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Tempos nebulosos: Ditadura e a Copa de 1966

Em mais uma edição especial do caderno CRAQUE, a reportagem vai a fundo no que acontecia na cidade de Manaus no ano de 1966, dois anos após o Golpe Militar e no ano da Copa do Mundo da Inglaterra

Seleção inglesa levou o título “na marra”

Seleção inglesa levou o título “na marra” (Reprodução)

O ano de 1966 é nebuloso. Manaus vivia o segundo ano da Ditadura Militar que se instalara no Brasil em 1964. O futebol local andava sem rumo, em crise. E por falar em futebol, a Copa do Mundo daquele ano foi ainda mais obscura. Os ingleses, os inventores do futebol, sediaram o torneio e o venceram pela primeira vez. Até aí nada demais se a conquista não tivesse acontecido graças à ajuda decisiva dos árbitros.

A Manaus de 1966 era uma cidade silenciada. Os jornais eram obrigados a destinar grande parte do noticiário à agenda dos novos governantes do País.

O mundo era dividido em dois blocos. De um lado os capitalistas, do outro os comunistas. No Brasil os militares tomaram o poder para conter a “ameaça vermelha”. No caso de Manaus, o bicho nem era tão feio assim.

“Na verdade a presença marxista e comunista nunca foi tão presente assim aqui em Manaus. Tinha uns gatos pingados no Sindicato da Construção Civil, tinha o vereador Manoel Rodrigues que foi cassado... e alguns membros, mas não existia uma ameaça comunista aqui. O que existia era o populismo, que foi confundido pelos militares como comunismo. Para os militares o alvo aqui não eram os comunistas e sim os ladrões, os corruptos”, afirma o historiador Aguinaldo Figueiredo, 56. No início dos chamados “anos de chumbo”, o Estado era governador por Arthur Reis enquanto o prefeito era Paulo Pinto Nery. Antes do final do ano Danilo Duarte de Mattos Areosa seria “eleito” novo governador.

‘Novidade’

A novidade tecnológica da época era o moderníssimo aparelho de ultrassonografia, que era apontado como “mais eficaz” que o raio-x.

No início daquele ano o Brasil chorou com uma tragédia que abalou o Rio de Janeiro. Uma tempestade causou a morte de 300 pessoas deixando mais de dois mil feridos. Os jornais de Manaus deram amplo destaque a tragédia. Qualquer semelhança com o que acontece até hoje na capital fluminense durante esta época do ano...

E por falar em tristeza, neste ano morreu o desembargador Marcílio Dias e o deputado Leopoldo Peres também “quase” foi para a terra dos “pés juntos”, quando sofreu um acidente com seu Simca. E por falar em carro, o da moda era Karmann Gia. Que sonho de consumo!

Televisão

Em 1966 foi inaugurada a “TV Manauara”, na verdade o primeiro “circuito fechado” de televisão da cidade.

A empresa Planenge, Planejamento e Engenharia Ltda. finalizava as obras de terraplanagem do estádio Vivaldo Lima, enquanto o arquiteto do novo estádio, Severiano Mario Porto recebia “Menção Honrosa” pelo projeto. O prêmio foi concedido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil.


O gênio das artes plásticas do Amazonas, Moacir Andrade, expunha suas obras na praia da Ponta Negra, Zona Oeste.

O iê iê iê era a música do momento. Roberto Carlos era o ídolo máximo da juventude também em Manaus. E por falar em música naquele ano desembarcaram na capital do Amazonas duas bandas que eram à época, legítimas representantes do iê iê iê, a The Brazilian Bitles (um grupo carioca que chegou a gravar alguns discos) e a banda The Clevet’s. Apesar dos cabelos cumpridos que ostentavam eles se acabaram em guaraná Baré. Nada de bebida alcoólica. E ainda mais: a Miss Noruega, a bela Elionor Borg deu o ar de sua graça por aqui.

O presidente Castelo Branco visitou o Amazonas, até porque no ano seguinte, finalmente a Zona Franca sairia do papel. E, como exemplo de um tempo onde o nacionalismo estava em alta, o governo militar lançou uma cédula de 10 mil cruzeiros com a cara de um “herói” nacional, Santos Dumont, tido como o “pai da aviação”.

A grande crise da bola

O ano de 1966 é bem conturbado para o futebol amazonense. Já vivíamos os primeiros anos do profissionalismo, mas a Federação Amazonense de Desportos Atléticos (Fada) estava em crise. O campeonato amazonense de futebol havia sido paralisado por mais de três meses.

Os dirigentes e parte da imprensa faziam campanha para a criação de uma nova entidade que tratasse apenas do futebol e não de todas as modalidades esportivas juntas.

No final daquele ano os clubes fundaram a Federação Amazonense de Futebol (FAF), que teve como seu primeiro presidente, o ex-jogador e jornalista Flaviano Limongi.

A entidade foi fundada no dia 26 de setembro de 1966, mas só foi reconhecida pela CBD no ano seguinte, no dia 21 de agosto.

Talvez pouca gente pudesse imaginar, mas começava ali, com Flaviano Limongi, o período mais glorioso da história do futebol do Amazonas.

O presidente da FAF agitou o cenário futebolístico local trazendo grandes equipes do País para jogar aqui. Foi a primeira vez que Manaus entrou no mapa do futebol brasileiro.

A influência de Limongi foi tanta que ele passou a ser conhecido como o “Patriarca” do futebol baré. “O que aconteceu naquela época foi que a Fada começou a receber verbas e não repassava para os clubes. Então os clubes queriam uma federação que fosse voltada única e exclusivamente para o futebol”, explica o professor e historiador Francisco Carlos Bittencourt, de 61 anos.

O primeiro campeão amazonense desta nova era foi o São Raimundo. O Tufão da Colina conquistava apenas o segundo título de sua história. O primeiro ainda foi na era amadora, em 1961.


A equipe era formada por Zezinho, Fredoca, Waldir Santos, Orlando, Waldir Melo e Paulinho (em pé da esquerda para a direita) e Chevrolet, Itagiba, Santarém, Airton e Melo (agachados). O técnico que começou o certame com o time foi Pedro Lustosa, que depois foi substituído por João Bosco. O vice-campeão foi o Rio Negro e o torneio se estendeu até o ano seguinte.

Isso é um ‘assalto’

Os ingleses inventaram o futebol, mas nunca produziram grandes seleções. Digamos que o English Team de 1966 foi um dos “melhores”. Mesmo assim, não tinham futebol suficiente para desbancar outras seleções mais fortes. Foi aí que entrou em cena o 12º jogador da seleção inglesa e não estamos falando da torcida, já que o Mundial foi realizado na Inglaterra. Estamos falando do “apito amigo”.

Os ingleses estrearam no torneio, em Wembley, no dia 11 de julho contra o Uruguai. Pense num jogo truncado, feio? A partida terminou num enfadonho 0 a 0. Frustração para mais de 80 mil torcedores que lotaram o templo sagrado do futebol britânico.

Sem convencer, os donos da casa seguiram com duas vitórias por 2 a 0. Uma diante do México e outra diante da França.

O “apito amigo” entrou em ação nas quartas de final, quando a Inglaterra recebeu a Argentina. Os ingleses abusaram da violência para parar os “Hermanos”, até que Antonio Rattin decidiu reclamar com o árbitro Rudolf Kreitlein. Pra quê? Acabou expulso. A confusão foi grande e o argentino só saiu de campo quando foi escoltado pela polícia.

Com um jogador a menos ficou fácil para os anfitriões, que venceram a partida com gol de Geoff Hurst no segundo tempo.

Talvez o grande mérito da Inglaterra tenha sido derrotar a seleção portuguesa (2 a 1, gols de Bobby Charlton) na semifinal, já que os lusos vinham apresentando, até então, o melhor futebol do torneio, eliminando inclusive o Brasil.

A final contra a Alemanha Ocidental foi aquilo que se pode chamar de verdadeira lambança da arbitragem. Helmut Haller abriu o marcador para a Alemanha e Hurst deixou tudo igual ainda no primeiro tempo. Martin Peters ampliou para os britânicos aos 33 do segundo tempo. É, só que os alemães não se deram por vencidos e empataram com Wolfgang Weber, no último minuto.

Na prorrogação um gol pra lá de polêmico. Hurst chuta no travessão. A bola bate em cima da linha, sai, mas o arbitro suíço Gottfried Dienst deu gol para os donos da casa. Polêmica!

Quando o jogo ia terminar mais uma lambança. Hurst marcou o quarto gol quando três torcedores haviam invadido o campo. O mínimo que o juizão deveria ter feito era paralisar a partida até que os elementos “neutros” fossem retirados. Fim de jogo Inglaterra 4 a 2 Alemanha Ocidental. Talvez até a taça Jules Rimet deve ter ficado com vergonha do resultado...

Trapalhadas em série

Depois de conquistar as Copas de 1958, na Suécia, e 1962 no Chile, o Brasil se encheu de otimismo para a disputa do Mundial da Inglaterra em 1966. Seria o ano da “conquista” do tri e a oportunidade de ter a posse definitiva da taça Jules Rimet.

Mas a coisa desandou. O técnico Vicente Feola, campeão do mundo em 1958, parecia meio perdido. Chegou a convocar nada menos que 47 jogadores antes de fechar a lista final.

A Seleção Brasileira também passou por várias cidades durante a fase de preparação e o que era para ser uma concentração virou uma verdadeira festa. A reportagem de A CRÍTICA teve um encontro com a Seleção Brasileira na cidade de Serra Negra.

Outra esquisitice da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) foi trocar o preparador físico Paulo Amaral pelo professor de judô Rudolf Hermanny.  Parece que o método dele não funcionou. Os jogadores “morriam” no segundo tempo.


A equipe tinha jogadores consagrados como Pelé, Garrincha, Gilmar e Bellini e outros novatos como Gérson e Tostão. E, para provar que estava meio “perdido” no torneio, Feola usou nada menos que 20 dos 22 jogadores que levou durante a Copa. Não é a toa que foi eleito o grande “vilão” da história.

Na estreia, contra a Bulgária o Brasil venceu por 2 a 0, com gols de Pelé e Garrincha. Esta foi a última vez em que eles atuaram juntos com a camisa amarelinha. Com a dupla em campo, a Seleção jamais foi derrotada. A violência dos búlgaros tira Pelé da partida seguinte contra a Hungria. Resultado? Derrota brasileira. Gols de Bene, Farkas e Meszoly. Tostão descontou.


O caixão brasileiro foi fechado no jogo seguinte, diante de Portugal que tinha o craque Eusébio. Pelé voltou, mas foi brutalmente caçado em campo. Foi uma carnificina com o Rei. Resultado? Brasil derrotado e eliminado. Portugal 3 a 1. Os gols de Portugal foram marcados por Simões e Eusébio (2). Rildo marcou o único gol brasileiro. A campanha do Brasil foi uma das piores da história.

Tristeza

A eliminação foi encarada como uma grande tristeza pelo torcedor amazonense. Nas ruas ninguém parecia acreditar que perdemos o tri de forma tão desastrosa. E foi assim que Manaus viu a Copa do Mundo de 1966.