A história de um grande amor de visitante por uma indígena não é somente roteiro de cinema, mas acontece na vida real, no interior do Amazonas, como conta o museólogo Cláuber Vieira Quadras, 51, que se apaixonou por uma índia da etnia tikuna, Deonora Alfredo, 34, ao fazer uma visita de trabalho à comunidade indígena Filadélfia, em Benjamin Constant (a 1.118 quilômetros).
No último fim de semana, ela foi uma das 204 indígenas que se formaram em Letras - Língua Portuguesa, Tikuna e Espanhol - pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), e cantou o Hino Nacional para mais de mil convidados.
Cláuber, natural de Manaus e filho de nordestinos, veio ao município em novembro de 2000, contratado por uma empresa para revitalizar o museu tikuna Magutá. Após chegar a Benjamin Constant, foi à comunidade Filadélfia (a 3 quilômetros do Centro do município) para fazer uma pesquisa de campo.
“Quando vi a Deonora, foi uma flechada de amor certeira, à primeira vista, que não pude resistir”, disse.
O pesquisador voltou ao hotel, segundo ele, confuso e impressionado com a comunidade tikuna e tomou uma decisão.
“Depois de três semanas liguei para as pessoas que haviam me contratado para dizer que eu não voltaria a Manaus e estava me desvinculando da empresa”, lembra ele, que, desde então, passou a frequentar a comunidade indígena, não como um pesquisador, mas para conhecer de forma profunda a vida, os costumes e as tradições daquele povo ao qual pertencia sua amada, Deonora.
Com a relação ficando séria, os tikunas conseguiram uma casa para ele em Benjamin Constant. “Eu abandonei os trabalhos de museólogo e passei a me dedicar aos trabalhos da Organização da Missão Indígena da Tribo Tikuna do Alto Solimões (Omittas)”.
Conforme o ex-museólogo, a organização, que está dentro da comunidade, é a primeira igreja indígena evangélica do Amazonas. “Eu costumo dizer que primeiro eu amei o povo tikuna e, depois, amei uma tikuna”.
Na época em que Clauber visitou a comunidade Filadélfia, Deonora trabalhava como agente de saúde e dava aulas para as crianças.
“Minha família é de gente esforçada, que ama os ensinamentos deixados pelos mais antigos, especialmente na área de educação. Por isso, hoje estou muito feliz de receber esse título de graduação em Letras”, destacou a formanda.
Ela acrescentou também, que seus avós foram fundadores da comunidade Filadélfia e por isso, sente que tem uma responsabilidade enorme na educação de seu povo.
Cláuber e Deonora tiveram três filhos, um menino e duas meninas, e no último 18 de agosto completaram dez anos de casados. Eles são também, os fundadores e diretores da Escola de Educação Cuagu Patau, que significa Casa do Saber.
“A escola veio suprir a carência de uma educação do povo tikuna. Ensinamos não só a educação acadêmica, mas toda a cultura de povo lutador e vencedor que é o povo tikuna. Conservamos e transmitimos nossa cultura a cada nova geração”, afirmam os dois. A escola conta com o apoio de instituições de outros estados brasileiros e do exterior.
Enfrentando o preconceito para estudar
Quando criança, Deonora conta que foi muito discriminada pela sociedade “branca” por ser indígena.
“Eu estudei até o segundo ano primário na comunidade Filadélfia. Um dia, chegaram uns missionários da Suécia, querendo implantar uma escola para os tikuna dentro da comunidade, mas como não tinha energia elétrica no local, a escola foi construída na cidade”, relata.
Segundo ela, a instituição, que hoje pertence ao município, foi construída a quilômetros da comunidade, mas para que não dissessem que o povo tikuna estava rejeitando a iniciativa, as lideranças indígenas decidiram mandar algumas crianças para lá, entre elas, Deonora.
A recém-formada da UEA lembra o sacrifício de caminhar quase quatro quilômetros diários para estudar, junto com outras cinco crianças.
“Além da dificuldade geográfica, tínhamos que aguentar a discriminação dos estudantes da cidade, que diziam que éramos ignorantes e não sabíamos falar corretamente a Língua Portuguesa”.
Deonora disse que, devido à discriminação, algumas crianças tikuna abandonaram os estudos, mas ela seguiu adiante e o saber adquirido é repassado a outras crianças, na tentativa de vencer a cada dia o preconceito.
Formatura
No seu discurso aos 204 indígenas formandos da UEA, o reitor, José Aldemir de Oliveira, disse que o curso uniu dois conhecimentos.
“O que nós fizemos aqui, ao longo de cinco anos, foi propiciar as condições para o encontro do conhecimento milenar indígena e o conhecimento científico da universidade. Não os tratamos de forma diferenciada, mas sim, um completa o outro, ressaltou. O reitor lembrou também que o curso é reconhecido nacionalmente.