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Toada com pegada de rock’n’roll é sucesso em Parintins

Jovens compositores levam para os Bumbás elementos musicais diferenciados. Galeras do Garantido e do Caprichoso aprovam o ritmo e aplica em toadas

Adriano Aguiar compôs para o Caprichoso a toada “Sensibilidade”. “Fera de Fogo”, deste ano do Garantido, é uma das que trazem guitarra

Adriano Aguiar compôs para o Caprichoso a toada “Sensibilidade”. “Fera de Fogo”, deste ano do Garantido, é uma das que trazem guitarra (Evandro Seixas)

A toada “O Vaqueiro” foi sucesso entre os torcedores encarnados desde o início dos ensaios do Garantido e traz a assinatura marcante de um dos seus compositores, Ronaldo Barbosa Júnior, 26. Feita em parceria com Rafael Marupiara, a música tem um solo de guitarra como introdução, o que pode ser considerado por muitos defensores da tradição musical de Parintins como uma ousadia quando o assunto é o ritmo que embala os brincantes do boi-bumbá.

“Fera de Fogo” e “O Couro dos Espíritos”, também de autoria da dupla, é outra toada deste ano que se arrisca em solos do instrumento que é a cara do rock’n’roll. Sobre esta última, Ronaldo Júnior comenta: “As pessoas esperam o momento em que a guitarra vai entrar, é como se fosse um refrão”. Segundo o compositor, o instrumento já era usado no boi,mas de uma forma mais dedilhada, próxima à sonoridade do violão.

A ideia de experimentar novos sons veio em 2010, quando Marupiara e Ronaldo compuseram a ritualística “Matawi Kukenan”, que entrou no festival do ano seguinte e ficou conhecida como “Bruxuleia”. “Nessa toada, em especial, a gente usa a guitarra de um modo diferente, já com um solo, algo até então inédito dentro de uma música de boi”, afirma Barbosa, justificando: “Nesse tipo de música, com estilo mais pesado, quase metal mesmo, deu para usar tranquilamente”.

No ano seguinte, a dupla repetiu o feito com o ritual “Apocalypse Yanomami”, e em 2013 eles misturaram guitarra e violino na toada “Juma”. Para o festival de 2014, Barbosa e Marupiara apostaram em um ambiente sonoro com guitarras, violinos e metais – o resultado foi “Fera de Fogo”, para o item Lenda Amazônica. “Para nós é a mais inovadora, com um conceito melódico diferente de tudo”, opina Barbosa. Uma curiosidade sobre essa toada é que ela ficou engavetada durante dois anos.

“Até que em 2012 apareceu uma música de um amigo nosso, Enéas Dias, que assinalou um caminho novo no Garantido”, disse ele, lembrando da toada “Ameríndia”. “Quando ela foi aprovada, senti que eu já podia fazer o que eu quisesse porque o boi olharia com mais atenção. Antes disso, tudo era um tiro no escuro”, destaca Barbosa.

Já “Couro dos Espíritos” é um ritual que era para ter entrado no boi de arena do Garantido no ano passado,mas daquela vez Ronaldo havia exagerado nos riffs. “Foi uma infelicidade minha, fiz um solo inteiro na abertura e a Comissão de Artes achou que aquele não era o momento. Em 2014 ela acabou passando, mas tive que alterara introdução e ela acabou ficando orquestrada, parecida com uma trilha de James Bond”, revela.

RESISTÊNCIA

Segundo ele, que estreou no Garantido em 2010, ainda há resistência interna quanto a certas experimentações. “Nesse ponto ainda somos um pouco tolhidos, porque tem coisas que precisamos alterar para não fugir à tradicionalidade do boi, enquanto no Caprichoso a vertente é outra”, afirma o músico, que não se vê criando para o contrário, que está “bem servido de compositores”.

Sobre o uso mais marcante da guitarra, ele diz: “Nossa proposta é introduzir elementos diferentes como objetivo de agradar um público maior, na linha de uma toada mais universal. A intenção é reavivar a chama da torcida através da música”.

Filho do também compositor Ronaldo Barbosa (que torce para o boi azul), Ronaldinho diz não ser um ouvinte assíduo de toadas desde meados de 2005, apesar de ainda acompanhar a cena musical. “Até pelo menos 2007 o boi estava numa repetição de fórmulas que não acabava mais. Tanto é que quando me propus a compor, coloquei na cabeça que não ia fazer música para jurado, e sim para a galera que vai para os currais e compra os CDs”. Hoje, o que toca no som dele é, basicamente, rock e pop.

 

Ritual com ukulele

No Caprichoso, o compositor Gerlean Brasil incluiu um instrumento pouco convencional na hora de gravar a toada ritualística “Urotopiãg Maraguá”, parceria sua com Ozias Yaguarê Yamã, apresentada na primeira noite do festival. Ele usou um ukulele, instrumento de cordas bastante familiar no Havaí.

“Não toco,mas quando vou para o estúdio já tenho uma ideia pronta na cabeça. Nesse caso, quando fui gravar a demo do ritual, vi um ukelele no canto do estúdio e fiquei curioso porque era algo com que não tinha contato até então. Então criei um solo inspirado em uma música do Celdo Braga. Minha proposta era colocar uma sonoridade diferente, mas com um toque de regionalidade”. Segundo Brasil, no entanto, para a gravação do DVD do Caprichoso o instrumento acabou sendo substituído pelo charango, com o qual tem certa proximidade.

Azul desde a infância, Gerlean compõe para o Caprichoso desde 2008 e tem diversas participações no Festival de Toadas de Parintins.Apesar disso, sua estreia no Festival Folclórico se deu apenas em 2013, mas no Garantido. “Sempre vencedor” foi a primeira toada que ele emplacou.

O OUTRO LADO

Na opinião do compositor azulado Adriano Aguiar, autor do sucesso “Sensibilidade”, a guitarra é um elemento interessante na toada,mas com ressalvas. “Não pode abusar muito, para não ficar muito agressivo”, comenta. Ele próprio usou o instrumento como base da sua toada “Profética”, escalada pelo Caprichoso para o festival de 2013.

“Um rock é sempre rock, assim como o reggae ou o axé. Mas a toada por si só tem várias facetas, até porque ela não fala só de boi, mas também de pajé, monstros, dentre outros elementos. Então ela pode seguir uma linha mais tribal, amazônica, nordestina, comercial ou de canção. No caso da guitarra, acho que ela cai bem mais nas músicas tribais”, opina Aguiar.