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13 comentarios | 18 de Fevereiro de 2013

Terra de Ninguém

Crônica das terças-feiras do Caderno Bem Viver!

Frei José dos Inocentes com Epaminondas

Frei José dos Inocentes com Epaminondas (Orlando Câmara)

Naquela rua eu conhecia a Fátima, a Elizabeth e o Vitório. Filhos de diferentes famílias. Todos estudavam no Colégio Dom Bosco. E faziam aula particular (aula de reforço, como se diz hoje) na Tia Adelaide, onde eu também fazia. Eram filhos de portugueses, e moravam entre a Governador Vitório e o igarapé. O outro lado já era tomado pela prostituição. Mas, 35 anos atrás, a convivência me parecia pacífica. Famílias de um lado, quengas de outro, e a vida seguia seu curso.

Estive lá domingo. Chuviscava, mas a rua estava cheia de crianças. Andando de bicicleta, correndo, chutando as poças. Crianças de família. Uma infância normal, como deve ser. Lembrei da minha, e da Fátima e do Vitório. A Elizabeth já era mais velha, não se misturava conosco.

Não deixei de notar que o lado das famílias perdeu. A rua está muito pior. Parecia saída daqueles filmes norte-americanos sensacionalistas, que mostram uma republiqueta pobre em algum lugar da América Latina, prestes a ser salva pelos heróis “made in USA”. Um descaso total. Havia um carro velho com os quatro pneus estourados. Mais adiante, vários carrinhos de churrasco, ou coisa que o valha, enfileirados no meio da rua. Portas e paredes pichadas, calçadas quebradas, asfalto precário. Não sei se era a chuva, mas fiquei muito mal impressionado.

Atravessei a rua, rumo à Eduardo Ribeiro, e não pude deixar de notar que o lado de lá, das mulheres de “vida fácil”, também perdeu. Elas cederam lugar a imensos carros de metalon, abarrotados de papelão velho e outras formas de lixo. A rua inteira era lixo. E buracos. Havia uns poucos zumbis andando de lá pra cá. Mendigos-zumbis, putas-zumbis, desocupados-zumbis. Virou ponto de crack. De republiqueta, o cenário se transformou num filme trash de horror. Gostava mais quando a cena era dominada pelas “meninas”.

Ali todo mundo perdeu! A cidade perdeu! Uma cidade que parece não existir, que permanece esquecida de todo tipo de atenção. Como será durante a Copa de 2014? Será que vão passar tapume na rua? Se forem, é melhor reforçar o estoque de tapumes. O Centro está quase todo assim!

sobre este blog

Blog do Orlando

Sexta cidade mais rica da sétima economia mundial, Manaus, que já ostentou o título de "Paris dos Trópicos", se vê a braços com os problemas de uma grande cidade. Hoje, mais para "Bagdá Equatorial", ela procura soluções para suas questões urbanas, sejam físicas, sejam de propostas de futuro. Estamos nela, falaremos dela!

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