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Manaus de Copas: Brasil renasce das cinzas ao disputar Mundial na Coreia do Sul e Japão em 2002

Enquanto a Família Scolari lutava para conquistar o pentacampeonato brasileiro 2002, Manaus assistia a uma série de crimes nos quatro cantos da cidade

Romário ficou, Felipão levou nomes como Vampeta e Edilson Capetinha

Romário ficou, Felipão levou nomes como Vampeta e Edilson Capetinha (Divulgação)

Uma cidade grande, próspera e muito violenta. Esse era o fiel retrato da Manaus de 2002. Enquanto a Família Scolari lutava para conquistar o penta na primeira Copa do Mundo disputada em dois países (Coreia do Sul e Japão), Manaus assistia a uma série de crimes nos quatro cantos da cidade. O mais célebre de todos? O famoso “Caso Fred” e seus desdobramentos.

Na zona mais populosa da cidade, as galeras continuam em guerra. A diferença foi que desta vez já existia até um “senso” feito pela Secretaria de Segurança Pública do Estado dando conta de ter catalogado nada menos que 600 grupos criminosos na cidade.

Brutalidade

Em fevereiro daquele ano o radialista e ex-colunista social, Luís da Conceição Souza Pinto, 72, mais conhecido como “Little Box”, foi esfaqueado pelo suposto companheiro, o desocupado Ricardo Augusto Abrantes, à época com 25 anos. Ricardo confessou o crime e “Little Box” morreu depois de 27 dias na UTI do Hospital João Lúcio.

Uma grande rebelião no Presídio Anísio Jobim terminou na morte de 14 detentos e outras mortes aconteceram em outras unidades prisionais totalizando 21 vitimas até o final daquele ano.

Mas o crime que “sacudiu” a cidade aconteceu no dia 8 de maio com o assassinato do ex-policial Militar Cleomar da Silva Cunha, mais conhecido como C.Cunha, o “Anjo da Morte”. Para entender o caso é preciso voltar ao ano de 2001, quando a estudante Danielle Damasceno foi encontrada morta. O suspeito? Fred Junior, filho do técnico agrícola Fred Fernandes da Silva, 52. Fred Júnior confessou o crime e terminou preso. Tempos depois a família de Fred sofreu um atentado que culminou com a morte do técnico agrícola. C.Cunha teria sido um dos participantes do crime e, como queima de arquivo, acabou fuzilado em 2002. O “Caso Fred” é até hoje um dos mais rumorosos casos policiais da história de Manaus.

Execução

E as execuções não pararam por aí. O prefeito da cidade de Novo Aripuanã foi morto com três tiros de escopeta na Praça Dom Pedro, na Zona Centro-Oeste. Aliados e parentes suspeitavam de um crime por motivações políticas.

E em setembro outro crime chocou a cidade. Foi o assassinato do empresário Elton Pio de Souza, de 52 anos. Ele administrava a empresa Santa Cláudia e o crime foi classificado como latrocínio. Um adolescente de 17 anos assumiu a autoria do crime e foi entregue aos policiais pelo próprio pai.

Política

Na política, o governador Amazonino Mendes vivia às turras com o ex-aliado, o então prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento.

Aliados, que se tornaram adversários e depois voltaram a ser aliados. Este é um pequeno resumo da relação entre Eduardo Braga e Amazonino. Depois de brigar na eleição de 1998, eles “surpreenderam” a todos com o anúncio de que Braga seria o “candidato do sistema”, ou seja, o candidato de Amazonino. Braga venceu Serafim Corrêa (o candidato de Alfredo Nascimento) no primeiro turno.

Quem também tentava se eleger pela quarta vez, governador do Estado era Gilberto Mestrinho, aos 73 anos. Ele bem que tentou, mas não obteve o mesmo “êxito” de anos anteriores.

Esdrúxulo

Mas o momento mais esdrúxulo da guerra entre Alfredo e Amazonino se deu por conta da decisão do governador de redistribuir os recursos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS), o que faria a capital perder mais de R$ 10 milhões. O projeto de lei 228/2002 foi “aprovado” na marra.

Os parlamentares da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) “destituíram momentaneamente” o presidente da casa, Lupercio Ramos, colocaram a matéria para a votação em sessão presidida por Belarmino Lins e aprovaram o projeto. Lupercio queria “recesso branco” para que a matéria fosse melhor avaliada, o que não aconteceu. Foi uma confusão sem precedentes na história da ALE.

E em nível nacional, Luis Inácio Lula da Silva se tornou o primeiro operário a chegar à presidência da República ao derrotar José Serra, candidato do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Alegria e dor no Leão da Vila

O Campeonato Amazonense de 2002 teve uma grata surpresa: o Cliper. A Águia do Parque Dez surpreendeu a todos e chegou a um honroso vice-campeonato pela segunda vez em sua história – o outro foi em 1996.

“Aquele time foi sem dúvida nenhuma o melhor Cliper de todos os tempos. O clube ganhou apoio dos comerciantes do próprio bairro, o que ajudou a formar um bom elenco”, aponta o historiador Francisco Carlos Bittencourt, 66.

E quem foi o campeão? Vai uma dica: É o recordista absoluto de títulos no futebol local... Acertou quem disse: Nacional. Mas não pensem que foi fácil. Para ficar com o título o Leão da Vila Municipal teve que bater o Cliper num apertado placar de 3 a 2.

A final foi disputada no dia 30 de maio no antigo estádio Vivaldo Lima para um público de 2.362 pagantes. Os gols da partida foram marcados por Ricardo, Marcelo Carioca e Moisés (para o Nacional) e os tentos do Cliper foram assinalados por Marinho e José Carlos. O Naça foi campeão invicto naquela temporada sob o comando do técnico Paulo Galvão. A arbitragem da partida final ficou a cargo de Ubiraci Oliveira.

Além de Nacional e Cliper, o certame contou ainda com a participação do Sul América, do Fast, que nesta época representava o Município de Tefé, o São Raimundo, que já disputava a Série B do Campeonato Brasileiro e o Atlético Rio Negro Clube.

O técnico do time, Paulo Galvão, chegou ao comando depois que o titular da função, Aderbal Lana entregou o cargo para resolver problemas familiares.

“A partir daí eu assumi o time. Eu era auxiliar e foi minha primeira experiência como treinador”, explica Galvão. O novo treinador mudou alguns jogadores e a forma do time atuar taticamente. O resultado? Um título conquistado de maneira incontestável.

Mas uma tragédia ainda abalaria a equipe do Nacional na disputa da Série C daquele ano. O volante Washington, que foi capitão do time na campanha do Estadual foi morto depois de uma confusão em uma casa noturna localizada no Aleixo, Zona Sul. “O negócio foi pesado. Foi dureza, foi um choque pela vitalidade que ele tinha”, lembra Galvão. “Cada jogo era uma homenagem para ele”, revela.

O sucesso absoluto da ‘Família Scolari’

A derrota na final da Copa do Mundo na França, em 1998, poderia ser o ápice do inferno astral de Ronaldo Luís Nazário de Lima. O atacante brasileiro sofreu uma convulsão horas antes da final, mas, o pior ainda estaria por vir. No ano seguinte ele sofreu a primeira lesão grave no joelho quando jogava uma partida contra o Lecce, no Campeonato Italiano. Nesta época Ronaldo defendia as cores da Inter de Milão.

Nazário retornou aos gramados no dia 12 de abril de 2000 na decisão da Copa da Itália contra a Lazio e, no primeiro drible, rompeu os ligamentos. A recuperação foi ainda mais longa: 15 meses. O atacante só voltou aos campos em 2001 e era utilizado em raríssimas ocasiões.

Tido como “acabado” para o futebol, o jogador deve muito de seu retorno ao técnico Luis Felipe Scolari, que bancou a convocação dele em detrimento de Romário, que aos 36 anos ainda batia um bolão, enquanto o Fenômeno vivia no departamento médico.

A Copa do Mundo da Coreia e do Japão - que Manaus assistiu de madrugada por conta do fuso horário - serviu para que o camisa nove ressurgisse das cinzas como uma ave fénix. Logo na estreia, contra a Turquia, ele mostrou que não estava pra brincadeira. O Brasil saiu atrás no marcador, depois do gol de Sas aos 47 minutos do primeiro. No segundo tempo Ronaldo marcou aos 5 minutos do segundo tempo. Rivaldo espantou a zebra cobrando pênalti aos 42 minutos.

No segundo compromisso da primeira fase, contra a China, a primeira goleada: 4 a 0. Roberto Carlos (15 min), Rivaldo (32 min) e Ronaldinho Gaúcho (45 min) de pênalti fecharam o primeiro tempo. Ronaldo Fenômeno marcou o último do Brasil aos 10 min do segundo tempo.

O último adversário da primeira fase foi a Costa Rica. Nova goleada: 5 a 2. Ronaldo abriu o placar aos 10 minutos e aumentou aos 13. Edmílson deixou o dele aos 38 min. Wanchope diminuiu aos 39 do primeiro tempo. Gomez abriu o segundo tempo marcando mais uma para a Costa Rica aos 11 minutos. Rivaldo não deixou por menos fazendo o quarto gol do Brasil aos 17 min) e Júnior deu números finais à partida aos 19 minutos do segundo tempo. Brasil classificado em primeiro lugar.

Nas oitavas de final o Brasil cruzou com a Bélgica e despachou os “diabos vermelhos” por 2 a 0, gols de Rivaldo (22 minutos) e Ronaldo aos 42 minutos do segundo tempo.

Nas quartas de final um dos jogos mais espetaculares da história das Copas: Brasil 2 x 1 Inglaterra. O time do técnico Scolari venceu os ingleses de virada. O primeiro gol da partida foi marcado por Owen aos 23 minutos do primeiro tempo. Rivaldo deixou tudo igual ainda aos 47. A virada veio aos 5 minutos do segundo tempo em uma cobrança de falta magistral feita por Ronaldinho Gaúcho. O aparente “cruzamento” para a área pega efeito e entra no ângulo do goleiro Seaman. Foi o fim do sonho do English Team, que à época contava com ninguém menos que David Beckham.

Na semifinal a Turquia voltou a cruzar o caminho do Brasil, mas acabou dando adeus ao torneio depois de um gol de bico do Fenômeno aos 4 minutos do segundo tempo.

A final foi no International Stadium Yokohama, na cidade de Yokohama, no Japão. E foi o primeiro jogo em Copas do Mundo entre Brasil e Alemanha. Os germânicos contavam com o verdadeiro “muro de Berlim”, o goleiro Oliver Kahn – que seria eleito o melhor do Mundial. Mas o Brasil tinha o Fenômeno e, depois de viver os quatro piores anos de sua carreira, ele se redimiu de forma magistral, tal qual uma fénix.

Depois de um 0 a 0 no primeiro tempo, havia chegado a hora de Ronaldo escrever seu nome em definitivo na história das Copas. Em uma jogada fora da grande área alemã ele roubou a bola e deu um passe açucarado para Rivaldo. O meia pernambucano chutou forte de fora da área. Oliver Kahn que até então vinha fazendo uma partida impecável “bateu roupa” logo na frente do Fenômeno, que não perdoou e mandou a bola para o fundo das redes aos 22 minutos do segundo tempo.

Aos 34, Kleberson faz passe para a grande área, Rivaldo faz o “corta luz” e a bola sobra limpa para Ronaldo fazer mais um. Foi uma explosão de alegria. A Alemanha bem que tentou, criou ótimas oportunidades, mas o goleiro “São” Marcos estava em um dia de muita inspiração. Fim de jogo. Brasil pentacampeão do mundo. Cafu, que herdou a faixa de capitão com o corte do volante Emerson, ergueu a taça depois de escrever 100% Jardim Irene (bairro pobre de São Paulo, onde o lateral nasceu) e após fazer uma declaração de amor para a esposa: “Regina, eu te amo”. Chuva de papel prateado, uma imagem que jamais será esquecida. E foi assim que Manaus viu a Copa do Mundo de 2002.