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Ribeirinhos buscam alternativas para enfrentar a cheia no AM

A criatividade para driblar os efeitos da enchente é a ‘arma’ principal dos ribeirinhos que enfrentam todos os anos cheias e secas extremas do rio Madeira

A casa da família de Andreza Mar Cabral, construída a um nível bem mais alto que as vizinhas, é a única na região do rio Madeira, em Novo Aripuanã, que não foi alagada

A casa da família de Andreza Mar Cabral, construída a um nível bem mais alto que as vizinhas, é a única na região do rio Madeira, em Novo Aripuanã, que não foi alagada (Bruno Kelly)

Em tempos de cheias e secas extremas, a criatividade ribeirinha é testada e revela um “jeitinho caboclo” para contornar os problemas que surgem com vazantes e enchentes recordes, como a registrada este ano no rio Madeira. E essas alternativas não se restringem a fazer a colheita nas plantações alagadas usando canoas. Elas vão desde a mudança de rotinas e culturas nas plantações até a elevação dos assoalhos das casas, as chamadas marombas.

Mas o que fez a casa da família de Andreza Mar Cabral, 22, ser a única da região do rio Madeira, em Novo Aripuanã, não invadida pela água não foi uma simples maromba. O pai dela construiu a casa com o assoalho mais alto entre todas as comunidades, iniciativa que rendeu a ele muitas críticas e brincadeiras nas últimas décadas, mas a recompensa de não ter que sair de casa durante a cheia deste ano.

O esforço extra para subir as escadas durante a vazante durante todos esses anos valeu a pena, conta Andreza. “Meu pai conta que, depois da cheia de 1997, que deixou nossa casa debaixo d’água, ele decidiu subir bastante o assoalho. As pessoas riam dele e perguntavam onde ele queria chegar com um assoalho tão alto, mas este ano a nossa foi a única casa que não alagou. A água chegou no último degrau. Um transtorno a menos para nós”, relatou.

Entre quem precisou sair de casa, muitas famílias, como a do agricultor Raimundo Queiroz Filho, 58, adaptaram embarcações para viverem durante a cheia. Quartos, sala, cozinha, banheiro, tudo embarcado. “A gente vai dando um jeitinho pra tocar a vida enquanto a água não baixa”, conta ele.

Até as balsas de garimpo, comuns na região do rio Madeira, viraram abrigo para famílias que tiveram as casas alagadas. Nelas, eles improvisaram cozinhas e até dormitórios, com as redes.

Há também os que perderam as plantações, mas agora se dedicam a salvar mudas das espécies que tinham e construir viveiros em flutuantes, seja para vender aos demais agricultores, seja para recomeçar um plantio, após a vazante. São mudas de maniva, macaxeira e, principalmente, banana.

Estratégia

Agricultor e morador da comunidade Zé João, na zona rural de Novo Aripuanã, Francinal Coelho, 36 estuda um “jeitinho” de retomar as plantações sem a ameaça de uma grande cheia no próximo ano. E a estratégia adotada por ele deverá ser mudar a cultura, de cacau e banana, para mamão e melancia, que permite a colheita em três meses. Antes, portanto, da próxima cheia. “A natureza está mudando e nós temos que mudar com ela. É o jeitinho que o caboclo tem pra continuar vivendo aqui”.

Sonhos adiados pela cheia recorde

A cheia do rio Madeira destruiu mais do que plantações e casas. Ela também afetou planos como o da estudante Andreza Mar Cabral, 22, que terá que adiar o sonho de cursar uma faculdade de Educação Física por conta do rastro de prejuízo deixado pela enchente.

É que a família dela, que vive na comunidade Santa Rosa 1, na zona rural de Novo Aripuanã, investiu em uma plantação de macaxeira para custear os estudos de Andreza e da irmã na cidade, mas com o roçado alagado e destruído, elas não têm como pagar pelo curso nem se manter fora dali.

“Meu sonho é me formar professora de Educação Física e dar aula na escola da comunidade, por isso meu pai plantou macaxeira, para poder pagar pelo nosso estudo. A plantação estava muito bonita, mas veio a cheia e levou tudo. Não sobrou nada. O sonho da faculdade vou ter que adiar”, lamentou.

Andreza e a irmã não foram as únicas a terem que deixar sonhos de lado por conta da cheia. Um primo dela, que estuda Pedagogia e custeia a faculdade com a venda de bananas, decidiu deixar a comunidade e “tentar a sorte” na cidade. “Ele foi procurar um emprego para pagar a faculdade, porque além da macaxeira, as plantações de banana, maracujá, cacau e pimenta de cheiro ficaram destruídas”, relatou.

Doenças ‘do período’ preocupam

Uma das maiores preocupações de ribeirinhos e do poder público durante a cheia, para a qual não se “dá um jeitinho”, é a saúde. Doenças diarréicas, leptospirose e hepatite A são algumas “típicas” do período chuvoso na Amazônia.

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde apontam que, nos primeiros quatro meses do ano, foram registrados mais de 49 mil casos de diarréia no Estado. Já os casos de leptospirose, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), foram mais de 50 em três meses.

Outro problema é a desatualização das carteiras vacinais, segundo a coordenadora do programa Primeira Infância Ribeirinha, da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Rhamilly Amud. “Quase 100% das crianças têm vacinas atrasadas”.

Rhamilly coordenou uma ação da FAS em comunidades ribeirinhas afetadas pela cheia do rio Madeira, na última semana. Ao todo, mais de 280 crianças foram vacinadas em, pelo menos, dez comunidades. A ação ainda distribuiu filtros de água e hipoclorito para os moradores.

A agricultora Isabel Farias, 24, aproveitou para levar os filhos para serem vacinados. “O posto de saúde mais perto fica a uma hora e meia daqui de rabeta, e debaixo de chuva com as crianças é difícil”.