Em algum momento de nossa atual existência nos tornamos absurdamente unilaterais. Sim, “situados ou inclinados para um só lado, atendendo somente às razões, aos interesses de uma das partes em questão; parciais”. Parece que vivemos num mundo maniqueísta, onde o nosso lado é sempre o certo, e o outro sempre errado. Isso, desde as coisas mais fundamentais, às mais bobas. Somos cristãos ou não, nortistas ou sulistas, amazonenses ou paraenses, vascaínos ou flamenguistas, caprichosos ou garantidos num nível tal de intolerância que a convivência se torna impossível. A rivalidade, quando possivelmente saudável, deixou de ser. Há quem mate por isso. E creia, em um número muito maior que imaginamos.
Dividimos invariavelmente o mundo em dois. Estabelecemos que o diálogo é impossível. E nos colocamos a digladiar até a exaustão. Queremos destruir o inimigo, o diferente, não importa o porquê. São dias complexos em que não se deve sair de casa vestindo a camisa do seu time, a não ser acompanhado por uma turba de outros torcedores iguais. E prontos para a guerra. Queremos um mundo homogêneo, repleto de iguais, em tudo. Em que momento nos perdemos do flower power, do “faça amor, não faça guerra” e do “viva e deixe viver”?
Queremos massacrar nossos inimigos, prová-los inferiores e derrotados. Mas seriam eles tão inimigos assim? Enquanto nos perdemos nessas unilateralidades cotidianas, nossos verdadeiros inimigos aproveitam. Fazem conchavos, dividem o bolo, manipulam a opinião pública, sem qualquer princípio, a não ser o do lucro. E nós, idiotizados e manipulados, nos vemos a braços com o direito do outro ser quem ele é.
A transferência de Copinho e Zé Roberto, xerifes do Complexo Anísio Jobim, para presídios federais, provocou um movimento de rebelião em todas as unidades prisionais de Manaus, marcado para o último sábado. É certo que os presidiários não são iguais em suas preferências e opiniões. Mas eles se uniram. E quase conseguiram seu intento, a despeito de todas as restrições de liberdade. Eles, pelo visto, conseguem conviver com a diversidade, estabelecer comunicação entre si e enxergar seus verdadeiros inimigos. Nós não.