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Crença e misticismo serão protagonistas no 49° Festival de Parintins neste ano

Dirigentes dos bumbas Garantido e Caprichoso explicam como nasceram os temas que serão defendidos pelos bois no Bumbódromo

  • Artistas de Azul dão os toques finais nas alegorias
    FOTO: Antônio Lima
  • As diversas formas de fé estarão em foco no Garantido
    FOTO: Antônio Lima

Uma das principais características do Festival Folclórico de Parintins é a capacidade de reunir, além de torcidas contrárias e apaixonadas, duas visões sobre o mundo e o imaginário amazônico. Nesse ponto, Garantido e Caprichoso se diferenciam e também podem se aproximar de acordo com os temas que cada associação folclórica escolhe defender na arena.

A força da fé humana, a crença em diferentes religiões e ritos e a promessa de dar vida ao “brinquedo de criança” de Lindolfo Monteverde, há 101 anos   todo final do mês de junho pelas ruas de Parintins, serão o mote das três noites de apresentação do boi-bumbá Garantido durante o 49º Festival Folclórico de Parintins, que inicia nesta sexta-feira (27).

A temática escolhida, um ano após a comemoração do centenário do Garantido, tem o objetivo de também reunir o sentimento e a energia que sustentam as crenças de povo amazônico nas diferentes religiões. “A nossa preocupação não é falar sobre cada religião, mas sobre essa força do ser humano que, inclusive, é estudado pela comunidade científica. Queremos dizer que a fé é natural do homem, e não das religiões. É um processo de transcendência espiritual”, explicou o diretor da Comissão de Artes do Garantido, Fred Góes.

O respeito e a tolerância às diferentes crenças existentes, a resistência do homem amazônico às adversidades e problemas da região, bem como as rezas das benzedeiras amazônicas e dos pajés também devem ser apresentados pelo Garantido. As lendas e rituais da cultura indígena e o tradicional culto aos orixás e entidades da religião de matriz africana também são exemplos de fé que devem estar presentes nos itens e alegorias.

“Como o índio descobriu que escarificando o corpo e passando o ‘kambô’ (secreção de poder antibiótico proveniente de rã amazônica) ele poderia alcançar a cura? Isso também vem da crença”, explica Góes, ressaltando o uso das plantas e substâncias da floresta amazônica para o tratamento de doenças, prática que é repassada por meio da oralidade entre as gerações. “O link com a fé vem da nossa observação sobre tudo o que aconteceu nessa formação cultural e social do povo amazônico”, explica.

“Como que o católico transcende espiritualmente com a hóstia e a comunhão com o cálice de vinho. Isso é um rito de fé. E o pajé quando toma a sua erva alucinógena? Ele também transcende para obter a cura da tribo”, completa Fred Góes.


“Todo ano a gente traça um eixo, logo após o festival, em agosto. E nos últimos 15 anos focamos muito nos temas de preservação e conservação da floresta, como o ‘Amazônia Viva’, ‘Santuário Amazônia’ e ‘Santuário Esmeralda’. Foi quando o presidente do boi (Télo Pinto) disse para mim que não conseguia dormir (pensando no tema) e a primeira coisa que veio na minha cabeça foi o tema ‘fé’. Eu já tinha ouvido seis ou sete toadas, e todas falavam, de um jeito ou outro, de fé”, revela Góes.

PROMESSA DE CRIANÇA

Os frutos oriundos da fé humana também serão demonstrados durante as três noites do Garantido este ano. Um deles é a própria criação do bumbá vermelho e branco, há 101 anos, pelo fundador Lindolfo Monteverde.

Para alcançar a cura de uma doença enquanto era soldado do Exército, Monteverde prometeu a São João colocar todos os anos o “boi de pano” para desfilar nas ruas de Parintins durante as festas do mês de junho. Essa devoção a São João e a outros santos católicos também são exemplos da fé e da crença do povo amazônico, que resistem com o passar dos tempos.

Mesmo declarado com pensamento cético pela formação acadêmica em Jornalismo, Fred Góes conta uma história de fé ocorrida na família dele, quando o filho, o “Fredinho”, teve o corpo tomado por “espíritos da floresta” e teve que receber a cura de um tio médium, o João Rolim, hoje já falecido. “Numa madrugada em Parintins, o ‘Fredinho’ acordou apavorado e chorando, com olhos vermelhos, dizendo que tinham bichinhos nos braços dele, e que esses bichinhos se transformavam em monstros durante a noite”, conta Fred.

A família, na busca para interromper o sofrimento da criança,  visitou o benzedeiro João Rolim. “Ele colocou o menino num banco de madeira, tirou a camisa e pôs a mão na cabeça dele. E depois ‘limpou’ os braços do ‘Fredinho’, passando as mãos fortemente. Naquele final de semana, meu filho havia brincado, por muito tempo, na beira do rio, e deve ter sido aí que a entidade tomou conta do corpo dele”, acredita Fred. “Isso me impressionou muito. Como esse cidadão conseguiu fazer essa cura? Está ligado à crença e à fé, lógico”, acredita o diretor de Comissão de Arte.

CAPRICHOSO APOSTA NO MITICISMO 

“Táwapayêra” é o tema que o Caprichoso defenderá durante o 49º Festival Folclórico de Parintins, e o que o boi preparou para as três noites de apresentação promete conduzir os brincantes a uma incursão nas diversas manifestações do misticismo amazônico. De acordo com o membro do Conselho de Artes, Gil Gonçalves, a temática começou a ganhar seus primeiros contornos em outubro do ano passado, logo após a eleição de Joilto Azêdo e Rossy Amoedo para a presidência e vice-presidência, respectivamente, da associação folclórica.

“Nos últimos anos o Caprichoso veio com uns temas muito soltos e abstratos, com falta de delimitação. Além disso, o desejo da nova diretoria era apresentar um tema mais agressivo, impactante”, conta Gonçalves. “Então começamos a delinear uma proposta que falasse essencialmente da Amazônia, mas num outro contexto, a partir dos seus mistérios e segredos. Procuramos reunir o maior número de referências indígenas, presentes inclusive no tema, que em tupi significa ‘Aldeia Mística’, que nada mais é que a própria Amazônia. Nenhum boi teve coragem de fazer isso antes”.


Feito isso, o Conselho de Artes do Caprichoso precisava delimitar onde se encontrava o tal “misticismo da floresta”. “Depois de discutirmos com os membros do Conselho, pontuamos três situações que orientariam as três apresentações: no primeiro dia haverá a presença forte da questão mitológica, as cosmogonia dos povos indígenas, os fenômenos naturais e o mundo lendário. Em seguida, abordaremos o xamanismo e o poder dos pajés. Para encerrar, na terceira noite, o boi mostrará o sincretismo brasileiro a partir de manifestações que nasceram na religião”, explica Gonçalves.

INDÍGENA TEVE PAPEL FUNDAMENTAL

Todo o desenvolvimento do tema “Táwapayêra” foi acompanhado de perto por uma figura ilustre: o indigenista e escritor Ozias Glória de Oliveira (ou Yauarê Yamã Apuriñanguá), do povo Maraguá, que vive na região do rio Abacaxis. Ele é o primeiro indígena a fazer parte do Conselho de Artes do Caprichoso e, para Gil Gonçalves, a participação dele foi fundamental para o boi de arena deste ano.

“Nosso primeiro contato com ele foi através do Zandonaid Bastos, também membro do Conselho”, conta Gonçalves. “Ali começou o início de uma relação de amizade e entrosamento, mas não avançou. Com a definição do ‘Tápawayêra’, fui atrás dele e hoje o Apuriñanguá honra o Caprichoso com a sua presença. Com certeza foi uma das adesões mais importantes ao Conselho nos últimos anos”.

De acordo com Gil, Ozias não só fundamentou as propostas direcionadas às questões indígenas como deu credibilidade ao projeto. “Ele é uma pessoa que luta pela preservação da cultura para além dos estereótipos. Tivemos muito cuidado nesse ponto, e ele teve um papel importante para que nós, por alguma empolgação, não tomássemos o caminho errado”.

O novo membro do Conselho foi consultado, especialmente, nos momentos de definição dos rituais que o Caprichoso vai apresentar no Bumbódromo: ianomâmi, maraguá e parintintin. “Ao mesmo tempo em que ele pedia cuidado com as questões sagradas, que procuramos reproduzir com a maior fidelidade possível, ele entendia que tudo isso era para ser visto dentro do contexto folclórico do boi-bumbá de Parintins”.