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Malikai Dapana: a escola de pajés

Índios baniwa criam o primeiro centro de formação para xamãs do Brasil

Pajé usa tabaco e chacoalha seu maracá como parte do tratamento de seu paciente. Manuel da Silva, o “Mandu”, é o pajé mais poderoso do povo baniwa

Pajé usa tabaco e chacoalha seu maracá como parte do tratamento de seu paciente. Manuel da Silva, o “Mandu”, é o pajé mais poderoso do povo baniwa (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Um grunido de dor ecoa na floresta. O corpo fraco do velho xamã não suporta mais o pariká como antigamente. A cada dia, o pó sagrado lhe deixa mais e mais esgotado. Mesmo assim, ele apoia o corpo franzino em um cajado e, lentamente, se afasta do paciente. Sai da maloca chacoalhando seu maracá e olhando para o céu. Em transe, ele pede aos espíritos da mata que o ajudem até que sua boca expele uma mistura de vômito e saliva. É a materialização da doença. A cura está próxima.

O velho que precisa de um cajado para se equilibrar se chama Manoel da Silva, 75, mais conhecido pelo apelido “Mandu”. Ele é professor da primeira escola de pajés do Brasil, localizada na aldeia onde vive, Uapuí-Cachoeira, às margens do rio Ayari, em São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros de Manaus). A escola foi criada em novembro do ano passado com a missão de evitar a morte do xamanismo entre os baniwa que, desde o início dos anos 90, lutam para revitalizar sua cultura.

A escolha de “Mandu” para ser professor da Malikai Dapana (Maloca dos Conhecimentos dos Pajés) não foi por acaso. Ele é o pajé mais poderoso do povo baniwa, etnia do tronco linguístico aruak que vive entre Brasil, Colômbia e Venezuela. De acordo com o antropólogo norte-americano Robin Wright, que estuda a região desde 1976, “Mandu” é o único “pajé-onça” de todo o povo baniwa. “O pajé-onça é o estágio mais avançado que existe. Para um xamã chegar a esse nível, ele demora, em média, dez anos. Existem outros pajés, mas poderoso como o Seu ‘Mandu’, nenhum”, diz Wright, um dos idealizadores da escola.

Papel
Entre os antropólogos que estudam o povo baniwa, há consenso de que o pajé não é um mero curandeiro, mas uma espécie de médico com amplo conhecimento dos remédios extraídos das plantas, mas, sobretudo, um guia espiritual e mediador entre os espíritos das diversas camadas que compõem o mundo deles e o plano físico em que os índios vivem.

A ideia de criar a escola de pajés surgiu das conversas entre Wright e Alberto de Lima da Silva, 47, filho e aluno de “Mandu”. “A gente sentiu a necessidade de resgatar esses conhecimentos. O meu pai já está velho e os jovens precisam aprender essas coisas, senão a pajelança vai desaparecer”, diz Alberto.

O risco de “extinção” do xamanismo baniwa tem explicação. Durante quase 300 anos, missionários católicos e evangélicos proibiram os índios de praticar seus rituais. Os pajés praticamente desapareceram. Desde o início dos anos 90, porém, diversas etnias iniciaram um processo de revitalização e reforço étnico que, em Uapuí-Cachoeira, culminou com a construção da Malikai Dapana.

Escola diferente
A escola construída pelos baniwa em nada se parece com uma escola convencional. Ela tem a forma de uma grande maloca construída com vigas de madeira entrelaçadas com cipó e coberta com palha de caraná, uma palmeira da região. Tem dez metros de comprimento por cinco de largura e três de altura.

“Mandu” dá aula a 15 alunos. Quase todos são jovens, parentes do professor e vivem em Uapuí-Cachoeira. Alberto diz que já mandou recado para as outras aldeias convocando novos alunos, mas até agora não recebeu resposta. João Joaquim de Lima da Silva tem 16 anos, é neto de “Mandu” e um dos primeiros alunos da escola. Seu interesse pelos conhecimentos dos mais velhos é coisa rara entre a juventude baniwa. “É importante cultivar os conhecimentos do meu avô. Isso faz parte da nossa história e eu quero preservar. Não quero que nossa cultura morra com o meu avô”, diz o aprendiz de pajé.

EM NÚMEROS - US$ 18 mil
Esse é o valor repassado pela organização não-governamental Foundation For Shamanic Studies (Fundação para Estudos Xamânicos). O valor foi utilizado na construção da maloca. Outros US$ 4,5 mil foram liberados neste ano. 5,8 mil é a população estimada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) dos índios baniwa no Brasil. A etnia se espalha pela Colômbia, também. Eles se encontram em centenas de comunidades na calha do rio Içana, Ayari Cubate e Cuiari.