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Comportamento dos torcedores brasileiros na Copa do Mundo é estudado por acadêmicos

Nas universidades brasileiras, os núcleos de estudos nessa área se multiplicam e a rede temática está cada vez mais diversificada, complexa e apaixonante


Os antropólogos Sérgio Ivan Gil Braga e Rodrigo Fadul, responsáveis pela pesquisa no Amazonas, levaram o futebol para o campo dos estudos acadêmicos

Os antropólogos Sérgio Ivan Gil Braga e Rodrigo Fadul, responsáveis pela pesquisa no Amazonas, levaram o futebol para o campo dos estudos acadêmicos (Luiz Vasconcelos)

Independente de o Brasil ganhar a Copa, outro campo acumula vitórias, o da pesquisa acadêmica sobre o futebol. Ou os mundos envolvidos pelo futebol. Nas universidades brasileiras, os núcleos de estudos nessa área se multiplicam e a rede temática está cada vez mais diversificada, complexa e apaixonante.

É nessa trilha que Manaus entra como parte do projeto “Torcedores: vida, paixão e morte no país do futebol”. Aprovado recentemente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com apoio financeiro do Ministério do Esporte, o estudo envolverá as 12 cidades-sede da Copa do Mundo deste ano e outras como Pelotas e São Leopoldo (RS), Bauru e Campinas (SP), 11 Estados e o Distrito Federal, 20 universidades e o Museu do Futebol, que tem sede em São Paulo.

“É um tema instigante”, resume o antropólogo Sérgio Ivan Gil Braga, professor-doutor do curso de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSC) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e coordenador da pesquisa no âmbito estadual. A coordenação-geral das atividades é do professor Édison Luis Gastaldo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicitário, mestre em Antropologia Social, doutor em Multimeios. Um pesquisador que há muito olha com atenção o rumo da bola no campo, das torcidas, dos torcedores, dos clubes, dos cartolas. O time de pesquisadores está em fase de escalação e terminando a Copa será reunido no Rio de Janeiro para apresentação das propostas a partir das cidades a serem estudadas.

Retratos

Traçar um retrato da paixão futebolística no Brasil contemporâneo é o objetivo do “Projeto Torcedores” privilegiando o ponto de vista de quem que vive o cotidiano da bola. Um aspecto que na opinião de Gastaldo “normalmente é deixado de fora das grandes narrativas sobre o futebol ou tratado como um coletivo, massa, multidão”.

Durante um ano, o grupo de pesquisadores e suas equipes (estudantes bolsistas e voluntários) reunirão subsídios para no final de 2015 apresentarem os produtos desse estudo. A lista inclui página eletrônica, facebook, vídeo-documentário, exposições e a edição de um livro. O recurso para custear toda a pesquisa incluindo a produção do material é de R$ 300 mil. Para Sérgio Ivan, considerando o número de cidades envolvidas e o tamanho das tarefas a serem realizadas trata-se de um valor simbólico para incentivar as pesquisas nessa área.

Falta verba, sobra animação

Se a verba é curta, sobra animação dos pesquisadores em torno do trabalho. O antropólogo Rodrigo Fadul, que no final do ano passado apresentou o estudo “Preparativos de Manaus para a Copa do Mundo – uma abordagem antropológica”, para obtenção do título de mestre, é um dos bolsistas no “Projeto Torcedores” no braço Amazonas. Para Fadul, essa é uma discussão que está ganhando espaço nas ciências humanas, principalmente na Antropologia. A pesquisa de Rodrigo, hoje professor-substituto na Ufam, fez com que Gastaldo viesse a Manaus para compor a banca de avaliação e a partir daí discutir a realização e a inclusão da cidade no “Projeto Torcedores”.

“A Ufam já começa a ver com maior interesse cientifico essa dimensão. Você pode estudar o futebol a partir de diversas temáticas (econômico, político, da participação da torcida)”, indica Rodrigo Fadul. Ele cita que na Associação Brasileira de Antropologia (ABA) o interesse por futebol cresceu tanto que no encontro deste ano serão dois grupos voltados para a questão do esporte, um para o campo da disciplina e outro do corpo enquanto prática esportiva.

Muita paixão, pouco estudo

No Amazonas, na avaliação de Rodrigo Fadul, não se tem um bom acervo literário sobre futebol, embora o amazonense viva intensamente o esporte. “Se você prestar atenção, o amazonense tem essa característica de torcer pelo time de fora, mas a cidade tem futebol profissional e essas histórias, essas vidas rendem muito material de pesquisa. No meu estudo tive dificuldades de reunir os dados e o que me ajudou muito foi o material organizado pelo jornalista Carlos Zamith (uma das principais referências da memória do futebol local por meio da coluna “Baú Velho” transformada em livro. Zamith faleceu em julho do ano passado, aos 87 anos).

“Ainda ouço, diz Rodrigo Fadul, as pessoas questionam ‘como é que tanta gente perde tempo reunindo pessoas em casa, viajando, para assistir futebol’. Ora, futebol mobiliza, faz nascer a torcida. Por que as pessoas vão à rua do bairro Alvorada e gastam R$ 60 mil para enfeitá-la? Por que colocar um telão e chamar as outras pessoas para assistirem juntas a um jogo? Quando é o time, essa relação é muito mais próxima, afinal, o time joga o ano todo, e existem pessoas que acompanham de perto o treinamento. No bairro São Raimundo é assim. Precisamos estudar e compreender esses espaços”.

Muito além da arquibancada

Para antropólogo, o comportamento do brasileiro na Copa do Mundo revela um patriotismo ‘oculto’

O antropólogo Sérgio Ivan Gil Braga é um dos “fisgados” pela instigação que o futebol produz. Pesquisador dos estudos urbanos, membro da Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos, autor de livros e inúmeros artigos nesse campo (é um dos autores do livro “Plural de cidades”, editora Almedina, Coimbra, 2009; e do “Diálogos Urbanos”, da mesma editora, 2013) onde aborda o Santo Antonio, de Lisboa, e o Santo Antonio, de Borba (AM), admite que passou a olhar com maior curiosidade o futebol a partir do momento em que se tornou orientador de Rodrigo Fadul.

“A partir da reflexão que se começou há dois anos, se viu que torcida é coisa séria”, afirma Sérgio Ivan. “Se você perceber dentro dos jogos da Copa, independente das questões políticas, vai ver que é algo além da atual conjuntura; está muito associado à própria identidade nacional. As pessoas que torcem vivem um sentimento de ser brasileiro, de pertencimento, de fruição, de sentir prazer. Não é só o espetáculo pelo espetáculo.”

Para Sérgio Ivan, futebol é um espaço excelente para você pensar as coisas e olhar muito a dimensão cultural. “É incrível como a cultura se inscreve no corpo, como é corporeidade. Isso tudo é muito rico. Sempre me debato com essas questões populares no sentido das críticas de que elas são populares, mas se você consegue entrar mais nessa coisa encarnada vai perceber que as pessoas assumem corporalmente. É muito interessante você pensar a respeito”.

À pergunta quem é esse ser torcedor? O gaúcho de Porto Alegre e torcedor do Internacional Sérgio Ivan responde: “eu não sei. Primeiro tem que gostar de futebol. Vivi isso quando era criança, adolescente, tanto que reprovei um ano por causa do futebol (das peladas). Era outro contexto, garoto de bairro, aquilo era espaço de sociabilidade. Hoje esses espaços urbanos cada vez mais são suprimidos. Os espaços são exíguos ou não existem mais. Em Manaus, nos bairros, a garotada joga na rua, os terrenos estão sendo apropriados, reduzidos ou privatizados. O que fica muito é a coisa da simpatia.”