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Manaus de Copas: O gol que calou o Brasil em 1950

Em um País onde o povo praticamente 'nasce' com a bola nos pés, a nossa 'maior tragédia' atende pelo nome Maracanazo. Confira a série especial desta terça (25)

Seleção no dia da estreia diante do México. A partida terminou em goleada

Seleção no dia da estreia diante do México. A partida terminou em goleada (Divulgação)

Tragédias fazem parte da história. Muitos países foram devastados por catástrofes naturais, outros por guerras sangrentas, genocídios, enquanto outros países sucumbiram a atentados terroristas. No Brasil a história é um pouco diferente...

Em um País onde o povo praticamente “nasce” com a bola nos pés, a nossa “maior tragédia” atende pelo nome Maracanazo. O algoz daquela fatídica partida realizada no dia 16 de julho de 1950 foi o uruguaio Alcides Ghiggia que, num chute mascado e despretensioso, fez a bola morrer no fundo das redes do goleiro Barbosa, que foi condenado até o fim da vida pelo “crime” de não ter defendido aquele chute.

A Manaus do ano 1950 acompanhou cada detalhe do Mundial realizado no Brasil. O torneio voltou a ser realizado depois de 12 anos da última edição, em 1938. Depois da Copa da França o mundo mergulhou na Segunda Guerra Mundial, confronto que se estendeu de 1939 até 1945.

Embora o confronto tenha chegado ao fim em 1945 não foi possível organizar o torneio, principalmente na Europa que fora devastada pelos violentos combates. Restou ao Brasil a missão de organizar a quarta Copa do Mundo. A data inicial para o torneio seria o ano de 1949, mas, como o Brasil se atrasou na entrega dos estádios, a competição ficou mesmo para o ano seguinte.

O Brasil de 1950 era um país mais liberal. As musas do Carnaval como Elvira Pagã (a rainha do Carnaval carioca daquele ano) já se dava ao luxo de posar para fotografias sensuais que foram publicadas, inclusive na imprensa amazonense.

Mesmo aqui, em Manaus, todos acompanhavam de forma atenta a guerra entre o craque-problema que fez história no Botafogo, Heleno de Freitas, o maior jogador brasileiro daquela época, contra o técnico do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira, Flávio Costa. O embate custaria a Heleno a vaga na Seleção que disputou aquele Mundial. Quando soube da derrota brasileira, o craque que estava jogando na Colômbia, no Junior de Barranquilla, comemorou. Talvez tenha sido o único brasileiro a sair por cima de todo aquele vexame.

Preparação

Existem muitas semelhanças entre a preparação do Brasil para a Copa de 1950 com a preparação feita hoje para a Copa de 2014.

Para variar, as obras atrasaram e a vida do secretário-geral da Fifa à época, o suíço Ivo Wolfgang Eduard Schricker (o Jêrome Valcke daquele tempo), teve que vir a público para desmentir rumores de dificuldades financeiras que o Brasil estaria enfrentando para organizar a competição. Bom, pelo menos naquele tempo o Brasil não levava as duras que leva hoje da entidade máxima do futebol.

Até 12 de maio a cidade-sede Salvador era dúvida por conta dos atrasos na obra da Arena Fonte Nova. Pouco tempo depois, mais precisamente no dia 19 daquele mês a Fifa anunciou a exclusão da Bahia de forma definitiva, o que foi amplamente noticiado na imprensa amazonense que, paralelo aos problemas do Mundial, começara a divulgar pequenas biografias dos craques da Seleção Brasileira, começando pelo goleiro do Vasco, Barbosa.

Borracha e genocídio

A Manaus de 1950 não era muito diferente da Manaus dos anos 30. Mas naquele ano uma notícia curiosa causaria “abalo” na “barelândia”. A edição de “O Jornal” do dia 11 de março trouxe uma reportagem sobre a suposta aparição de discos voadores na capital do Amazonas.

A situação foi descrita da seguinte maneira. “Por volta das 21h e 15 minutos de anteontem, diversos populares inclusive repórteres de nosso diário assistiram um enorme disco voador cortar os céus de Manaus, em direção Oeste para Leste (...) O disco foi visto a olho nu”, descreveu a reportagem.

No dia 25 de março uma excursão do Flamengo em Manaus causou muita empolgação na cidade, enquanto no noticiário nacional era relatada a quase desistência do Uruguai em participar da Copa de 1950. Foi o Brasil que insistiu e muito na vinda do vizinho...

Em 50, Leopoldo Amorim da Silva Neves era o governador do Amazonas, mas Álvaro Maia, então senador, se preparava para disputar eleições no intuito de voltar ao comando do Estado. Em nível nacional Getúlio Vargas fazia o mesmo. No dia 20 de agosto, inclusive, ele veio a Manaus como parte de sua campanha. Ele reassumiria a presidência no ano seguinte, desta vez, em um regime democrático.

Economia

De acordo com o historiador Aguinaldo Figueiredo, 55, a Segunda Guerra Mundial trouxe algumas mudanças para Manaus. A borracha foi praticamente estatizada, mas a cidade não foi a quem mais vendeu látex com o fechamento do mercado asiático durante o conflito. “A Venezuela vendeu muito mais borracha que o Amazonas”, atesta o historiador.

“Nesta época (durante a guerra) vão ser criadas algumas instituições como o Basa (Banco da Amazônia), que dura até hoje. Vão ser criados vários organismos estatais que vão dar suporte à exploração da borracha, mas vão durar muito pouco, só durante o período da guerra, depois eles são desativados”, explica Figueiredo.

Se o novo Ciclo da Borracha trouxe algum alento, mesmo que rápido, para economia do Estado, os efeitos negativos foram muito maiores. “Os trabalhadores, os soldados da borracha, foram abandonados na selva a mercê dos seringalistas. Não se quebrou o monopólio dos seringalistas e as doenças e a vida dentro da selva mataram muita gente”. Para ilustrar o que aconteceu, Figueiredo cita a pesquisa feita nesta época pela professora Eloena Monteiro. “Ela junto ao deputado do Ceará, Paulo Sarasate, denunciou mais de 40 mil mortes de seringueiros no Amazonas. Um verdadeiro genocídio”, revela. Com o fim do novo ciclo da borracha o contingente de trabalhadores que sobreviveram às duras condições de vida na selva migrou para a capital. “Eles (os soldados da borracha) foram dando origem a vários bairros de Manaus”, comenta.

Estados Unidos

Pouca gente sabe, mas, a Seleção dos Estados Unidos - que neste ano enfrentará Portugal em jogo válido pela Copa do Mundo, no dia 22 de junho na Arena da Amazônia – quase jogou em Manaus depois de disputar a Copa de 1950.

Os norte-americanos fariam uma mini-excursão em Manaus, organizada pelo América Futebol Clube, da família Teixeira. À época o clube era comandado por Artur Teixeira, irmão do lendário Amadeu Teixeira. Seria a primeira vez que uma seleção estrangeira jogaria na capital do Amazonas.

Uma vasta programação dos ianques em Manaus chegou a ser divulgada na imprensa local, por coincidência ou não, no dia 4 de julho, conhecido como aniversário da Independência dos Estados Unidos.

Os ingressos chegaram a ser vendidos a 25 Cruzeiros (gerais) e CR$ 15 estudantes militares e crianças. Até mesmo um feriado seria decretado para celebrar a passagem do time por Manaus.

Mas a alegria durou pouco. No dia 7 de julho os jornais anunciaram: “Fracassou a temporada Ianque em Manaus”. O motivo? Segundo as publicações da época o fracasso se deu porque a Panair do Brasil (companhia aérea mais poderosa da época) “não dispunha de uma aeronave com capacidade para levar toda a delegação de Belém, onde eles estavam hospedados, para Manaus”.

A diretoria do América ainda tentou dividir o embarque da seleção norte-americana em dois voos, mas, diante do impasse, a seleção dos Estados Unidos decidiu voltar para casa. O cancelamento causou um prejuízo imenso ao América.

O ano de 50 não era o ano do América. Era o ano do Nacional. O clube mais vencedor da história do Campeonato Amazonense literalmente passou por cima de todos os adversários. Venceu o Torneio Início e o Campeonato Amazonense de forma relativamente fácil. O vice-campeão foi o Fast Clube.

“Pela própria estrutura que tinha o Nacional montou um grande elenco naquele ano. O goleiro Sandoval foi uma das grandes personalidades daquele time, que tinha ainda os jogadores Canhão, Beleléu e Caveira”, descreve o historiador Francisco Carlos Bittencourt, 68.

Quase campeões

O roteiro da Copa do Mundo de 1950 foi escrito para o Brasil conquistar o seu primeiro título mundial. Foi para isso, aliás, que o País ergueu à época, o maior estádio do planeta: o Maracanã.

A Seleção Brasileira tinha uma equipe fantástica, que tinha como base, o time do Vasco da Gama. A estreia do esquadrão nacional aconteceu no dia 25 de junho diante do México. Coincidência ou não, o Brasil vai enfrentar eles de novo na primeira fase da Copa do Mundo, este ano, no dia 17 de junho.

Em 1950 os mexicanos não ofereceram a menor resistência e foram goleados por 4 a 0. Gols de Ademir Menezes, o Queixada (30 minutos do primeiro tempo), Jair (20 mim), Baltazar (26 min). Ademir voltou a marcar no segundo tempo aos 34 minutos fechando o caixão dos mexicanos.

No segundo jogo da primeira fase veio o primeiro vacilo do técnico Flávio Costa. Para agradar a torcida paulista, uma vez que o jogo foi realizado no Pacaembu, o treinador mudou o meio campo do time, escalando jogadores que atuavam em São Paulo. O resultado? O Brasil empatou com a Suíça em 2 a 2. Alfredo inaugurou o placar aos 3 minutos e Fatton empatou para a Suíça aos 17 do primeiro tempo. No segundo tempo o Brasil virou com Baltazar e Fatton deixou tudo igual aos 34 minutos. A torcida paulista não poupou vaias para a equipe nacional.

A classificação para a próxima fase só veio diante da vitória em cima da Iugoslávia, no dia 2 de julho. Queixada abriu o marcador aos 4 minutos do primeiro tempo enquanto Zizinho encerrou o placar aos 24 minutos do 2º tempo.

A fórmula de disputa da fase final da Copa de 50 foi diferente de todas. Os quatro melhores times da primeira fase se classificaram para um quadrangular. Todos os times jogariam entre si e aquele que chegasse com mais pontos no final ficaria com a taça.

No quadrangular o Brasil apresentou um futebol irretocável. No dia 9 de julho goleou a Suécia por 7 x 1 gols de Ademir (17min e 36min), Chico (39min do 1º tempo); Queixada voltou a marcar ao 7min e 12min da etapa complementar. Andersson descontou para a Suécia aos 22 minutos. Maneca (35 min) e Chico (aos 43 minutos) liquidaram a fatura.

No dia 13 de julho o Brasil voltou a campo para mais uma goleada. Desta vez em cima da Espanha: 6 x 1 gols de Ademir (15min), Jair (21min), Chico (31min do 1º tempo); Ademir (12min do segundo tempo), Zizinho (22 min). Os espanhóis descontaram com Igoa aos 26min do 2º tempo.

Depois de duas vitórias convincentes nada parecia ser capaz de derrubar a Seleção Brasileira. No quadrangular cada vitória valia dois pontos. O empate valia um. Por essas coincidências que só o futebol tem o Uruguai empatou com a Espanha 2 a 2 e venceu Suécia por 3 a 2 chegando à última rodada com três pontos conquistados. O Brasil tinha quatro e jogava pelo empate. Brasil x Uruguai foi o último jogo da Copa e foi uma partida épica.

Mais de 200 mil pessoas viram a Seleção Brasileira abrir o marcador com Friaça aos dois minutos do primeiro tempo. A taça do mundo, até então, era nossa, o Brasil jogava por um empate simples e já estava na frente.

O que ninguém contava era que Juan Alberto Schiaffino fosse deixar tudo igual ainda no final do primeiro tempo. Ainda assim a taça do mundo ainda era nossa... Era... Porque aos 34 minutos do segundo tempo, Alcides Ghiggia entrou para a história com um chute que fez a bola morrer no fundo do gol do goleiro Barbosa.

O desacreditado Uruguai passou à frente. E segurou o marcador até os instantes finais quando o árbitro inglês George Reader decretou o fim da partida. Eis a maior tragédia brasileira em todos os tempos. O Maracanã, de estádio pulsante, vibrante, transformou-se em um cemitério. Silêncio...

Alguns episódios curiosos aconteceram antes da decisão da Copa do Mundo. O jornal “O Mundo”, que circulava no Rio de Janeiro, deu de manchete o título “Estes são os campeões do mundo” com a foto da Seleção Brasileira. Aquilo irritou a delegação uruguaia. O capitão Obdulio Varela comprou vários exemplares do jornal. Recortou as páginas e distribuiu aos jogadores e disse: “Pisem e urinem no jornal”. Todos obedeceram ao comandante. Não só urinaram no jornal com entraram em campo com sangue nos olhos. Esta se tornou, até hoje, a maior conquista da história da Celeste Olímpica. O Brasil aposentou o uniforme branco, que até então era usado pelo time nacional nos mundiais. E foi assim que Manaus viu a quarta Copa do Mundo. A nossa maior tragédia.