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Tripas dão vida aos bumbás de Parintins e nutrem paixão que já dura décadas

Piçanã está há 19 anos defendendo o item número 10 do Garantido, o boi-bumbá. Ele só perde para Marquinhos Azevedo, que vive o Caprichoso há 22 anos

  • Piçanã é discípulo do artista Jair Mendes, que hoje está no Caprichoso, com quem aprendeu a arte de confeccionar o boi
    FOTO: Antônio Lima
  • Marcos Azevedo é o tripa com mais tempo no cargo: são mais de 20 anos dedicados a confeccionar e dar vida ao boi Caprichoso
    FOTO: Antônio Lima

Aparentemente seres inanimados, Caprichoso e Garantido são bois de pano, confeccionados a partir de elementos como fibra, esponja, juta, lycra, emborrachado e ferro, entre outros. Donos da festa, eles reinam no Festival de Parintins e ganham vida própria através da dedicação de seus “tripas”, como são chamados os responsáveis tanto pela fabricação, quanto por dançar debaixo do boi, dando vida aos bumbás e emocionando torcedores azuis e vermelhos.

Nascido e criado na Baixa do São José, Denildo José Matos Ribeiro, o Piçanã, 43, defende o item número 10, Boi Bumbá – Evolução, há 19 anos pelo Garantido. Sobrinho de um tripa do boi, ainda da época de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, Piçanã aprendeu o ofício com o mestre Jair Mendes, hoje artista do Caprichoso, por quem ele nutre eternos respeito e gratidão. “Não é à toa que minha sala no galpão se chama ‘Discípulo Jair Mendes’. Foi por meio dele que despertei para a inigualável arte de fazer o boi”, contou ele, que utiliza três bois a cada noite de apresentação.

Piçanã acredita que o dom de dar vida ao boi esteja no sangue, para ser passado de geração a geração. “Não só pelo fato do meu tio ter sido tripa, mas também por eu acreditar que terei a oportunidade de passar tudo o que aprendi adiante, para meu neto, Ícaro Mateus, de dois anos. Meus filhos não demonstraram interesse em dar segmento ao meu trabalho, mas a herança ficou para os netos, em especial o Ícaro, que já brinca de ser tripa do boi e não larga o boizinho dele”, contou, orgulhoso.

SUPERAÇÃO

Em 2005, Piçanã viveu aquele que ele considera o momento mais marcante de toda a trajetória como tripa do boi. “Ainda na primeira noite, caí de uma alegoria de 15 metros de altura, tive fraturas no joelho e tornozelo, além de problemas na coluna. Fiquei sem sentir a perna direita, mas mesmo assim fui para a arena na segunda noite e foi a partir daí que comecei a me apresentar pessoalmente para os jurados, saindo debaixo do boi e mostrando o criador e a criatura. Quero muito que meu neto sinta a emoção e o prazer que eu sinto, ao dançar com o Garantido”.

Piçanã conta que o peso que um tripa tinha que suportar era muito maior. “Eu fazia exercício atravessando o rio para ganhar massa muscular. O boi pesava 40 kg. Hoje, depois de aprimorar a técnicas e substituir materiais, 15 kg é o máximo que pesa”, disse.

Sobre a rivalidade com o Caprichoso, Piçanã revela que ele e Marquinho Azevedo, tripa do boi azul e branco há 22 anos, são amigos e deixam para competir apenas nas três noites de festival. “Nos damos muito bem, sempre conversamos em viagens para representar o boi, brincamos bastante um com o outro. Eu falo que o Garantido é melhor e mais bonito, ele rebate a provocação, tudo de maneira saudável. Assim como eu rezo para que nada de mal me aconteça, também torço por ele, para que sai bem de cada noite. Somos crias do mesmo mestre (Jair Mendes) e respeito muito a história dele”, disse.

Azul e branco desde o berço, Marquinho Azevedo dedicou quase metade dos seus 50 anos de vida à missão de dar vida ao item que é o grande protagonista do Festival Folclórico de Parintins: o boi-bumbá. Formado na escola do mestre Jair Mendes, de quem tornou-se amigo e ajudante de confiança, o tripa costuma dizer que fez o coração do Garantido pulsar e a estrela do Caprichoso brilhar. Isso porque, após oito anos de serviços prestados ao boi da Francesa, Azevedo acabou tornando-se a alma do boi vermelho nos festivais de 1994 e 1995.

“Minha ida para o Garantido foi fruto de uma desavença com a presidência do Caprichoso na época. Mas, como artista de Parintins, eu não podia ficar de fora do festival. Como o contrário tem a mesma potência, eu aceitei o convite do presidente do Garantido, que era meu amigo e mestre Jair Mendes, a quem devo minha trajetória como tripa e artesão”, conta. “Eu estava no ápice da minha carreira e, nos dois anos que passei no contrário, o Caprichoso pegou peia no item boi-bumbá evolução. Se arrependeram da graça”, relembra.

Enquanto foi do lado vermelho, Marquinho não deixou de imprimir a sua marca como tripa e artesão que confecciona o boi. Além de acrescentar uma manta rubra ao Garantido, ele acrescentou um sistema de iluminação ao coração que o bumbá traz na testa, que se acendia ao longo da sua evolução. Com a chegada de Joilto Azevedo à presidência do Caprichoso (cargo para o qual ele foi novamente eleito no ano passado), o tripa foi convidado a retornar ao boi que é a sua paixão de infância.

“Eu sentia a falta de um símbolo, então nesse meu retorno foi quando coloquei a estrela na testa do Caprichoso porque sempre achei que ele é a grande estrela do festival”, acrescenta o artista. Hoje, Azevedo confecciona a marca registrada do bumbá azul a partir de 20 recortes de espelho, o que ajuda no jogo de luz ao mesmo tempo em que serve de amuleto para rebater “tudo que vier de ruim”.

Marquinho Azevedo se tornou o tripa do Caprichoso em 1990, quando Jair Mendes voltou para o Garantido, mas trabalha no boi azul desde 1986, quando entrou como ajudante de galpão na equipe de Mendes. “Moro numa rua tradicional de Parintins, que é a Cordovil, e o curral do Caprichoso era do lado da minha casa. Já nasci azul, minhas raízes são no Caprichoso”, revela.

SUCESSOR

Para o artista, ser tripa exige dedicação e preparo, mas também envolve muitas privações. A capoeira é uma das grandes aliadas de Marquinho, que precisa estar sempre em forma e exercitando a sua flexibilidade. E se engana quem pensa que o tripa já pensa em aposentadoria. “Ainda tenho vigor para mais alguns anos, mas sei que ser item é um processo de idade e que futuramente alguém vai continuar nosso trabalho. Ser tripa é doído, e já estou numa idade em que correr na areia ou me exercitar na academia me leva ao limite”, pondera.

Ciente disso, ele já tem um pupilo preparado fisicamente e mentalmente para substituí-lo: é o filho de Azevedo, Alexandre, de 29 anos, que tem recebido os ensinamentos de quem tem mais de 20 anos de experiência na arena. “Sou o tripa mais antigo do festival e me considero o mais audacioso, porque subo no telhado, vou com os jurados, subo em guindaste... Antigamente, o Caprichoso me dominava, mas hoje sou eu que o domino. Espero ser lembrado no próximo centenário”, finaliza.