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Velha guarda do boi Garantido celebra rito católico da ‘Ladainha’ e torcedores brincam nas ruas

Tradicional rito de orações dedicadas a São João é parte da promessa de Lindolfo Monteverde ao santo. A pouca adesão de pessoas na “Ladainha” contrastou com a multidão vermelha e branca que brincou nas ruas de Parintins horas depois

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O rito foi realizado no Curralzinho, mesmo local onde era o sítio onde morou e viveu Lindolfo Monteverde (Euzivaldo Queiroz)

A tradicional celebração de fé da “Ladainha” do boi-bumbá Garantido de Parintins foi realizada mais uma vez na noite de São João, esta terça-feira (24), no Curralzinho da Baixa do São José, no município localizado a 369 quilômetros de Manau - mesmo local onde há 101 anos Lindolfo Monteverde criou o “Boi do Povão”, e local onde ele viveu: um terreiro numa antiga vila de pescadores. A velha guarda do Garantido e membros da família Monteverde estiveram presentes.

Seguindo o roteiro de uma missa católica, mas sem liderança de um padre, antigos torcedores e amigos de Lindolfo realizaram as rezas e orações da “Ladainha”, manifestação que representa o nascedouro do Garantido. “Só existe aquilo lá no Bumbódromo (Festival de Parintins) por causa disso aqui. Isso é o boi Garantido”, ressaltou o torcedor “encarnado” Mencius Melo, que também atuava na organização da “Ladainha”.

“Quero pedir aos meninos que se comportem bem. Não corram na hora da ‘Ladainha’”, impôs Maria do Carmo Monteverde, 76, terceira filha de Lindolfo, através do microfone e no palco do Curralzinho, onde foi montado um pequeno altar com velas e imagens de São João. Ao redor, casais de idosos, senhoras e netos e filhos se aproximavam. Entretanto, o pedido de Maria do Carmo não foi atendido: os “pimpolhos” corriam por todo o chão pintado de vermelho.

“Lindolfo sofreu de uma doença quando jovem e, para alcançar a cura, prometeu a São João colocar o Garantido, todos os anos, para brincar pelas ruas da cidade até a Catedral no dia do santo”, explicou Mencius sobre a criação do “Brinquedo de São João”. Segundo ele, o rito da “Ladainha” é a manifestação mais forte da cultura popular na Baixa do São José, junto com a saída às ruas do boi, que aconteceu horas depois dali.

“Desde que eu tinha dez anos de idade eu participo daqui. Mesmo durante os dez anos que morei em Manaus, nunca deixei de vir aqui. Graças à São João. Meus filhos dizem que eu só venho gastar dinheiro em Parintins, mas eu faço isso desde criança”, contou Rosinha da Silva Soares, 67, que estava acompanhada do esposo, Francisco dos Santos Soares, 72, sentado em uma cadeira ao lado. “Ele veio pagar uma promessa também, por causa da recuperação de um princípio de derrame que ele teve”.

A principiante Erika Yoanná Santos dos Santos, 16, estava com a tia, e conta que desde os seis anos de idade foi levada pela mãe para acompanhar a “Ladainha”. “Sinto-me privilegiada por estar aqui. Tem gente que não acompanha, mas eu acho importante”. O número de jovens no rito católico da “Ladainha” era reduzido, o que contrastava com a quantidade deles na saída às ruas, ocorrido logo depois.

Fogueira de São João

“Meu pai tinha tanta fé que construiu esse boi. E peço que todos não percam a fé e continuem colocando o boi para brincar nas ruas”, pediu Maria do Carmo Monteverde, ao final da "Ladainha", e antes do início da tradicional saída às ruas do Garantido, cumprimento da promessa de Monteverde a São João de levar o bumbá para brincar nas ruas até a Catedral N. S. do Carmo, área central.

Aos poucos uma multidão de pessoas chegava a pé e em motocicletas no até então esvaziado Curralzinho para acompanhar o desfile do boi. Um toador sobre um trio elétrico já anunciava a saída e, minutos depois, o boi-bumbá partiu pela avenida Lindolfo Monteverde, via que leva o nome do fundador do boi e que concentra a raiz do “Boi do Povão”. O boi era levado por uma massa que gritava e festejava o “Brinquedo de São João”, enquanto o bumbá rodopiava.


Pela avenida Monteverde, dezenas de moradores acenderam fogueiras em frente às casas, a maioria de origem humilde - tradição que sinaliza para os pontos de parada do Garantido no trajeto. Nessas residências, o bumbá interage e ainda chega a adentrar nos pátios decorados com bandeiras, balões, confetes e cartazes de homenagem ao “boi de pano”. Velha guarda e novos torcedores vibravam com a passagem do boi, que era bombardeado com flashes de celulares.

“É o meu boizinho”, disse, sorrindo, em poucas palavras Cacilda Tavares Rocha, 80, uma das mais antigas vizinhas do Curralzinho e uma das primeiras casas a ser ponto de parada pela fogueira acesa em frente à calçada. Cacilda estava sentada ao lado do esposo, Renato da Silva Ribeiro, 79. Ela levantou do assento ao perceber a chegada do boi, que de forma mansa, e sem ordem, se aproximou e deixou ser acariciado na testa por Cacilda, local onde carrega um coração vermelho.


Durante o percurso, emoção e choro eram vistos nos rostos dos torcedores, que tentavam registrar o momento com fotos selfies. Embaixo do boi, carcaça feita de pano, três “tripas do boi” revezavam e trocavam de lugares sob o objeto pesado, onde têm que fazer movimentos de rotação com mecanismos únicos. “A gente é tripa e tem que revezar aqui embaixo, já que o trajeto é longo e cansativo para quem está aqui embaixo”, disse o “tripa” Enderson Golçalves.

Após percorrer as ruas Armando Prado, Senador Álvaro Maia e, por fim, chegando na avenida Amazonas, endereço da Catedral N. S. do Carmo, o bumbá Garantido foi recebido por mais torcedores que chegavam de todos os cantos da cidade. Uma grande festa foi realizada na praça da igreja e, logo depois, todos se dirigiram para dentro Bumbódromo, arena de disputa dos bois e onde aconteceu o segundo ensaio técnico liberado ao público. O festival inicia a partir desta sexta (27).

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