Transamazônica e Wisleângela: sonhos interrompidos

Revelada aos 15 anos para o atletismo, Wisleângela Galvão teve que interromper a carreira no esporte para correr atrás do próprio sustento e da família. A rodovia Transamazônica, para ela, é uma longa pista de treinamentos, onde alimenta diariamente o sonho de voltar a competir

Wisleângela Galvão, 27, encara a Transamazônica para reforçar o sonho de voltar a competir profissionalmente no atletismo

Wisleângela divide o tempo entre os dois filhos, o emprego e algumas corridas ao longo da BR-230 (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Seu nome é complicado, mas o sonho é simples: voltar ao atletismo. É isto que Wisleângela Galvão, 27, quer. Ela já representou o Estado do Maranhão em competições nacionais e venceu o Grande Prêmio Norte-Nordeste sub-18 em 1999, mas o destino lhe tirou das pistas. Hoje ela trabalha com camareira em um hotel de Marabá para ajudar a sustentar os dois filhos. Para não ficar parada, treina quando pode correndo na Transamazônica.

Wisleângela nasceu em Bacabal, cidade pobre do interior do Maranhão. Foi criada com a avó materna e desde menina despertou para o esporte. Aos 13, começou a disputar competições em sua cidade. Aos 15, foi descoberta por um treinador da capital e foi treinar em São Luiz. Ela lembra que sofreu com a mudança. "Eles queriam que eu corresse de sapatilha, mas no interior eu nunca tinha botado o pé numa sapatilha. A primeira vez que eu corri, fui mal porque não era acostumada. Eu queria correr descalça", conta Wisleângela.

Mas o incomodo passou rápido e em 1999 ela bateu o recorde Norte-Nordeste dos 100 metros rasos para competidores com até 18 anos de idade. "As pessoas ainda não me conheciam direito. Me chamavam de Bacabal, que é o nome da minha cidade. Não sabiam falar o meu nome. Depois que eu ganhei, fiquei mais conhecida, mas isso não me ajudou muito", lamenta.

Após a vitora do Norte-Nordeste, Wisleângela pensou que sua carreira fosse deslanchar. Não foi o que aconteceu. Sem patrocínio e nem apoio da Federação Maranhense de Atletismo, ela viu outras competidoras com índices abaixo dos seus representarem o Maranhão. "Eu não tinha como ir. Uma vez que viajei pra Fortaleza com R$ 25 e voltei com R$ 5. O pessoal me chamava pra jantar e eu fazia que ia, mas ficava era no ônibus comendo minha farofa com ovo", conta a corredora.

Dificuldades
Aos 18, engravidou do primeiro filho, Wesley Matheus, mas não desistiu das corridas. Porém, retornar foi ficando cada vez mais difícil. Logo depois, veio a segunda filha, Vitória Kelly. Casou-se e se mudou para Marabá onde trabalha como camareira em um pequeno hotel da cidade. O marido é ajudante de pedreiro. Para complementar a renda, ela trabalha durante as folgas como representante de uma empresa de ferragens.
Até a dona do hotel, Irene Sarmento, já percebeu a vontade de sua funcionária de voltar às pistas. No natal do ano passado, deu um par de tênis para a corredora. "Eu quero que ela realize seus sonhos. A felicidade dela vai ser a minha também".

A esperança de voltar a correr já fez Wisleângela escrever cartas para programas de apresentadores como Luciano Huck e Ana Maria Braga. Cartas que ela ainda não conseguiu enviar, mas ela avisa que não vai desistir. "O auge do atleta de tiro curto é entre os 27 e 31 anos. Eu ainda tenho uns quatro anos pra tentar e vou continuar tentando. Só preciso de uma chancezinha que eu arrebento. Tenho certeza. Quem sabe eu não apareço em 2016?", indaga a corredora.

Blog
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