Log in

Bem-vindo Log out Alterar dados pessoais

Esqueceu a senha?

X

Qualquer dúvida click no link ao lado para contato com a Central de Atendimento ao Assinante

Esqueceu a senha?

X

Sua senha foi enviadad para o e-mail:

Manaus de Copas: Futebol é mesclado a guerra em 1938

Em tempos de Adolf Hitler a cidade acompanhava com tensão o nascimento daquele que seria o maior conflito bélico da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial

Adolf Hitler arrastou a Alemanha e o mundo para o maior conflito bélico da história

Adolf Hitler arrastou a Alemanha e o mundo para o maior conflito bélico da história (Divulgação)

A Manaus do ano de 1938 acompanhava com tensão, pelas páginas dos jornais, o nascimento daquele que seria o maior conflito bélico da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial, que se iniciaria em 1939 e só seria encerrada no de 1945. Cada passo da Alemanha nazista de Adolf Hitler em direção ao conflito era amplamente divulgado pela imprensa de Manaus. Um exemplo é a edição do dia 15 de setembro do jornal “A Tarde”, que trazia a manchete “A última cartada em favor da paz”. A reportagem do periódico falava sobre o aumento das tensões entre França e Alemanha e a iminente guerra.

Nesta época Manaus ainda era uma cidade bastante provinciana. Para se ter uma ideia, quando um jovem embarcava para cursar o ensino superior na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, isso virava até assunto de jornal. Foi o que aconteceu quando um jovem chamado Hugo Garcia, de uma tradicional família do Município de Silves, partiu para estudar no Rio, isso depois de se formar no tradicional Gymnasio Amazonense Pedro II. Segunda a reportagem da época “teve muita gente em sua festa de despedida”.

O presidente do Brasil ainda era Getúlio Vargas, que chegou ao poder no ano de 1930 por força de um Golpe de Estado. No Amazonas Álvaro Maia continua como interventor federal. O prefeito era Antonio Maia, que era irmão do governador.

Para aliviar as tensões pré-guerra mundial, os manauenses apreciavam o talento de artistas como a pianista brasileira Estelinha Epstein, que naquele ano realizou uma apresentação memorável no Teatro Amazonas.

É, mas nem tudo era festa. Em 1938 o executivo amazonense vivia uma crise contra a empresa britânica Manaós Tramways, concessionária que explorava a luz elétrica e também os serviços de bonde na capital amazonense. O motivo da querela? Alegando problemas financeiros, a empresa queria reajustar a conta de luz, o que automaticamente aumentaria o preço da passagem dos bondes. A crise foi deflagrada no dia 18 de março. Uma série de reportagens foi publicada tentando desmascarar a Tramways, mostrando o faturamento altíssimo que a empresa tinha na cidade. Haja dor de cabeça...

Para distrair só mesmo tietando astros do cinema internacional. Sim, eles passaram por aqui. Antes de ser eternizado como o galã do clássico “E o vento levou” (lançado em 1939), Clark Gable veio filmar em Manaus. Ele e a bela Myrna Loy protagonizaram a película “Sob o Céu dos Trópicos”. No filme Gable interpreta o repórter fotógrafo Chris, que conhece a piloto Alma Harding, interpretada por Myrna Loy, na China. Juntos eles partem para viver “grandes aventuras” na América do Sul e Manaus foi usada nas locações. Parece mais um enredo de “Sessão da Tarde”, não é mesmo?

sinais de vidaA economia do Amazonas começa a dar sinais de vida em 38 por conta da ameaça de guerra. “Antecedendo o grande conflito que se avizinha a economia vai dar sinais de recuperação, por conta de contratos de empresários, daqui do Amazonas, com a Alemanha nazista. Isso inclusive está explícito no livro do economista Francisco Lopes. Lá ele cita documentos onde a empresa IB Sabbá, do empresário judeu Isaac Benayon Sabbá faz contratos com a Alemanha nazista. Fornecendo indiretamente, talvez eles nem soubessem, porque tudo era feito via São Paulo e Belém, mas fornecendo borracha já que os países aliados já fechavam o cerco econômico e a própria Alemanha se recusava a negociar com as grandes potências”, revela o historiador Aguinaldo Figueiredo, 55.

Vira-lata, só que não

A Copa do Mundo de 1938 foi realizada na França e serviria para consagrar em definitivo o futebol italiano e, principalmente, o técnico Vittorio Pozzo, que até hoje é o único treinador a conquistar duas vezes um mundial da Fifa. O técnico da Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari terá a chance de igualar o feito este ano.

No Mundial da França, o Brasil contava com o talento do inventor do gol de “bicicleta”, Leônidas da Silva, o nosso “Diamante Negro”. Foi a primeira vez que o País realmente se preparou para um Campeonato Mundial de Futebol. O resultado se refletiu em campo.

A Seleção fez sua estreia no torneio no dia 5 de junho com vitória contra a Polônia em um jogo que teve nada menos que 11 gols: 6 a 5. O detalhe curioso é que Leônidas marcou um gol nesta partida descalço. É que a chuteira dele estourou, e, como não havia outra, ele voltou a campo descalço e o árbitro sequer notou.

Nas quartas-de-final os brasileiros empataram com a Tchecoslováquia por 1 a 1 no dia 12 de junho. Dois dias depois foi realizada a partida de desempate e o Brasil venceu por 2 a 1.

Excesso de confiança

O dramaturgo, escritor e jornalista Nelson Rodrigues criaria a expressão “complexo de vira-latas” para descrever o sentimento de inferioridade do brasileiro diante dos estrangeiros. Ele culpava os fracassos da Seleção Brasileira por conta deste suposto complexo.

É, mas parece que o problema da Seleção 38 era qualquer coisa menos complexo de inferioridade. Para se ter uma ideia, a Seleção Brasileira estava tão confiante na conquista do título, na França, que o técnico Ademar Pimenta resolveu (pasmem!) poupar o atacante Leônidas da Silva, no confronto contra os italianos, à época os atuais campeões do mundo, na semifinal da Copa.

O resultado não poderia ter sido mais desastroso. Na cidade de Marselha o Brasil sucumbiu diante da seleção Italiana no dia 16 de junho. Leônidas só voltaria para a decisão do terceiro e quarto lugar, no dia 19 de junho, quando o Brasil venceu a Suécia por 4 a 2. Neste jogo, o “Diamante Negro” marcou dois gols e terminou como artilheiro da Copa do Mundo com sete tentos.

Depois de passar pelo Brasil a Itália faria história ao se tornar a primeira bicampeã do mundo. Na final contra a Hungria, o time de Vittorio Pozzo venceu por 4 a 2. Os tentos da Azurra foram marcados por Gino Colaussi (2) e Silvio Piola (2). Os gols da Hungria foram assinados por Pál Titkos e György Sárosi.

O ano do Barriga-Preta

Sem sombra de dúvidas, o ano de 1938 pode ser considerado um dos mais gloriosos de toda a história centenária do Atlético Rio Negro Clube. Neste ano, o clube da Praça Saudade conquistou o quinto título de campeão amazonense.

Além do mais, no dia 27 de agosto daquele ano, um domingo ensolarado, foi lançada a pedra fundamental do Palacete Dórico, a nova sede do clube, erguida na Praça da Saudade. O lançamento foi feito com toda a pompa e circunstância e ampla cobertura da imprensa local. A cerimônia contou ainda com a participação do arcebispo de Manaus, dom Basílio Pereira.

Sem recursos para bancar sozinho toda edificação, o Rio Negro convocou seus torcedores para ajudar nos custos. A campanha foi um sucesso. Vários rionegrinos ilustres bancaram as obras e, aqueles que não tinham dinheiro para dar, ajudaram dando a própria mão de obra.

Dentro de campo o Rio Negro não decepcionava. O elenco, de acordo com o historiador Gaspar Vieira Neto, 38, era formado Iano, Amâncio e Facadinha; Valdemar Palhaço, Hidelbrando e Meireles; Babá, Bezerra, Cláudio Coelho, Benjamim e Lé.

“Eu diria que essa foi uma seleção do Rio Negro. Com grandes jogadores. Neste tempo o Nacional havia se licenciado do Campeonato Amazonense provavelmente por problemas financeiros. Aí alguns dos jogadores do clube, como o Cláudio Coelho, passaram a defender o Rio Negro. Quem é torcedor do Barriga-Preta tem que se orgulhar desse esquadrão que pulverizou o campeonato de 1938, deixando o vice para o Fast Clube”, comenta o historiador Francisco Carlos Bittencourt, 68.

Além da conquista do Rio Negro, 38 também pode ser classificado como um ano de alta para o esporte amazonense como um todo. No sábado dia 26 de maio, por exemplo, foi anunciada a construção do primeiro e até hoje único velódromo que a cidade teve. O espaço dedicado à prática do ciclismo receberia posteriormente o nome em homenagem ao interventor federal no Amazonas, Álvaro Maia. A obra foi erguida no bairro Cachoeirinha e o engenheiro responsável foi Deodoro Freire.

E foi assim que Manaus viu a última Copa do Mundo antes da Segunda Guerra Mundial. O confronto que só terminou em 1945 deixou milhares de mortos e interrompeu a realização do torneio por longos 12 anos.