Para muitos, quando perguntamos quem é o seu ídolo ou herói, é comum ouvir como resposta: meu pai. É natural que seja assim, pois crescemos vendo uma pessoa batalhar todos os dias, e ainda mais, se visualizamos nele uma pessoa bem sucedida profissionalmente. Um dos grandes desafios que famílias abastadas enfrentam nos dias atuais é administrar a educação dos filhos, principalmente quando o lado financeiro é abundante.
Os pais do passado conseguiram criar um patrimônio a partir da dor e da miséria, pois os poucos ricos que existiam eram de famílias tradicionais, herdeiras talvez dos grandes barões e senhores de engenho. As histórias dos bem sucedidos atualmente, são relatos de sacrifício, dedicação, suor e muita dor. Podemos considerá-los como grandes heróis e vencedores.
Na ânsia de poder dar à seus filhos tudo que não puderam ter na infância, e a criação ilusória de um mundo perfeito e cheio de conforto e abundância, uma grande maioria dos pais, começam a “estragar” seus herdeiros.
Zona de conforto
Os filhos estudam no exterior, voltam falando fluentemente uma segunda língua, e para premiar todo esse “esforço”, quando retornam, ganham de prêmio um carro importado. E o jovem começa a achar que o mundo lá fora é assim. Que a felicidade é ter bens materiais, que vem de uma forma muito fácil, e sem nenhum esforço. E o pai, orgulhoso, pois mal tem o segundo grau, está conseguindo prover as crias com tudo que há de melhor, e que não teve oportunidade de usufruir quando era jovem.
Nossa época é marcada pela falsa ilusão de que a felicidade é um direito de todos, ainda mais para essa geração aonde tudo veio muito fácil. E os pais com aquele compromisso de comprar a tal realização dos filhos, protegendo de todos os males e perigos da vida, sem nenhuma responsabilidade e troca por parte deles.
O mundo perfeito e sem obstáculos começa a ruir, quando esses jovens vão para o mercado de trabalho, e percebem que o dinheiro passa a não comprar tudo. A abundância financeira não adquire o caráter, a liderança e nem as pessoas. E pais e filhos começam a pagar caro, achando que a felicidade é um estado de direito, e com o poder tudo pode.
Falsa felicidade
Esforçar-se, ralar, andar de ônibus ou de carro popular, é para os filhos das classes C. Para os ricos de berço, o paradigma de felicidade é acordar tarde após uma noite na balada, e ir trabalhar somente à tarde, pois a empresa é do pai. E futuramente será sua. Nessa percepção e convivência do “tudo fácil”, é que a vida começa a dar voltas. Esse jovem “sortudo” não aprendeu a viver as frustrações naturais da vida. Não sofreu as dores que provavelmente seus pais passaram, e não conseguem transpor os obstáculos naturais que com certeza a vida trará.
Quando a forma errada de educação não tem mais volta, o mundo pintado de abundância e facilidade, começa a gerar conflitos entre pais e filhos. Um que quis dar, sem esperar nada em troca, e outro que recebeu sem ter o que retribuir. E como não há coragem para arrumar o que já foi estragado, a lei do silêncio toma conta da relação. Não dá mais para falar a frase que deveria ter sido dita no passado: “Te vira meu filho” ou “você não vai trabalhar em minhas empresas”. Riqueza é fácil transferir. É por isso que existe a herança. Querer transformar o filho em herói é ilusão. O heroísmo é fruto de persistência, suor e dor. Muita dor. O preço a ser pago pela educação errada é alta. Tão alta, que não há dinheiro no mundo capaz de saldar essa dívida.