Boa parte da polêmica que se criou em torno da construção das usinas hidrelétricas do rio Madeira referem-se a um questionamento: aumentar a oferta de energia é a única alternativa para o Brasil crescer?
Mais uma vez, desenvolvimentistas e ambientalistas discordam. Para o Governo Federal, aumentar a quantidade de energia gerada no País é imprescindível para o Brasil não ter outro “apagão”. Do outro lado, estudiosos afirmam que há outras formas de o Brasil “conseguir” a energia necessária para crescer.
O Brasil produziu cerca de 419.336 GW/h em 2006. Desse total, 83% vêm de hidrelétricas. A Amazônia ainda tem um potencial de geração de energia de 112 GW. Para o presidente a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tomalsquim, a Região Norte é a “última fronteira” hidráulica a ser explorada no País. “Não se pode querer que um País como o Brasil cresça sem gerar energia”, afirma. Um estudo coordenado pela organização não-governamental WWF afirma, no entanto, que é possível crescer sem aumentar o número de hidrelétricas na região amazônica. Para isso, bastaria diminuir as perdas na distribuição e transmissão da energia gerada atualmente, aumentar a participação de outras fontes (biomassa, por exemplo) e repotencializar as usinas já existentes.
“Se trocarmos as turbinas antigas de algumas usinas brasileiras, poderíamos ter um ganho de energia muito grande”, afirma o pesquisador Alexandre Kemenes, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). De acordo com o relatório do WWF, o Brasil poderia “ganhar” 32 GW se modernizasse suas usinas.
Convergência
Independente das cores que defendem, ambientalistas e governo convergem num ponto: é preciso racionalizar o consumo de energia no Brasil. “É inadmissível que se perca 16% de tudo o que é produzido de energia. Na europa, esse nível é de 6%”, afirma Marcelo Furtado, diretor de Campanhas e Energia do Greenpeace.
Maurício Tomalsquim afirma que o aumento da oferta e da eficiência energética têm que caminhar juntas.
O irônico de toda essa discussão é que boa parte das pessoas que terá de abandonar suas casas para a construção das usinas sequer são abastecidas por energia elétrica.
Chuveiros
No Brasil, 8% de toda a energia elétrica produzida vai para uma atividade quase prosaica: chuveiros elétricos. Por ano, o Brasil gasta o equivalente a mais de uma usina hidrelétrica de Santo Antônio, que tem capacidade de 3.150 MW.
TRÊS PERGUNTAS
Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace
1 O Brasil pode crescer sem aumentar a oferda de energia elétrica?
É lógico que o Brasil precisa crescer, mas o aumento da oferta de energia tem que ser feito com sustentabilidade. Nós realizamos um estudo e chegamos à conclusão de que se pode conseguir mais energia com a estrutura que temos atualmente.
2 Como o senhor avalia a política energética do Governo Federal?
O governo privilegia o aumento da oferta, única e exclusivamente. Os investimentos em eficiência energética, por exemplo, que poderiam gerar uma economia enorme ao País, são pequenos.
3 Por que isso acontece?
Porque investimento em eficiência não dá voto nem atende aos interesses dos grandes grupos que se beneficiam desses grandes projetos hidrelétricos, por exemplo.
Entrevista > Maurício Tiommo Tomalsquim
“A Região Norte é nossa última fronteira hidráulica”
Maurício Tiommo Tomalsquim, 49, é um dos técnicos mais gabaritados do Ministério de Minas e Energia. No comando da Empresa de Planejamento Energético (EPE), ele é o responsável por traçar cenários e diretrizes da política energética do País. Apenas uma coisa tira a paciência deste paciente interlocutor: críticas de ambientalistas que, segundo ele, “não têm compromisso com o Brasil”.
Aumentar a oferta de energia é a única alternativa para o Brasil crescer?
É claro que o Brasil precisa gastar energia com mais eficiência. Isso é bom tanto para o consumidor, que gasta menos na conta, quanto para o governo, que tem que gastar menos com investimentos em infra-estrutura. Entretanto, não é admissível que nós imaginemos o Brasil no futuro sem novas fontes de energia. O Brasil precisa de energia para crescer. Não dá pra pensar que vamos crescer economicamente sem gerar mais energia. Somente na base da economia não dá.
Analisando a relação custo-benefício, as usinas hidrelétricas do Madeira são um bom negócio?
Com certeza. É uma usina de baixíssimo impacto ambiental. As turbinas ficam praticamente dentro da calha do rio. O lago será muito pequeno se comparado a outras usinas. Além disso, a energia da usina de Santo Antônio ficou muito barata.
Qual o papel da Amazônia no planejamento energético do País?
A Região Norte do País é a última fronteira hidráulica que temos. Até agora, o Brasil aproveitou apenas um terço de seu potencial hidrelétrico. Dos dois terços que ainda restam, 65% estão na Região Norte. Nós temos usinas que estão em andamento. Jirau, Santo Antônio e Belo Monte (no Pará) serão importantíssimas para o desenvolvimento do Brasil. Mesmo assim, hoje as coisas são diferentes do que eram na época do regime militar. Hoje, as exigências ambientais fazem com que avaliemos melhor se vale a pena instalar uma usina hidrelétrica em determinado ponto.
Ambientalistas afirmam que o Governo Federal privilegia o aumento da oferta de energia em detrimento da eficiência energética. Essa acusação tem procedência?
Nós temos investido em eficiência. Temos o Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) e ainda temos os investimentos que vão para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) por meio dos repasses das distribuidoras. A nossa meta para 2030 é que o Brasil economize o equivalente a duas usinas de Itaipu (28 mil MW) apenas racionalizando os gastos.
Como o senhor avalia as críticas de que o Brasil concentra seus investimento em grandes obras para geração de energia?
Nós temos que atender ao mercado. Temos que produzir energia para a população. Isso é coisa de quem não tem compromisso com a nação. Eu quero ver o que eles vão falar no dia em que faltar energia.
PERFIL
nome:Maurício Tiomno Tolmasquim, idade: 49, estudos:Engenheiro de Produção e Economista experiência: Autor de 12 livros sobre regulação e planejamento energético, é professor adjunto da COPPE/UFRJ, foi Sec. Exec. do Ministério de Minas e Energia e, atualmente, preside a Empresa de Pesquisa Energética.