Naquela rua eu conhecia a Fátima, a Elizabeth e o Vitório. Filhos de diferentes famílias. Todos estudavam no Colégio Dom Bosco. E faziam aula particular (aula de reforço, como se diz hoje) na Tia Adelaide, onde eu também fazia. Eram filhos de portugueses, e moravam entre a Governador Vitório e o igarapé. O outro lado já era tomado pela prostituição. Mas, 35 anos atrás, a convivência me parecia pacífica. Famílias de um lado, quengas de outro, e a vida seguia seu curso.
Estive lá domingo. Chuviscava, mas a rua estava cheia de crianças. Andando de bicicleta, correndo, chutando as poças. Crianças de família. Uma infância normal, como deve ser. Lembrei da minha, e da Fátima e do Vitório. A Elizabeth já era mais velha, não se misturava conosco.
Não deixei de notar que o lado das famílias perdeu. A rua está muito pior. Parecia saída daqueles filmes norte-americanos sensacionalistas, que mostram uma republiqueta pobre em algum lugar da América Latina, prestes a ser salva pelos heróis “made in USA”. Um descaso total. Havia um carro velho com os quatro pneus estourados. Mais adiante, vários carrinhos de churrasco, ou coisa que o valha, enfileirados no meio da rua. Portas e paredes pichadas, calçadas quebradas, asfalto precário. Não sei se era a chuva, mas fiquei muito mal impressionado.
Atravessei a rua, rumo à Eduardo Ribeiro, e não pude deixar de notar que o lado de lá, das mulheres de “vida fácil”, também perdeu. Elas cederam lugar a imensos carros de metalon, abarrotados de papelão velho e outras formas de lixo. A rua inteira era lixo. E buracos. Havia uns poucos zumbis andando de lá pra cá. Mendigos-zumbis, putas-zumbis, desocupados-zumbis. Virou ponto de crack. De republiqueta, o cenário se transformou num filme trash de horror. Gostava mais quando a cena era dominada pelas “meninas”.
Ali todo mundo perdeu! A cidade perdeu! Uma cidade que parece não existir, que permanece esquecida de todo tipo de atenção. Como será durante a Copa de 2014? Será que vão passar tapume na rua? Se forem, é melhor reforçar o estoque de tapumes. O Centro está quase todo assim!