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Manaus de Copas: Em 1958, os brasileiros vibraram pela conquista da taça do Mundo

O Brasil e Manaus viveram momentos históricos em 1958. O surgimento do craque Pelé e a morte do Papa Pio XII são um dos destaques desta edição

Gesto de Bellini viraria marca registrada dos campeõesEm 1958 Manaus antiga se preparando para novos tempos

Gesto de Bellini viraria marca registrada dos campeõesEm 1958 Manaus antiga se preparando para novos tempos (Divulgação)

Vinte e nove de junho de 1958, Raasunda Stadion, Estocolmo, final da Copa do Mundo. Diante de um público de mais de 50 mil pessoas o sueco Nils Liedholm abre o marcador contra o Brasil aos quatro minutos do primeiro tempo. Foi como se todo aquele pesadelo vivido em 1950 viesse à tona novamente. O Brasil terminaria novamente como vice-campeão? Estaríamos fadados a ostentar para sempre a nossa síndrome de cachorro vira-latas como descreveu o genial cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues? Enquanto todas essas perguntas surgiam na cabeça dos jogadores, o craque Didi pegava a bola no fundo do gol e caminhava lentamente para o centro do gramado.

Os jogadores da Seleção Brasileira gritavam: “Vamos Didi, nós estamos perdendo”. Ele pedia calma aos jogadores. “Nós vamos ganhar”, sentenciou. E o “Príncipe Etíope” estava certo.

Aos nove minutos Vavá deixou tudo igual e virou para cima dos donos da casa aos 32 minutos do primeiro tempo.

Um menino negro, de 17 anos, chamado Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, entraria para história como o mais jovem atleta a marcar um gol numa final de Copa do Mundo.

E não foi um gol qualquer. Depois de dar um lençol no zagueiro, Pelé chutou no canto do goleiro sem deixar a bola cair no chão: 3 a 1.

Zagallo ampliaria o placar aos 23 minutos do segundo tempo: 4 a 1. A Suécia ainda marcaria mais um gol com Simonsson. Parou por aí, para os suecos, é claro. Aos 45 minutos, Pelé marcaria mais um gol, desta vez de cabeça. A emoção foi tanta que o menino desmaiou. Não dava para segurar tanta felicidade.

O time que ainda tinha o genial Garrincha, finalmente colocou na boca do povo o grito de campeão. A festa tomou conta do Brasil. Lágrimas. A taça do mundo finalmente era nossa.

Apoteose no Rio de Janeiro. Festa para receber os campeões do mundo. A cidade parou. Carnaval. O presidente Juscelino Kubitschek recebe o esquadrão canarinho. O fundador do Jornal A CRÍTICA, Umberto Calderaro Filho estava lá e com o presidente do Brasil.

Carnaval

Em Manaus a apoteose pela conquista da Taça Jules Rimet não foi diferente. Cada detalhe do torneio na Suécia foi acompanhado pela torcida local que inclusive teve acesso a uma entrevista com a Enciclopédia do Futebol, Nilton Santos, publicada em A CRÍTICA. O lateral-esquerdo fez parte da conquista e contou como foi. A reportagem fez tanto sucesso que teve diversos capítulos.

Na Manaus de 1958 os cinemas anunciavam a película “O Gigante”, o último “filme completo” de James Dean. Digamos que chegou um pouco atrasado já que Dean morrera em um acidente de carro quatro anos antes.

Na seara religiosa, a cidade ganhava um novo arcebispo, Dom João de Souza Lima. O jornalista esportivo Carlos Zamith comandava a coluna “Retalhos Esportivos”. O esporte da moda era o tênis de mesa e Gilberto Mestrinho, então prefeito de Manaus, se preparava para disputar as eleições para o governo do Estado na qual sairia vencedor. Antes dele, o governador era Plínio Coelho, que quase morreu em um acidente de carro naquele ano.

Um crime monstruoso mexe com a cidade. O agricultor Raimundo Ferreira envenenou com formicida a esposa, Georgina, que estava grávida de seis meses e com quem tinha cinco filhos pequenos. O motivo? O marido suspeitava de adultério. E por falar no assunto virou um escândalo na cidade a história de Emiliana Passos Leal, denunciada por poligamia. Ela tentava casar pela quarta vez.

A cidade também chorou a morte da Rainha dos Estudantes, Neyde Guerreiro Martins, em um acidente de avião no dia 14 de fevereiro daquele ano. A aeronave em que ela estava caiu perto do Clube Bancrévea. Manaus também chorou a morte do Papa Pio XII.

Mas nem tudo era motivo de tristeza. A amazonense Terezinha Morango colhia os frutos do sucesso fazendo turnê pela Europa. No ano anterior ela fora eleita Miss Brasil. Aqui, no carnaval, a Kamélia já fazia a alegria dos foliões.

Desabastecimento

A Manaus de 1958 também sofreu com o desabastecimento. Faltou carne, pão e água na torneira. A carne que Manaus consumia vinha do Baixo do Amazonas e não deu conta de abastecer uma cidade em franca expansão. A prefeitura teve que comprar fora. A cidade enfrentou um processo de desabastecimento de água por conta de problemas na empresa responsável pelo serviço. Qualquer semelhança com os tempos modernos...

Eis o início de uma nova era

A Seleção Brasileira de 1958 tinha craques que marcaram a história do futebol. Pelé dava os primeiros passos como profissional, mas já mostrava talento acima da média. O time tinha ainda o “gênio das pernas tortas”, o inesquecível Garrincha. Com os dois em campo o Brasil jamais foi derrotado.

Gilmar dos Santos Neves era o goleirão do time, que tinha os laterais Djalma Santos e Nilton Santos e o volante Didi que, convenhamos, tinha tanta categoria que poderia jogar em qualquer posição.

A estreia da Seleção Brasileira foi contra a Áustria. Depois de um início de jogo equilibrado, o Brasil venceu por 3 a 0. Mazzola marcou duas vezes e Nilton Santos fechou o placar. Na segunda rodada os canarinhos não saíram de um 0 a 0 contra a Inglaterra. Foi o primeiro 0 a 0 da história das Copas.

No terceiro jogo, contra a União Soviética, o técnico Vicente Feola lançou Pelé no lugar de Mazzola. O menino da Vila vinha se recuperando de contusão. Garrincha também entrou no lugar de Joel. Foi aí que o Brasil começou a ganhar aquela Copa. Reza a lenda que Didi teria liderado uma verdadeira rebelião dentro do time nacional para que Feola escalasse os dois. O treinador gostava de Pelé, mas tinha resistência em relação a Garrincha, porque não achava ele um jogador muito objetivo, porque driblava muito. As mudanças deram certo. O Brasil venceu por 2 a 0. A imprensa mundial ficou assombrada com o desempenho do Mané.

Nas quartas de finais o time canarinho passou sufoco, mas venceu o País de Gales por 1 a 0, gol de Pelé.

Na semifinal o Brasil goleou a França por 5 a 2. Vavá , Didi, Pelé (três vezes) assinaram os gols do Brasil. Fontaine e Piantoni marcaram os gols da França.

Na final aconteceu uma situação inusitada. Durante todo o torneio a Seleção Brasileira jogou com o uniforme amarelo, mas teve que mudar de cor porque a Suécia, que jogava a Copa do Mundo em casa, e também usava o uniforme amarelo. Logo o Brasil teve que arrumar outro uniforme.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) comprou na Suécia mesmo camisas da cor azul. Mas como fazer para convencer os jogadores, supersticiosos, a aceitar a novidade? O jeito era dizer que a cor representava o manto de Nossa Senhora, que daria proteção ao time na final. O “migué” funcionou e os jogadores arrebentaram na final.

Quem deu bola foi o Santos

No Campeonato Amazonense de 1958 quem deu bola foi o Santos. Fundado no dia 1º de maio de 1952, inspirado no alvinegro praiano, o Santos de Manaus tinha sede no bairro Cachoeirinha, Zona Sul e foi fundado por um comerciante do bairro.

O time campeão de 58 era formado por Ney, Gurgel, Silvinho, Roberto, Paulo e Melo (na foto em pé); Gesnê, Antero, Pretinho, Pinguim e Cacheado (na foto, agachados).

“Era um time muito bom, muito forte e que nasceu inspirado no Santos. Por vezes jogavam com calção azul e camisa branca dependendo da cor do uniforme do adversário”, explica o historiador Francisco Carlos Bittencourt, 68. O único time que foi capaz de fazer frente com o Santos, naquele ano, foi o Nacional, que terminou o certame como vice.

O clube da Cachoeirinha nasceu de uma empreitada ousada, mas foi difícil mantê-lo no futebol em virtude dos altos custos. Assim o clube encerrou suas atividades em 1962, quatro anos depois de conquistar o primeiro e único título. Por coincidência ou não o Santos fechou as portas no ano da Copa do Mundo de 1962, no Chile, quatro anos depois de conquistar o primeiro e único título de campeão amazonense.

Mas o clube deixou um grande legado para o futebol baré e ele atendia pelo nome de Pretinho. Jogador habilidoso, ele ainda brilhou com a camisa do Fast Clube e do Nacional até encerrar a carreira em 1973.

E foi assim que Manaus viu a Copa do Mundo de 1958. Com festa, alegria e também com falta de água, pão e carne. Ano sofrido, hein? Na próxima semana tem mais.