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‘Eles estão roubando vocês’, diz Andrew Jennings considerado ‘Inimigo Público Nº 1 da Fifa’

O jornalista Andrew Jennings desnuda o submundo pré-Copa do Mundo em livro recém-lançado no Brasil, ‘Um Jogo Cada Vez Mais Sujo’, da Editora Panda Books

O jornalista britânico, Andrew Jennings, questiona em uma séries de livros o negócio lucrativo que é a Copa do Mundo

O jornalista britânico, Andrew Jennings, questiona em uma séries de livros o negócio lucrativo que é a Copa do Mundo (Divulgação)

Em livro recém-lançado no Brasil (“Um Jogo Cada Vez Mais Sujo”, Editora Panda Books), o jornalista britânico Andrew Jennings desnuda a suposta farsa de ingressos da Copa do Mundo e avisa: os brasileiros estão pagando por uma Copa que só trará lucro para a Fifa e patrocinadores. Com um estilo descontraído e irônico, Jennings conta quem são os irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom, donos do grupo Byrom PLC, acionista majoritário da Match Services e da Match Hospitality, prestadoras de serviço para Fifa. Confira trechos da entrevista, divulgada pela Agência Pública, dele que é o “Inimigo Público Nº 1 da Fifa”.

No livro você mostra os negócios entre os irmãos Byrom e o vice-presidente da Fifa Jack Warner nas Copas de 2006 e 2010. Em linhas gerais, como esses negócios funcionam?

Existe um mundo negro que os fãs do futebol não conhecem, que é o mundo dos negócios de ingressos. Há 209 associações nacionais de futebol na Fifa, como a CBF, no Brasil. Algumas são bem honestas, mas a maioria não é. As associações nacionais pedem ingressos aos Byrom, que os fornecem em nome do Blatter (presidente da Fifa) e da Fifa. Os negociadores de ingressos do mercado negro vão até essas pessoas em diferentes países da África, da Ásia, alguns da Europa – especialmente os do antigo bloco soviético – e conseguem os ingressos com eles.

Em 2006 na Alemanha, eu revelei que eles estavam vendendo milhares e milhares de ingressos para Jack Warner, que agora está sendo forçado a sair da Fifa. Foi uma grande história, uma grande confusão, e eles fizeram isso de novo em 2010! O Warner, (presidente) da União Caribenha de Futebol, solicitou ingressos (por e-mail) mas copiou um negociante na Noruega! Então os Byrom sabiam que Jack estava comprando deles em nome do cara na Noruega. E eles copiam a correspondência para a Fifa e para a Infront, empresa do Philippe Blatter (sobrinho do presidente da entidade). Então todos eles sabem o que está acontecendo.

Na Alemanha eles tiveram muito lucro, mas na África do Sul esse mercado entrou em colapso porque ninguém queria ir para lá. É por isso que o escritório de ingressos dos Byrom estava entrando em contato com o Jack e com a Noruega, dizendo: “se vocês não mandarem o dinheiro logo, nós cancelamos seus ingressos”. O Jack Warner estava comprando os ingressos em nome do cara do mercado negro na Noruega e os Byrom precisavam dar ingressos para ele porque ele controla pelo menos três votos no Comitê Executivo da Fifa: se Jack, quer ingressos, ele ganha ingressos. E o que ele dá em troca é que ele e os amigos votam em você para que você consiga todos os contratos dos ingressos.

Os Byrom conseguem os ingressos por meio do contrato que a Fifa tem com a Match?

Não, a Match é hospitalidade. Existem três diferentes contratos entre os Byrom e a Fifa. Um é para os 3 milhões de ingressos para todos os jogos que vocês vão ter no Brasil nos próximos meses. Esses ingressos são para pessoas como eu e você ficarmos nas arquibancadas de concreto gritando e torcendo pelos times. Outro é para acomodação, porque nós estrangeiros e vocês brasileiros de outras cidades precisam de um lugar para ficar. Então os Byrom reservam uma grande quantidade de quartos, perto da Copa do Mundo percebem que não venderam todos e começam a se livrar deles. A terceira coisa é a Match Hospitality, da qual os Byrom são acionistas majoritários, da qual o Philippe, sobrinho do sir Blatter, tem 5% e outros grupos também têm ações… A Match é responsável pela hospitalidade, que são aqueles grandes e caros camarotes de vidro nos estádios, todos novos, pagos, em sua maioria, pelos contribuintes. Tem muito dinheiro na hospitalidade. Eu acho que vai ser um desastre porque essas pessoas não vão vir, mas isso é outra questão.

A Fifa argumenta que a Match tem o controle exclusivo das vendas de ingressos e de pacotes de hospitalidade, o que impede vendas não autorizadas. Isso é verdade? Por que é interessante para a Fifa manter esse esquema?

Isso é uma besteira. Os Byrom controlam todos os ingressos. Você vai no site da Fifa e encontra todo tipo de lixo sobre impedir as vendas não autorizadas, o que é ridículo, porque todo ingresso vem da porta do fundo dos Byrom. Eu não consigo imprimi-los, você também não. Muitos ingressos são impressos na última hora, porque agora nós não sabemos que time vai jogar na segunda fase e em qual estádio.

Então você ouve um monte de lixo sobre como você deve comprar deles, se não você pode ter o ingresso rasgado na entrada do estádio. Se você compra exclusivamente dos Byrom ou de seus amigos, você vai entrar. Mas o Warner estava comprando ingressos para outras pessoas! Ele não queria 5 mil ingressos para ele assistir à Copa da Alemanha, era para colocá-los direto no mercado! A Fifa diz que está policiando esse mercado paralelo de ingressos, mas não está. É como um padre que olha para o outro lado!

Os Byrom controlam todos os ingressos para a Copa no Brasil. Os parceiros comerciais deles aqui são o Grupo Traffic e o Grupo Águia, que, como você mostra, tem ligações comprovadas com a CBF e o Ricardo Teixeira. O que isso sugere?

No caso dos ingressos, o Teixeira forçou os Byrom a terem parceiros brasileiros para que seus amigos pudessem ganhar uma fatia. Por isso esses grupos têm alguma ação. Você encontra as referências à Traffic se olhar os relatórios do senador Álvaro Dias (relatórios finais da CPI da CBF, elaborados em 2001) (volume 1 – volume 2 – volume 3 – volume 4). Isso significa que o povo brasileiro está excluído. Vocês estão pagando pela Copa do Mundo e para vocês é dito que os ingressos vão ser distribuídos de forma justa. Aí você descobre que todo tipo de atividade ilegal relacionada aos ingressos está acontecendo.

No livro, você faz uma analogia entre a pilha de ingressos para a Copa do Mundo e um iceberg, mostrando que apenas a ponta está disponível para os torcedores, enquanto, embaixo d’água, o resto é vendido por meio de negócios ilegais. Então, o documento em que a Fifa explica a distribuição dos ingressos é falso?

Sim, porque existe um mercado negro. E se você está comprando um ingresso de mercado negro, ele pode vir de um país africano, ou de outro lugar. A Fifa fala sobre a ponta do iceberg, mas o fato é que existe um outro mundo sombrio embaixo da superfície, onde existe um imenso mercado de ingressos.

Qual é a chance de um brasileiro que ama futebol assistir ao Brasil jogar no estádio na Copa do Mundo?

Gaste seu dinheiro em uma televisão. Eles não colocam todos os ingressos na loteria! Você não pode acreditar nos gráficos, porque não há como checá-los! Os Byrom têm todas as estatísticas! Você pode checar o que o governo está fazendo porque você consegue os números, mas os Byrom não precisam publicá-los.

O Ricardo Teixeira e o João Havelange (ex-presidente da CBF e da FIFA) têm relação com esse esquema?

O que nós sabemos é que antes de forçarmos o Teixeira a sair, eles estava no Comitê Organizador Local, que fazia de tudo: ingressos, estádios… Eu não sei qual fatia o Havelange ainda consegue. Ele tem 96 anos. Mas Ricardo estava lá desde o começo. Ele preparou tudo, os negócios, tudo que tinha a ver com a Copa. Nós o forçamos a sair apenas por escândalos externos, ele não esperava por isso. Então você pode atribuir a ele tudo que está errado com a Copa, porque antes dele sair, todos esses contratos já estavam sendo arranjados, não são contratos novos. Ele diz que não tinha controle sobre o que estava acontecendo. Ah, por favor…

O que você descobriu sobre o Ricardo Teixeira?

Eu investiguei as propinas dele na Suíça e os relatórios do Álvaro Dias (da CPI da CBF). As investigações nos relatórios provam que Teixeira é um grande ladrão. Eu li todas as 500 mil palavras com a ajuda do Google Tradutor (risos). Você tem que fazer um ato muito criminoso antes de entrar em uma máfia. Eu estaria errado se dissesse que a Fifa deu a Copa para o Brasil. Isso é besteira. Blatter deu a Copa para o Teixeira. Não a Fifa, o Blatter. São coisas diferentes. A Fifa é uma máfia, uma família de crime organizado. No livro, eu mostro que ela não é uma organização legítima. Os líderes são ladrões, eles dividem tudo entre eles e estava na hora de dar ao Ricardo a sua Copa. A CBF estava falida e isso provou ao Blatter que Teixeira era justamente o tipo que ele queria para organizar a Copa.

Que pessoas e organizações lucram com a Copa?

Vocês contribuintes pagam por ela. A Fifa consegue lucrar com a bilheteria. Todo o dinheiro da Fifa vem da Copa do Mundo, é sua grande fonte de renda. Nos outros torneios: futebol feminino, sub-17, sub-21, eles perdem dinheiro. Mas eles precisam fazê-los para mostrar que são inclusivos. O Valcke prevê que a Fifa vai ganhar US$ 2,7 bilhões com a Copa, os brasileiros ficam bravos e ele responde: “Mas nós estamos colocando tanto dinheiro de volta”. Isso não é verdade. Quando um quarto de hotel é alugado, isso não é colocar dinheiro, é alugar um quarto de hotel! Os patrocinadores, como McDonald’s, Visa, Samsung e outros conseguem uma maravilhosa isenção fiscal de 12 meses pela “lei da Fifa”. O Romário lutou contra ela, mas a Dilma forçou sua aprovação. A isenção fiscal para eles é um fardo para vocês. Se eles não pagam os impostos, vocês pagam. Eles estão roubando vocês!

Então a Copa é um pretexto para eles lucrarem?

Eu acho que nós poderíamos ter um Mundial de futebol sem eles. Nós não precisamos desse nível de pessoas não transparentes só se preocupando com eles e com seus associados comerciais. Só o dinheiro da venda dos direitos televisivos, que você conseguiria legitimamente, é suficiente para pagar pela Copa do Mundo. As emissoras pagam uma fortuna para transmitir.