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Manaus de Copas: Confira a série especial do Craque sobre a história das Copas do Mundo

A nova série que você, leitor, começa a acompanhar a partir desta terça-feira (04), é o resultado de uma pesquisa que começou ainda em 2013

Em uma final antológica, o Uruguai derrotou a Argentina e conquistou o primeiro título de campeão do mundo, levando a taça Jules Rimet para casa

Em uma final antológica, o Uruguai derrotou a Argentina e conquistou o primeiro título de campeão do mundo, levando a taça Jules Rimet para casa (Reprodução)

O CRAQUE inicia nesta terça-feira (04) uma nova série jornalística. A maior desde a sua criação no dia 2 de março de 2008. Em 19 capítulos, publicados todas as terças, o caderno de esportes de A CRÍTICA contará a história das Copas do Mundo.

Este trabalho, porém, não pretende se prender apenas aos feitos da Seleção Brasileira e à história simples dos campeões em cada um desses torneios.

No meio dessa longa jornada que começou no distante ano de 1930, contaremos os fatos que marcaram a história de Manaus, que neste ano, será sede da Copa do Mundo, com direito a receber um clássico do futebol mundial entre Inglaterra x Itália, no dia 14 de junho, na Arena da Amazônia Vivaldo Lima.

A nova série que você, leitor, começa a acompanhar a partir de hoje, recebe o nome de “Manaus de Copas” e é o resultado de uma pesquisa que começou ainda no ano passado. Nossa equipe de reportagem dedicou meses de trabalhado revisitando publicações de periódicos antigos do acervo da Biblioteca Pública do Estado para recompor o cenário de cada ano.

A reportagem também ouviu historiadores e, à medida que a série for avançando para tempos mais atuais, contaremos também com depoimentos de testemunhas oculares da história.

Aviso aos leitores de A CRÍTICA: É hora de apertar os cintos. A nossa viagem pelo tempo vai começar.

Situação

A Manaus de 1930, ano da primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, não era nem a sombra da “Paris dos Trópicos”, a rica cidade cravada no coração da floresta amazônica que ganhou fama internacional por sua maior riqueza, o látex extraído das seringueiras.

Dos tempos de fartura restavam apenas edificações históricas que persistem até hoje como o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, o Palácio Rio Negro e a Igreja de São Sebastião.

“Do ponto de vista econômico a cidade vivia uma crise por conta da falência da economia gumífera. A cidade vivia uma indigência econômica. E politicamente foi um período de muita turbulência, porque coincide com a revolução de 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder”, explica o historiador Aguinaldo Figueiredo, autor de sete livros sobre a história do Amazonas.

O golpe de Estado aconteceu em outubro daquele ano. Mas, antes disso, o Brasil participou do primeiro Campeonato Mundial de Futebol, realizado de 13 a 30 de julho.

Apito inicial

A Copa de 30 nem de longe lembra as Copas de hoje. Naquela época não existia televisão. Os estádios não eram as arenas magistrais do nosso tempo.

O próprio torneio da Fifa, em si, não tinha a grandeza que tem hoje. Basta observar que a primeira edição do torneio foi disputado em apenas três estádios: Centenário, Pocitos e Parque Central.

Nada que se assemelhe, por exemplo, aos 12 estádios que deverão ser usados no torneio no Brasil, isso é claro, se Curitiba não ficar de fora. Mas isso é uma outra história...

Seleção ‘carioca’

A Seleção Brasileira fez a sua estreia em Copas do Mundo no dia 14 de julho de 1930, em Montevidéu, diante da Iugoslávia. O resultado? Não deu nem para o cheiro. O Brasil caiu diante dos rivais por 2 a 1. O atacante João Coelho Netto, o Preguinho, porém, entraria para a história como o primeiro brasileiro a marcar um gol em uma Copa do Mundo. Aquela derrota praticamente selou o destino do Brasil no torneio, porque o regulamento instituiu a primeira fase de três grupos com três seleções e um grupo com quatro. Apenas o primeiro lugar de cada chave avançaria de fase.

A Seleção Brasileira até venceu o jogo seguinte: 4 a 0 diante da Bolívia, só que os iugoslavos também fizeram o dever de casa para garantir a classificação. Eles venceram a Bolívia pelo mesmo placar. Assim o Brasil deu adeus ao torneio ainda na primeira fase.

Rivalidade

Se o velho ditado afirma que “a união faz a força”, pode-se dizer que foi exatamente a desunião dentro de nosso próprio País que acabou atrapalhando e muito o desempenho da Seleção Brasileira em 1930.

A rivalidade em questão era entre as principais cidades do País: Rio de Janeiro e São Paulo. Na época o Rio era a capital e o centro financeiro e cultural do País.

Enquanto isso, São Paulo era uma cidade em franca expansão do ponto de vista econômico, graças ao café, e já começava a botar as asinhas de fora no campo político. Foi aí que o bicho pegou.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sediada no Rio de Janeiro, deixou de convidar – de forma proposital, é evidente – dirigentes da Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) para fazer parte da comissão técnica da Seleção Brasileira.

Os paulistas consideraram esse ato uma verdadeira afronta e, como resposta, proibiram os jogadores que atuavam nos clubes de São Paulo de defender a Seleção Brasileira.

O “arranca-rabo” deixou de fora da Copa simplesmente aquele que foi o primeiro grande craque do futebol brasileiro: Arthur Friedenreich, que à época defendia o São Paulo. “El Tigre” (apelido que ganhou depois conquistar o Sul-Americano de 1919) fez muita falta à Seleção. O único “paulista” que conseguiu embarcar para a Copa no Uruguai foi o atacante Araken Patuska, que só foi ao torneio depois de dar uma “banana” para o seu time à época, o Santos. Depois do fiasco no Uruguai nem precisa dizer o quanto os paulistas “celebraram” a campanha do Brasil na Copa...

No decorrer do Mundial, os anfitriões dominaram a cena fazendo a Celeste se tornar a primeira detentora da taça Jules Rimet. No dia 30 de julho o estádio Centenário – construído especialmente para o torneio –recebeu a final entre o Uruguai e Argentina. Os donos da casa venceram por 4 a 2 em um jogo que foi uma verdadeira epopeia.

O uruguaio Dorado abriu o marcador aos 12 minutos. A Argentina virou ainda no primeiro tempo com Peucelle, aos 20 minutos e Stábille aos 38, causando nervosismo geral em todo o país.

No segundo tempo, a Celeste empata com gol de Cea, aos 12 minutos. Foi a deixa para a torcida se tornar o 12º jogador da seleção. Aos 23 Iriate botou o Uruguai novamente na frente e ainda deu para Castro ampliar. Nascia ali o verdadeiro significado da expressão “raça uruguaia”.


Os efeitos do Golpe de Estado

A Revolução de 1930 culminou com a destituição do presidente do Brasil, Washington Luís e pôs fim à chamada República Velha e à política do café-com-leite, caracterizada pela alternância de poder entre os Estados de São Paulo (produtor de café) e Minas Gerais (produtor de leite) com suas oligarquias agrícolas.

O golpe levou ao poder o gaúcho Getúlio Vargas em novembro de 1930. A Revolução, porém, teve início no dia 3 de outubro.

Em Manaus, a Revolução causou a queda do governador Dorval Porto. “Ele foi deposto pela Revolução em razão de seus atos, principalmente no sentido de reprimir as manifestações dos estudantes que eram pró-Varguistas”, afirma Agnaldo Figueiredo.

O episódio narrado pelo historiador ficou conhecido como a “Revolução Ginasiana”. “Os estudantes do Colégio Pedro II, hoje Estadual, liderados por alguns professores ilustres como Agnelo Bittencourt e Álvaro Maia, se rebelaram e foram reprimidos fortemente”, revela o historiador.

O Diário Oficial de 25 de outubro de 1930 pedia ao povo de Manaus que se conservasse “dentro da ordem e do respeito aos vencidos nesta grande campanha republicana. Nada de violência ou depredações, pois assim a victoria dos nossos ideais ficará manchada e seremos acusados, talvez de covardes, que não sabem respeitar os vencidos”, conclamava a publicação.

Com a queda de Dorval Porto, uma “Junta Revolucionária Governativa”, foi formada pelo tenente-coronel Henrique Cordeiro Junior, pelo dr. José Alves de Souza Brasil e Francisco Pereira da Silva, que era poeta e no futuro não muito distante se tornaria deputado federal responsável pelo projeto que criaria a Zona Franca de Manaus. Mas este é um assunto que veremos mais tarde.

De acordo com a edição do Diário Oficial de 25 de outubro de 1930, as notícias da Revolução chegavam a Manaus via “Telegrapho Nacional”. Naquele dia, conforme a publicação, a Junta Governativa se encaminhou para o Palácio Rio Negro – acompanhada do dr. José Alves de Souza Brasil, que era catedrático da Faculdade de Direito e chefe do Comitê pro Alliança Liberal – para acompanhar a renúncia do então governador Dorval Porto. O tenente-coronel foi nomeado novo governador provisório.

Os primeiros atos da nova junta governativa foram nomear José Alves de Souza Brasil como chefe de polícia; Francisco Pereira assumiu a secretaria Geral de Estado, enquanto Marciano Armond assumiria a prefeitura de Manaus.

Não demorou muito para que o governo passasse por uma nova modificação em um curto espaço de tempo. A ideia era não dar brecha para que a oposição pudesse se articular.

Em novembro, por intervenção federal assumiu o comando como interventor o tenente-coronel amazonense Floriano Machado, que ganhou uma página inteira de jornal no dia em que assumiu ressaltando todas as suas qualidades. Depois veio Álvaro Maia, que foi um dos principais apoiadores da campanha pro-Varguista em Manaus.

O ano de 1930 foi conturbado dentro e fora de campo. Na política uma Revolução muda o panorama do Brasil, mas pouca coisa muda efetivamente para Manaus. A Seleção Brasileira perde feio e deixa de levar o seu primeiro grande craque para uma Copa por divergências políticas entre paulistas e cariocas. Em Manaus o futebol vai crescendo e aparecendo com o Cruzeiro do Sul. Foi assim que vivemos a primeira Copa do Mundo.