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Ex-goleiro, duas vezes campeão amazonense, largou o futebol por causa de assédio sexual

“Não tinha pra onde correr. Em todas as categorias de base, em diversas equipes isso (assédio sexual aos jogadores) é bem comum”, lamentou

Ex-goleiro duas vezes campeão amazonense largou o futebol por causa de assédio sexual

Ex-goleiro duas vezes campeão amazonense largou o futebol por causa de assédio sexual (Winnetou Almeida)

Murilo*, 29 anos, é hoje um bem sucedido educador físico. Na adolescência foi um dos mais promissores goleiros do futebol local. Bicampeão amazonense, atuou entre os anos de 1997 a 2002 no futebol de campo e também no futsal, mas viu a carreira chegar ao fim depois de sofrer assédio de um treinador e constatar que não se tratava de uma prática isolada. “Não tinha pra onde correr. Em todas as categorias de base, em diversas equipes isso (assédio sexual aos jogadores) é bem comum”, lamenta.

O ex-goleiro abandonou o futebol, mas não a paixão pelo esporte. Formou-se em Educação Física pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), uma forma de exercitar sua grande paixão.

Sua entrevista é o fim de um tabu pessoal e também um relato de um talento desperdiçado, já que ele poderia hoje estar defendendo um clube profissional do Amazonas, ou quem sabe, até mesmo clubes de elite do futebol brasileiro.

Como começou a tua carreira no futebol? O que te motivava a jogar?

Projeção profissional, oportunidade de crescimento, ser um grande jogador como toda criança sonha em ser. Eu queria ser uma referência no futebol.

Com quantos anos você resolveu jogar, ir atrás de um time?

Comecei com 11 anos, 12 anos integrando as categorias de base do São Raimundo, dos times de futebol de salão, mas principalmente do futebol de campo.

Quais foram os teus títulos mais importantes?

Campeão amazonense pelo São Raimundo, 1999, no Infantil; era goleiro. Fui para o futebol de salão, joguei no Ciec e fui campeão amazonense em 2001, na categoria juvenil, com 16 anos.

E como foi a situação de assédio que você sofreu?

Isso aconteceu quando eu fui tentar entrar em um clube que hoje disputa a primeira divisão do futebol amazonense, em 2001. Eu queria participar do grupo, aí que houve a proposta. Para integrar a equipe você tinha que se aproximar do treinador. Participar de todas as atividades sociais dele, estar junto dele na condição de namorado. Aí eu não topei.

Como aconteceu a abordagem?

Através de bilhetes perguntando de quanto eu precisaria para me manter no mês. Ele oferecia dinheiro, isso era uma compra e se eu topasse, ele me dava posição no time. Ele me mandava bilhetes, ele queria custear as minhas despesas mensais desde que eu saísse com ele.

E tinha outros jogadores que participavam desse esquema?

É bem comum. Super comum. Todas as categorias de base, em diversas equipes, é bem comum. E você sabe que tem jogadores que não têm capacidade técnica para jogar, para ser titular jogando em determinadas equipes, mas eles só estão lá por conta da “aproximação” com os treinadores.

E você tinha ido fazer apenas um teste?

Sim. Fui fazer um teste e aí ele já veio com a proposta.

Esse foi o único caso que você sofreu na carreira?

Soube de outros casos, de colegas meus. Colegas nas categorias de base com 13 e 14 anos que já eram aliciados, que já eram “xavecados” pelos treinadores. Isso era até motivo de piada nos vestiários, de dizer quem estava pegando quem. Isso começa a deixar a gente desmotivado.

Esse foi o motivo que fez você desistir do futebol profissional?

Esse foi o motivo principal, junto com a falta de profissionalismo, a falta de ética, coerência e saber que todos os times tinham essa filosofia já nesta época, em 2001, porque eu joguei de 1997 a 2002, nessa época era assim em todos os clubes. Eu não tinha pra onde correr. Talvez fosse um pouco menos no profissional de algumas equipes, mas na base eles se aproveitam dos atletas e todos (os treinadores que abusam das crianças e adolescentes) são conhecidos.

Os exploradores também se aproveitam da baixa condição financeira das crianças?

Exatamente. Muitos desses garotos não têm condições financeiras, então ele deposita todas as expectativas no futebol. Então acaba topando tudo. Ele aceita a situação porque é a chance de vida dele. A maioria vem de família pobre, vem de baixa condição de vida e os treinadores se aproveitam disso, fazem chantagem, fazem negociações, e a criança ou adolescente topa para poder se projetar na equipe.

Se formar em Educação Física foi uma forma que você encontrou para continuar exercendo a sua paixão pelo esporte?

Sim, eu percebi que a carreira é bonita, isso que acontece na base não mancha a profissão (de educador físico), que é uma profissão muito bonita, ampla, completa... Eu entrei mesmo porque percebi que era diferente, que não se resume só a isso. Mas esse tipo de comportamento acaba frustrando muitos jovens, porque eles acham que isso faz parte da profissão.

Você que esteve dentro das categorias de base do futebol amazonense, foi assediado, então me diz: na tua opinião o que poderia ser feito para acabar com essa prática no nosso futebol?

Trazer técnicos formados, capacitados, com diploma do ensino superior, gente que tem experiência. Não só gente que tem experiência como ex-jogador, mas gente capacitada, não trazer só gente que gosta de futebol para serem responsáveis pelos times.

Isso é um dos principais motivos que enfraquecem o nosso futebol?

É um dos grandes motivos, porque você deixa de revelar valores. Gente boa não sobe, não aparece e gente ruim aparece.

Que conselho você daria hoje para os pais que têm filhos que participam de categorias de base?

Os pais têm que estar próximos. Saber quem são os treinadores, procurar se informar de onde eles vêm, perguntar quais são suas formações, acompanhar os treinos, não fazer só aquele papel de torcedor que é só aparecer no dia do jogo...

O pai tem que interagir com o treinador, tem que ir aos campos de várzea, procurar saber se o filho está com as pessoas certas ou não. É como na escola. Tem que acompanhar o filho para saber das notas, da qualidade dos professores... No futebol deve ser o mesmo caminho. Você tem que estar próximo.