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Manaus de Copas: Isolamento e falta de representatividade denominava a cidade em 1934

Na Manaus de 1934, Álvaro Maia investia no social enquanto enfrentava um marasmo econômico. Do outro lado do Oceano, a Itália conquistava a sua primeira Copa Mundial

Capital do Amazonas vivia ostracismo econômico

Capital do Amazonas vivia ostracismo econômico (Divulgação)

A primeira edição da Copa do Mundo em 1930, no Uruguai, foi um tremendo sucesso. Antes visto com desconfiança, o campeonato mundial de futebol agora despertava o interesse de alguns países. A Suécia e a Itália resolveram entrar na “briga” para organizar a edição seguinte do torneio, em 1934.

Os dois países tinham motivos diferentes para querer sediar a Copa. Enquanto a Suécia sonhava com os lucros, a Itália, que nesta época já era dominada pelo Partido Nacional Fascista, queria organizar o certame como um instrumento de propaganda do regime que era comandando por um carinha chamado Benito Amilcare Andrea Mussolini, mas pode chamar só de Benito Mussolini ou Duce (líder em Italiano). Nesta primeira batalha a Fifa escolheu a Itália para sediar a segunda Copa da história.

O Brasil ainda vivia sob comando de Getúlio Vargas, que chegou ao poder na Revolução de 1930. Em 1934, o então presidente promulga uma nova Constituição no País, trazendo várias novidades como a instituição do voto secreto, o voto feminino – sim, porque nesta época as mulheres não votavam -, além de iniciar a criação de várias leis trabalhistas que persistem até os dias de hoje. Você certamente já ouviu falar em CLT, não é mesmo? Pois bem, a Consolidação das Leis Trabalhistas foi um dos legados desta era.

“Neste contexto todos os Estados vão passar por um processo de reformulação política e cada um vai promover a sua constituinte. Vai haver uma Constituinte Nacional, mas o Congresso Estadual vai fazer a nossa Constituição e vai obedecer a ditames a nível nacional”, explica o historiador Aguinaldo Figueiredo, 55.

Em 1934, o colégio eleitoral reelege, desta vez de forma constitucional, o então governador Álvaro Maia, que agora começa efetivamente a implementar a sua marca na administração pública.

“O Álvaro Maia vai se esmerar na implantação de sua política, agora num governo constitucional. Ele vai dar ênfase, além de projetos de recuperação da economia extrativista, à questão do assistencialismo social. Ele cria em Manaus os Centros Operários, além de diversos mecanismos dentro da administração pública para tentar atender às demandas da cidade, principalmente no que diz respeito à saúde pública”, explica o historiador.

Apesar dos investimentos na área social, Manaus continua sofrendo em razão do isolamento, bem como pela falta de representatividade política junto ao governo federal.

Nesta época, Getúlio Vargas tinha outras questões para resolver. A obsessão do regime ditatorial era industrializar o Brasil, que na década de 30, era um País de economia tipicamente agrícola.

“Vargas tentava criar uma nova estrutura econômica para o Brasil, mas principalmente a partir do Sul e do Sudeste. Isso (o desenvolvimento) não vinha para cá. Aqui era uma tristeza, um isolamento total”, atesta Figueiredo.

Em 34 Manaus vai se virando como pode. O motor da economia local (se é que pode chamar isso de motor) continuava sendo as atividades extrativistas.

Aventura dura ‘apenas’ 90 minutos

Uma coisa não mudou na Seleção Brasileira, no intervalo da primeira para a segunda Copa do Mundo. Em 1934 ainda prevalecia a velha rixa entre paulistas e cariocas. Desta vez a discussão não era levar jogadores de um Estado ou de outro como aconteceu em 1930. A questão agora era: levar jogadores profissionais ou amadores para o Mundial?

Na época a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) não queria nem saber deste tal “profissionalismo” entre os boleiros. O motivo? Não havia dinheiro para pagar as verdadeiras “fortunas” que os atletas pediam para defender a Seleção Brasileira. E olha que nem era tanto dinheiro assim.

Faltava grana, sobrava bagunça. Para se ter uma idéia, no papel, a Seleção era treinada por Luís Augusto Vinhaes, mas na pratica, quem comandava tudo era Carlos Martins da Rocha, o Carlito Rocha, que era técnico do Botafogo. Rocha, porém, não poderia participar como treinador porque, pasmem... Estava inscrito como árbitro.

O Mundial na Itália ficaria marcado também como o campeonato em que a Seleção Brasileira obteve a sua pior campanha. Para os brasileiros o torneio foi “o samba de uma nota só” e durou apenas 90 minutos, graças ao sistema de mata-mata instituído pela Fifa, já na primeira fase.

Antes de entrar em campo o Brasil enfrentou uma viagem de barco que durou nada menos do que 15 dias de navio. O detalhe é que a equipe enfiou o “pé na jaca” durante a viagem.

Comendo do bom e do melhor e sem um local adequado para manter a forma física em dia, muitos jogadores chegaram à Itália completamente fora do peso.

E, antes da estreia, contra a Espanha, no dia 27 de maio daquele ano, o time fez um mísero treino em terras italianas. O resultado? Uma boa surra.

Os “barrigudinhos” do Brasil sucumbiram diante dos espanhóis ainda no primeiro tempo. José Iraragorri abriu o marcador. A Seleção ainda teve chance de empatar com Waldemar de Brito aos 17 minutos cobrando pênalti. Nem isso o Brasil conseguiu. O chute parou nas mãos do elegante goleiro Ricardo Zamora, que costumava a usar uma boina na cabeça durante as partidas. Ainda no primeiro tempo Iraragorri ampliou a vantagem e Isidro Lángara fez o terceiro no final do primeiro tempo. A humilhação só não foi maior porque um craque brasileiro chamado Leônidas (sim, aquele mesmo que inventou o gol de bicicleta) faria o gol de honra aos 27 minutos do 2º tempo. Os canarinhos foram eliminados, no Mundial onde o Brasil passou mais tempo viajando do que efetivamente jogando.

Uma festa portuguesa com certeza no Amazonense

A exemplo do que aconteceu em 1930, o Campeonato Amazonense de 34 também foi conquistado por um clube que já não existe mais: a União Sportiva Portuguesa.

Fundado em 18 de agosto de 1915, a União Sportiva, como o próprio nome sugere, nasceu da fusão de dois clubes locais: o Vasco da Gama e o Onze Português.

“Era a união das classes mais abastadas. O clube era formado por comerciantes que tinham poder aquisitivo”, explica o historiador Francisco Carlos Bittencourt, 68.

O novo clube português era “zebrado”, carregava o uniforme preto e branco e durou até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. A agremiação ainda tentou um retorno em 1967, mas não obteve êxito.

O Campeonato Amazonense de 1934 teve a participação de Nacional, Rio Negro, Fast Clube, Cruzeiro do Sul, Monte Cristo e Independência. De acordo com o também historiador Gaspar Vieira Neto, 38, o certame foi disputado em sistema de pontos corridos. “Foi um campeonato bem disputado, com turno e returno. O Fast Clube foi vice-campeão naquele ano”, completa Gaspar.

A escalação do time campeão tinha: Charuto, Pedro Barbosa e Jofre Costa; Delfim, Sabá e Raimundo Paixão; Dico, Rabito, Jokeide Barbosa, Ofir e José Paixão. As estrelas do time eram os atacantes Dico e Rabito e o goleiro Charuto, que foi um dos grandes responsáveis pelo título daquele ano. O goleiro teve muitas dificuldades financeiras no fim da vida. “Antes de morrer ele trabalhava como engraxate”, conta o Francisco Carlos.

A União Sportiva se tornaria bicampeã amazonense em 1935 com praticamente o mesmo time que usou no ano anterior.

E foi assim que Manaus viu a Copa de 1934. As dificuldades financeiras permaneciam. Álvaro Maia se consolidava no poder enquanto a comunidade lusitana da cidade fazia a festa com o primeiro título. Foi a última Copa em clima de paz.

Brasileiro vence com a Azzurra

A Azzurra começou a Copa do Mundo em casa massacrando os Estados Unidos com um placar 7 a 1, no dia 27 de maio no primeiro mata-mata. Nas quartas de final, a Itália empatou em 1 a 1 com a Espanha, no dia 31 de maio. O detalhe curioso é que, nesta época, se uma partida terminasse empatada, os times se enfrentavam no dia seguinte. Assim, no dia primeiro de junho, aos 12 minutos o meia-atacante da Internazionale, Giuseppe Meazza, sacramentou a vitória italiana. Meazza, aliás, guardada as devidas proporções, seria uma espécie de Túlio Maravilha daqueles tempos. Ele adorava provocar os goleiros, driblá-los e tocar a bola para o fundo das redes vazias.

Na semifinal, diante da Áustria, o herói da vez foi o italiano de ascendência argentina, Enrique Guaita, que marcou ainda no primeiro tempo o gol que classificaria a Itália para a sua primeira decisão.

Na grande final contra a Tchecoslováquia, realizada no Stadio Nazionale de Roma, a Itália fez o dever de casa e venceu de virada. O primeiro gol da partida foi marcado pelo tcheco Antonín Puc. Os italianos deixaram tudo igual aos 36 minutos do segundo tempo com Raimondo Orsi.

A honra suprema de marcar o gol do primeiro título da seleção italiana – hoje tetracampeã do mundo – ficou para o atacante do Bologna, Angelo Schiavio. Ele marcou o tento aos cinco minutos do primeiro tempo da prorrogação, levando a nação italiana ao delírio.

Esta foi a primeira Copa vencida pelo técnico Vittorio Pozzo, que se tornaria uma lenda do futebol mundial ao repetir o feito, em 1938, se tornando até hoje, o único técnico bicampeão de uma Copa do Mundo.

É mas nem tudo foi desgraça para o futebol brasileiro em 1934. Na Copa da Itália um brasileiro triunfou. O nome dele? Anfilóquio Guarisi Marques. Esse era o nome que ele recebeu ao nascer em São Paulo. Quando foi jogar pela Lazio decidiu abraçar a cidadania italiana - já que era filho de uma imigrante da Velha Bota. A escolha foi super acertada e Anfilogino Guarisi (nome que recebeu depois da naturalização), o nosso Filó, se tornou o primeiro brasileiro campeão de uma Copa do Mundo, 24 anos antes do primeiro triunfo brasileiro na Copa da Suécia.

e o duce?Naquele momento certamente Benito Mussolini percebeu que valeu a pena gastar com a Copa, já que ele fez propaganda de seu regime e, de quebra, a Itália ainda conquistou um título em casa. O nacionalismo foi às alturas... E por falar em Mussolini dizem às más línguas que o árbitro da partida entre Itália e Tchecoslováquia, o sueco Ivan Eklind teria ficado algumas horas conversado com o Duce antes da partida, o que levantou suspeitas sobre a atuação dele em campo. A suspeita de favorecimento, porém, jamais foi confirmada.