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Professora amazonense vence dificuldades e dá exemplo de superação

Vencedora de prêmio nacional tem história de vida marcada pela força de vontade e dedicação


Nilce Cleide exibe troféu pelo seu projeto na escola Severiano Nunes

Nilce Cleide exibe troféu pelo seu projeto na escola Severiano Nunes (Antonio Lima)

Para incentivar os alunos a praticarem esporte, a professora de Educação Física Nilce Cleide Ribeiro Pantoja, 39, criou o projeto “Vivências Lúdicas no Esporte” onde, a partir de brincadeiras infantis, ensina estratégias e regras de modalidades como handebol, vôlei, futebol e tênis de quadra.

A ideia, implantada na Escola Estadual Altair Severiano Nunes, na Zona Centro-Sul de Manaus, fez a educadora ganhar destaque nacional esta semana. É que o projeto rendeu a ela o Prêmio Petrobras de Esporte Educacional, na categoria Especial. O que poucas pessoas sabem é que atrás desta mulher inteligente e cheia de ideias revolucionárias se esconde uma história de vida baseada na força de vontade e na superação.

Aos oito anos, Nilce sofreu um golpe inesperado que abalou totalmente a sua estrutura familiar e que a fez ficar sem ter nenhum contato com o pai durante dez anos. Mas ao invés de se transformar em uma rebelde, ela resolveu ir à luta. E, com o objetivo de ter um futuro melhor, resolveu “enfiar a cara” nos livros.

“Com a separação, minha mãe teve que se virar para sustentar a família sozinha. Ela tinha apenas a terceira série do Ensino Fundamental, mas nunca deixou de ajudar meus irmãos e eu nos deveres da escola. Sempre fez questão de que nós estudássemos. Por isso, quando meu pai saiu de casa, fiquei revoltada porque eu era muito apegada a ele e não entendi o que o motivou a nos deixar”, contou. “Ao mesmo tempo acompanhei o sofrimento da minha mãe e, por isso, decidi transformar aquela revolta que estava sentindo em motivação. Resolvi estudar mais para que pudesse ter um futuro melhor e para que minha mãe sentisse orgulho de mim; só assim ela voltaria a ser uma pessoa feliz”, revelou.

Depois de concluir o Ensino Fundamental, Nilce decidiu fazer um curso técnico de contabilidade. E não demorou muito para conseguir um emprego. Em uma fábrica no Distrito ela começou a trabalhar como montadora, em pouco tempo arrumou um estágio e, em menos de um ano, foi promovida à secretária administrativa. “Consegui um emprego quando tinha 15 anos, mas na época tinha começado o curso técnico de Contabilidade, à noite, e minha mãe, com medo que eu não conseguisse conciliar as duas coisas, não me deixou aceitar a vaga. Mas um ano depois, comecei a trabalhar como montadora e em pouco mais de seis meses fiz uma prova e fui transferida para o setor administrativo”, comentou ela.

Sempre uma luz no fim do túnel

Além do emprego como professora da Ufam, Nilce também estava fazendo uma especialização em psicomotricidade. Porém, mais uma vez o destino voltou a pregar uma peça na vida da educadora.

“Quando ainda era uma aluna sofri uma lesão no joelho direito durante uma aula de ginástica olímpica. E em Tabatinga, durante uma demonstração sobre arremesso no handebol acabei rompendo o ligamento. Passei um ano para conseguir juntar o dinheiro da cirurgia e mais seis meses para me recuperar. E isso, me fez perder o prazo para entregar o trabalho de conclusão da especialização, infelizmente”, lamentou.

Mas nem tudo estava perdido. Assim que voltou a trabalhar como professora de educação física em escola pública, Nilce foi chamada para coordenar o Programa Segundo Tempo – do Ministério do Esporte. Foi assim que ela conseguiu a especialização em Esporte Educacional, que cursou em Brasília.

Nilce Cleide faz parte do quadro de professores da Escola Altair Severiano Nunes desde 2008. Ela conta que desde o início sempre procurou usar as brincadeiras para incentivar seus alunos a se interessarem por uma atividade física.

“Todo mundo gosta de brincar. Foi com esse pensamento que eu desenvolvi o meu projeto (Vivências Lúdicas no Esporte), onde as brincadeiras viram motivação. Através do tiro ao alvo, por exemplo, uma pessoa pode descobrir que tem habilidade para esportes como o handebol e isso é sensacional”, disse.

Tentar e nunca desistir dos sonhos

O diploma técnico de Contabilidade era pouco para alguém que sonhava em cursar direito na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Após uma tentativa frustrada, ela fez cursinho preparatório, mas mesmo assim não conseguiu a vaga que tanto queria. Foram três anos prestando vestibular para Direito. Até que um dia, Nilce ouviu a dica de uma amiga de infância e resolveu tentar outra área.

“Quando era criança adorava aquelas brincadeiras de rua. Na escola, era uma das melhores alunas de Educação Física porque sempre gostei muito de esporte. Pensando nisso, uma amiga me incentivou a mudar de área e eu fiz vestibular para Educação Física e passei em 7º lugar. Realizei o sonho de me tornar aluna da Ufam”, diz.

Uma ótima aluna, por sinal. Sempre muito esforçada, Nilce concluiu o curso de 5 anos em 3 anos e meio. Ela queria recuperar o tempo que ficou fazendo cursinho preparatório. Após sair da Ufam, logo foi chamada para uma escola pública.

“Fiquei pouco tempo nessa escola de Ensino Médio, logo recebi uma proposta tentadora. Uma professora da Ufam, de Tabatinga, foi fazer mestrado fora do Brasil e precisavam de alguém para substituí-la. Como naquela época não existia concurso, fui indicada por meus antigos professores para ficar com a vaga e claro, aceitei”, contou.

ENTREVISTA

Por Paulo André Nunes

Há quanto tempo é desenvolvido e como é a experiência pedagógica “Vivências Lúdicas no Esporte”?

A atividade é desenvolvida há quatro anos na Escola Estadual de Tempo Integral Altair Severiano Nunes, no Eldorado, bairro Parque Dez de Novembro. Na atividade, desenvolvida junto a cerca de 180 alunos de 10 a 14 anos, buscamos resgatar o que há de nato na criança, que é o brincar, como a popular “amarelinha” ou o “pula-corda”, por exemplo. Elas pesquisam as brincadeiras que os pais delas vivenciaram, depois trazem as que elas gostam de brincar, como as atividades eletrônicas. Depois, elas têm que fazer um desenho do que gostam. Nós adaptamos as brincadeiras que podem ser utilizadas no desporto escolar. Estamos adequando as brincadeiras de criança ao desenvolvimento do esporte, ao fundamento do esporte que eu estou desenvolvendo no momento.

O que a senhora vê de conquistas com esse prêmio nacional?

É uma conquista a partir do momento que a Petrobras consegue reconhecer e valorizar os profissionais de Educação Física. Muitas das vezes tentamos várias coisas e não conseguimos. Há muito tempo eu venho desenvolvendo esse projeto e não tinha como mostrar. É como se fosse um grito de liberdade para que nós possamos mostrar que podemos fazer a diferença na questão da Educação. Todos educam, mas o esporte educa e resgata.

Os alunos são mais receptivos do que antes aos ensinamentos propostos pela senhora?

O processo é sempre difícil e já tem quatro anos. Você nunca diz “ele já é meu”. Você vai adaptando aos poucos, introduzindo na aula, e hoje eles já praticam com uma certa alegria porque eles se identificam e ganham autonomia de mostrar o que fizeram.

O Governo do Estado lhe deu o apoio necessário ou no início foi reticente ao projeto?

O gestor apóia porque ele está dentro da escola e vendo o processo, mas nem sempre o órgão maior tem ideia do que é o seu projeto e o que é feito para desenvolver a educação nos seus alunos, para valorizar e estimular a múltipla inteligência. Não é apenas o esporte e a educação física: é o ser humano holístico.

A senhora enfrentou uma verdadeira odisseia para chegar ao Rio de Janeiro e ser premiada devido problemas em aeroportos após o mau tempo...

É verdade. Nosso voo de Manaus ao Rio atrasou devido os problemas com a chuva de segunda (14) para terça (15). Perdemos conexão, fomos para Belo Horizonte, pernoitamos em hotel e, ao sairmos para o aeroporto, problemas de conexão novamente e o avião não tinha condições de pousar. Mas chegamos finalmente à cerimônia, mesmo que atrasados, para sermos premiados pela Petrobras.