu até já fui mordido.

Só uma vez?
Duas. Na última eu quase perdi o braço, há seis anos. Foi uma jararaca-açu, mas apesar do nome é bem pequena (assinala cerca de 1 metro com as mãos), apesar de veneno não ter tamanho.

E como fez para não perder o braço?
Bom, eu estava capinando quando fui mordido entre os dedos da mão esquerda. Na hora eu não senti muito, só percebi quando vi o sangue escorrendo. Mas depois inchou um pouco. Eu cheguei a matar a cobra, corri no vizinho e pedi um pouco de álcool emprestado, coloquei dentro de uma garrafa com a cobra e tampei. Voltei para casa e cavei um buraco – isso é técnica indígena, foi um índio que me ensinou, para controlar o veneno. Cava-se um buraco na terra da grossura do braço e mete o braço todo, até a altura do cotovelo, e soca, tipo como se coloca uma estaca na terra, e deixa lá por mais ou menos uma hora. Mais eu só deixei por meia hora, porque cansa (risos). Apesar de ter uma sede do Ibama a uns 10 minutos de barco descendo, pedi para me levassem até Novo Airão. Rapaz me levou e quando cheguei no hospital, o médico disse que eu tinha muita sorte e me disse que, se tivesse passado mais do que 24 horas desde a mordida, eu poderia ter perdido o braço. Mas conseguiu salvar.

E onça, já encontrou alguma por aqui?
Já sim, até briguei com uma certa vez. E sem arma, eu só tinha um remo. Mas não foi aqui, foi no rio. E não foi onça vermelha não, foi a pintada mesmo. Tava pegando peixe com uma zagaia de noite e vi um brilho diferente – o olhar da onça pela noite é conhecido -, foquei a lanterna e vi que era uma onça mesmo, mas tava muito distante então nem me preocupei muito. Depois ouvi um grunhido e percebi que a onça tinha caído n’água. Ela começou a riscar a proa da canoa com as unhas e eu pensei “Comigo, não!”. Eu tinha a zagaia, tá certo que é arma, mas não tinha nem terçado muito menos a espingarda, só uma faquinha, a zagaia e o remo. Quando começou a tentar virar a minha canoa, eu percebi que a coisa era séria. Peguei o remo de itaúba, uma madeira que parece ferro de tão dura, e toda vez que a onça levantava eu metia o remo de quina na cabeça dela.

Para matar mesmo...
Não, nem para matar, não tem nem condição de matar, só para ela ir embora mesmo. 5 minutos depois de ficar batendo eu já estava cansado e pensei “Agora já era, a onça vai me comer. Se eu cair na água, vai ser pior, aí que ela vai comer mesmo”. E fiquei com medo. Rapaz, só sei que um pouco depois ela parou de segurar na canoa, deve ter ficado cansada também (risos). Aí eu fui embora, salvei minha vida.

Hoje morando aqui, qual seu maior medo?
Se tem homem que não conhece medo, sou eu. Não tenho medo de nada. Muita gente fala “Pô Nakayama, a cidade é antiga, o cemitério é bem perto...”, mas não tenho medo não. Tem que ter medo é de gente viva, não de morta.

Mas já viu ou ouviu algo de sobrenatural?
Nada. Já ouvi muita história (risos), mas ver mesmo, nada.

Você é católico?
Eu sou, por influência da minha família. Você sabe, nos países asiáticos é mais o budismo, mas como vim para o Brasil ainda criança, vivi esse sistema católico. Acabei incorporando mais o catolicismo.

Pois é, na sua casa tem muitas imagens de santos e do Papa Bento 16. Você tem o hábito de rezar?
Ah, mas isso é mais coisa da D. Glória, que era muito religiosa. Mas muito mesmo. Ela era de família paraíbana, né...

E a cultura brasileira lhe agrada?
Amo! Já estou tão acostumado que não posso nem reclamar. Eu faço uma brincadeira que gosto muito do Brasil, mas não tanto do brasileiro (risos). Brasileiro, rapaz, é cada um muito diferente de opinião. Muito sangue misturado, o japonês não tem isso. O brasileiro não se une, quando tem família junta, estão sempre brigando. Na minha terra não era assim não.

Mas mesmo assim gosta de morar aqui?
MESMO assim, eu gosto (risos). Gosto da paz. Mas porque eu não tenho nada na vida, né? Tem gente que nasce para isso, como eu. Não me importo.

E da cultura japonesa, guarda alguma coisa?
Não, não tenho quase lembrança nem nada. Já virei índio (risos). 

Para você, não faz falta conversar com as pessoas, ver TV ou ler notícias?
Eu custo muito a ir até Novo Airão. Tenho uns conhecidos, mas a maioria fica mais tempo em Manaus. Eu até fico uns 5 dias em Novo Airão ou até em Manaus por mês, mas não posso ficar muito tempo longe daqui. Se tivesse alguém para me ajudar, alguém que conhecesse a história e como se trabalha aqui, eu até ficaria um pouco mais de tempo fora, mas não dá.

Você lê e escreve em português normal?
Claro que sim. Eu já até lecionei, lá na cabeceira do Rio Manacapuru, e tudo por minha conta, só com a lamparina. O pessoal ajudou comprando caneta, caderno. O pessoal não sabia escrever nem o próprio nome então eu ajudava. “Como você aprendeu?”, o pessoal me pergunta. Aqui no Brasil eu não sei nem o que é portaria de escola. Logo que cheguei já fui pegando na inchada e no terçado. Mesmo mais novo, tinha 8 ou 7 anos, meu pai me botou na escola, mas como eu já era mais avançado na agricultura acabei ficando naquilo. Meu pai era pobre, pensava assim. Meus irmãos a mesma coisa.

E todos vivem na cidade mesmo?
Sim, todos na cidade grande, todos são bem de vida.

E o que eles dizem para você?
“Rapaz, vem embora para cá! O que você tá fazendo aí metido no meio do mato, comendo jacaré, comendo macaco?”(risos).

Mas o que lhe preocupa?
Ah, de vez em quando vem visitante aqui, e se não tiver ninguém, quem vai recebê-los?

Planeja ficar por aqui o resto da sua vida?
Não, não! Eu estou aposentado, mas não pelo governo brasileiro, pelo japonês. Não sou naturalizado ainda.

Mas recebe alguma coisa?
Sim, recebo. Para você ver como é o governo japonês: o pessoal que abandonou sua terra natal e foi para outro país basta comprovar que está vivo para receber uma gratificação. Minha mãe morreu em Belém do Pará e ela ainda recebia também.

É quase um salário mínimo do Brasil?
Quase dois. É um dinheiro que entra, ajuda. Mas se fosse o governo brasileiro, não ia nem ligar para o emigrante, ia ser bem difícil.

Logo que chegou, foi fazendo que trabalhos? Capinando...?
Não, capinando não. Derrubando pau, destocando... Só isso durou um ano, e olha que até hoje ainda tem muitos paus desses. Foi quando a mulher (Glória Bizerra) me agarrou e não deixou eu sair, mas eu nem tinha tanta vontade mesmo. E olha que ela não tinha condição de me pagar alguma coisa, muito menos a Prefeitura, que não ajudava em nada. Então me dei conta de que eu tinha que ficar aqui e me sustentar sozinho. Até hoje estou aqui, e quem toma conta daqui atualmente é o Ipaam;

E eles mexem muito com você?
Não, não. Eles que me prometeram, há dois anos, uma escada (tipo um pier) aqui na entrada de Airão Velho para poder receber os visitantes melhor, ficar mais bonito, mas até agora nada.

Ter uma escada servindo como porta de entrada para Airão Velho hoje é seu maior sonho?
Justamente. E tem que ser bem feito, porque já tentamos com madeira mas é muito fraca e em questão de poucos anos se desfaz. Eu pedi para ser em alvenaria e eles aceitaram, mas até agora nada. Tenho é vergonha das pessoas que vêm... Elas perguntam onde é a entrada quando veêm que têm que subir um barranco, então tem que ter algo assim. E uma escada bonita.