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Manaus de Copas: Brasil volta ao topo do mundo em 1994

Na série especial do Craque desta terça-feira (13), a Copa dos Estados Unidos de 1994 será o alvo principal. Nela você, leitor, poderá sentir os dramas e as alegrias que os brasileiros sentiram na época

Seleção Brasileira apostou no futebol pragmático, forte no sistema defensivo e sem um meia-armador de ofício, como mandava a tradição nacional

Seleção Brasileira apostou no futebol pragmático, forte no sistema defensivo e sem um meia-armador de ofício, como mandava a tradição nacional (Divulgação)

Ano de um novo plano econômico, e também de muita tristeza, amenizada apenas pela conquista de um título que rompeu com um jejum que já durava 24 anos. Assim foi 1994, ano em que a Seleção Brasileira voltou a vencer uma Copa, a primeira desde o fim da era Pelé.

Em janeiro daquele ano, o cenário político estava agitado, ainda por conta do escândalo dos “Anões do Orçamento”, deflagrado no ano anterior. Na denúncia, políticos eram acusados de receber propinas de empreiteiras em troca de emendas apresentadas à Comissão de Orçamento do Senado. O deputado federal pelo Amazonas, Ézio Ferreira (PFL), foi apontado como um dos envolvidos e teve que justificar a origem de sua fortuna à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigou 37 parlamentares, pediu a cassação de 18, mas apenas seis foram cassados. Quatro renunciaram e oito foram absolvidos: Ézio foi um deles.

E por falar em política, em 1994 o presidente do Brasil era Itamar Franco, que era vice de Fernando Collor de Mello, que recebeu Impeachment em 1992. Collor caiu devido a denúncias de corrupção feitas pelo irmão dele, Pedro Collor. No fim de 94, Pedro morreu em Nova Iorque vitima de câncer no cérebro, enquanto Fernando foi absolvido em julgamento no Supremo Tribunal Federal.

A prefeitura de Manaus, era comandada por Eduardo Braga, que recebera a “chave da cidade”, depois que Amazonio Mendes deixou o cargo para se candidatar ao governo. Amazonino, aliás, venceu fácil a eleição naquele ano, substituindo o seu mentor político, Gilberto Mestrinho. As eleições para o senado foram vencidas por Bernardo Cabral e Jefferson Peres.

Na economia, o presidente Itamar Franco, em parceira com o então ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso, lançou o plano Real, que teve como pontapé inicial a implantação da Unidade Real de Valor (URV) em março daquele ano.

Bronca alta

No dia 19 de abril, Manaus passou por um grande susto com o desabamento da cobertura do Centro de Convenções, o Sambódromo. O acidente causou pânico e 15 pessoas ficaram feridas no corre-corre.

No dia seguinte ao acidente o Sambódromo sediaria um congresso da Igreja Adventista do 7º dia, que tinha previsão de receber pelo menos 15 mil pessoas, que ficariam no local onde ocorreu o desabamento.

O laudo que analisou o incidente apontou a empresa Mendes Jr. Industrial Ltda. como responsável pelo ocorrido. A idéia de cobrir o sambódromo foi do então governador Gilberto Mestrinho, devido a “quantidade de chuvas na cidade”.

Por falar em pânico, o dia 8 de julho foi marcado por muita tensão. Um tremor de terra atingiu a cidade. Na verdade, Manaus sentiu apenas o “reflexo” de um grande terremoto que teve como epicentro a Bolívia e marcou sete pontos na escala Richter.

Tragédia

No dia primeiro de maio daquele ano morreu o tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna da Silva em um acidente no Grande Prêmio de Ímola, na Itália, na curva Tamburello. O Brasil parou para se despedir do piloto. Em Manaus, a comoção foi tão grande que as ruas ficaram vazias por uma semana. Os comerciantes reclamaram dos prejuízos.

Crime da mala

Manaus também teve naquele ano a sua versão do “crime da mala”. O pintor Valdeey Eduardo da Silva, alegando que era traído pela esposa Aldenia Oliveira da Silva, resolveu “lavar a honra” com sangue. Ele esperou a companheira dormir e a atingiu com uma machadada na cabeça. Em seguida desferiu 34 facadas. Ele colocou o corpo da mulher em uma mala e abandonou em um matagal, fugindo com os três filhos menores. O corpo foi encontrado e o assassino acabou preso.

Fim de outro jejum

O Campeonato Amazonense de 1994 foi um dos mais “enxutos” da história. Em virtude da crise econômica apenas quatro equipes participaram do torneio: Fast Clube, Libermorro, Nacional e América. É, mas o time do lendário técnico Amadeu Teixeira não quis saber da “pouca concorrência” e mandou ver. O Diabo conquistou o título do Campeonato Amazonense - primeiro da era profissional – depois de 40 anos de jejum. A final aconteceu no estádio Vivaldo Lima no dia 27 de novembro entre Nacional e América. No tempo regulamentar a partida terminou 1 a 1, gols de Nonato para o Naça e de João Rocha, para o Mequinha.

Na prorrogação novo empate. Nonato marcou para o Nacional e Edmilson deixou tudo igual: 2 a 2. Assim como aconteceu na decisão da Copa do Mundo, o Campeonato Amazonense também foi decidido nos pênaltis.

O Diabo levou a melhor: 5 a 4. Marcos Vinicius, Zé Augusto, João Rocha, Edmilson e Antonio Carlos converteram as cinco cobranças para o América. Pelo lado do Nacional, Bugica, Beto Pastor, Nonato e Ney Fernandes converteram. A cobrança de Hildalgo parou nas mãos do goleiro Carlinhos. Fim do jejum do América. Uma merecida vitória para Amadeu Teixeira. “Tenho um carinho especial pelo América porque joguei no clube entre 1960 e 1961. O senhor Amadeu Teixeira, para mim, foi um dos maiores técnicos da história do nosso futebol e aquele título (1994) foi um resposta à persistência dele em trabalhar pelo nosso futebol”, disse o professor e historiador Francisco Carlos Bittencourt, 66.

O Brasil que deu certo

Nos anos dourados do futebol brasileiro (leia-se 1958, 62 e 1970) o Brasil venceu a Copa do Mundo jogando o melhor do futebol arte. Tínhamos gênios como Garrincha, Pelé, Didi, Gerson, Tostão entre outros. O negócio era jogar pra frente, jogar bonito...

É, mas o tempo passou e o País até conseguiu produzir uma boa safra de craques ao exemplo da Seleção que disputou a Copa do Mundo de 1982 com Zico, Sócrates e Falcão. Mas se o ataque era genial, a defesa, quase sempre, deixava a desejar.

Depois do fracasso de 86 a Seleção começou a se preocupar mais com o sistema defensivo. Em 1990 foi apenas um ensaio. Quatro anos depois o negócio finalmente funcionou.

O torcedor se desesperava com tanto volante na Seleção: Dunga, Mazinho, Mauro Silva... O único camisa 10 de ofício, Raí, atravessava uma fase tão complicada que a torcida “mudou” o nome dele para “Ruim”. O técnico Carlos Alberto Parreira bancou o futebol pragmático e defensivo. A dupla de zaga, formada pelos Ricardos Gomes e Rocha não foi titular. Gomes foi cortado antes da Copa por contusão. Já o Rocha se machucou na primeira fase. Entra em cena uma das melhores duplas de zaga em Copas de todos os tempos: Márcio Santos e Aldair. No meio campo os volantes Dunga e Mauro Silva não deixavam passar nem vento. Mazinho se juntou a eles na vaga de Raí. Zinho (o enceradeira) fechava o meio de campo. Pensem em um jogador contestado?! As laterais eram guardadas por Jorginho e Leonardo. Com uma defesa tão boa Taffarel passou boa parte do Mundial lendo jornal. Enquanto isso, Bebeto e Romário se viravam para “furar” as defesas adversárias.

Com esse time o Brasil venceu a Rússia na estreia por 2 a 0, gols de Romário (27min) e Raí (aos 8 min do 2º tempo de pênalti) no primeiro jogo da primeira fase. No segundo, um “passeio” contra Camarões 3 a 0: gols de Romário (39 min), Márcio Santos (21 min) e Bebeto fechou o placar aos 28 do segundo tempo. O terceiro jogo foi “osso”. A Suécia, nossos velhos conhecidos. O Brasil sofreu seu primeiro gol de Kennet Andersson aos 23 minutos do primeiro tempo. Com um minuto do segundo tempo Romário deixou tudo igual.

Nas oitavas de final enfrentamos os donos da casa, os Estados Unidos no dia da independência deles: 4 de julho. Foi uma batalha. Os EUA tinha um time valente, mas formado por jogadores com pouca rodagem. Nesta partida o lateral Leonardo acertou uma cotovelada no uruguaio naturalizado norte-americano Tab Ramos e acabou expulso. O jogador sofreu uma fratura no maxilar e Leonardo acabou banido daquela Copa.

Sem um meia armador de ofício coube a Romário o papel de criar as jogadas e ele fez uma perfeita para Bebeto que, em um toque “cirúrgico”, conseguiu furar a defesa dos Estados Unidos. Brasil 1 a 0.

Na partida seguinte o jogo mais incrível do Brasil naquela Copa foi contra outro velho conhecido: a Holanda. E parecia que ia ser fácil. No segundo tempo, aos 8 minutos, Romário abriu o marcador. Dez minutos depois foi a vez de Bebeto driblar De Goey e fazer uma homenagem ao filho Matheus, que tinha acabado de nascer.

Mas a Laranja nunca deu vida fácil ao Brasil. Um minuto depois a Holanda diminuiu com Bergkamp e aos 31 deixou tudo igual com Winter. Tensão. A Seleção Brasileira teve o jogo na mão e agora tinha que correr atrás. O papel de salvador da pátria ficou para o lateral-esquerdo Branco.

Quase cortado no início por problemas físicos, ele foi “bancado” pelo médico Lídio Toledo. Depois da suspensão de Leonardo ganhou a vaga para entrar para a história do futebol mundial. Na hora do gol - em uma cobrança de falta -, batizado de “cala a boca”, Branco chorou e homenageou o médico.

Na semifinal, a Suécia novamente pelo caminho. E na terra dos gigantes suecos brilhou a estrela de um baixinho. Depois de um cruzamento perfeito de Jorginho, Romário fez um gol de cabeça aos 36 minutos do segundo tempo. Brasil na final!

A decisão não poderia ter sido mais emblemática. Assim como aconteceu em 1970, novamente a Copa seria decidida entre Brasil e Itália. Naquela ocasião as duas seleções decidiram quem seria o primeiro tri da história. Em 1994 os times disputaram o primeiro tetra. E como demorou para que pudéssemos conhecer o campeão. Não teve gol no tempo normal. Também nada na prorrogação. A decisão foi para os pênaltis.

O primeiro a bater foi Franco Baresi, que isolou. Márcio Santos foi para a cobrança, mas ela terminou nas mãos de Gianluca Pagliuca. Albertini cobrou e fez. Em “paradinha” Romário deixou tudo igual. Evani bateu no meio do gol. Branco novamente igualou o marcador. Estava na hora de brilhar a estrela de Taffarel. Daniele Massaro bateu e o goleiro brasileiro defendeu. Dunga colocou o Brasil na frente. Estava nos pés do craque Roberto Baggio a sobrevivência da Itália na série. Ele mandou a bola nas nuvens. Festa no Brasil, que voltava a ser campeão do mundo 24 anos depois da última conquista. Foi a primeira vez que uma Copa do Mundo foi decidida nos pênaltis.

E foi assim que Manaus viu aquela Copa do Mundo, com um título para aplacar a tristeza pela morte de Ayrton Senna e com a esperança de dias melhores com o nascimento de um novo plano econômico que, finalmente, deu certo.