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População vai às ruas, por água, luz, saúde e ônibus

Manifestações populares em diferentes bairros de Manaus expõem as insatisfações com precariedade dos serviços

Por causa da falta de energia, moradores da Rua União, no bairro Japiim 1, Zona Sul, já fecharam por três vezes a avenida Tefé

Por causa da falta de energia, moradores da Rua União, no bairro Japiim 1, Zona Sul, já fecharam por três vezes a avenida Tefé (Clóvis Miranda)

A falta de serviços e direitos básicos, como o acesso à energia, saúde, moradia e educação gerou nas duas últimas semanas uma onda de protestos em Manaus e em cidades do interior do Amazonas. As pessoas, em grupo ou sozinhas, voltaram às ruas para externar insatisfações com a inércia do poder público em dar respostas para problemas que ano após ano se repetem.

No dia 15, moradores do bairro Monte das Oliveiras, Zona Norte, fecharam dois trechos da avenida Samaúma. Revoltados com o que chamam de descaso da Eletrobras Amazonas Energia, eles atearam fogo em pneus e em pedaços de madeira.

Responsável pelo fornecimento de energia elétrica na cidade, a Eletrobras Amazonas Energia usou o aumento do consumo de energia, causado pelo verão, como justificativa para a má qualidade no serviço. E que furtos, roubos e desvios de energia sobrecarregam transformadores e fiações elétricas das redes de distribuição.

No dia 14, em Rio Preto da Eva (a 80 quilômetros de Manaus), populares foram para a rua mostrar o quanto estão insatisfeitos com a administração do atual prefeito, Dr. Ricardo (PRP). Entre as reclamações, está a falta de aulas em comunidades rurais do município. Em meio a barricadas e ônibus escolares incendiados, manifestantes e policiais entraram em confronto.

Mesmo quem não pode ir para rua, não deixou de cobrar o poder público esta semana. No dia 16, Rosival Dias, 46, conhecido como palhaço Curumin, chamou a atenção da imprensa a partir do leito do Pronto Socorro Platão Araújo, em Manaus, onde, há um ano tenta sem progresso tratar uma fratura na perna esquerda. “Sou palhaço de profissão e como cidadão exijo respeito. Quando será minha cirurgia?”, cobrou Rosival, em um cartaz, em que ele aparece em foto no hospital, mostrando sua indignação com a forma de adminstração do Sistema Único de Saúde (SUS).

Também no dia 14, servidores de uma empresa que presta serviço à Universidade Federal do Amazonas (Ufam) não pensaram duas vezes em tomar a rua principal de acesso ao campus. Eles reclamavam da falta de pagamentos. Aproximadamente 100 funcionários se reuniram com cartazes e pedaços de madeira e interditaram a entrada da rotatória da Ufam, que dá acesso ao Mini-Campus e ao Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL).

Para o sociólogo Renan Freitas Pinto, a pré-disposição das pessoas de levarem às ruas suas insatisfações pode ser interpretada como um exemplo de amadurecimento da democracia. “É extremamente saudável. É um sinal ótimo para o Brasil essa possibilidade de, democraticamente, a sociedade expor suas insatisfações”, afirma Renan.

O sociólogo Luiz Antônio Nascimento afirma que o povo sempre esteve nas ruas. E que o poder público é que pouco tem dado atenção aos gritos dos manifestantes. “O que se depura é que há recorrente falta de atenção do poder público para essas demandas”, disse Luiz Antônio.

Motivação

Cansados de pedir providências da Eletrobras Amazonas Energia, responsável pelo fornecimento de energia elétrica na cidade, moradores do bairro Monte das Oliveiras fecharam dois trechos da avenida Samaúma.

Estudantes

Estudantes lotaram a galeria da Câmara Municipal de Manaus (CMM) para pedir que tramite na Casa o pedido de criação de uma CPI que investigue os aluguéis de prédios que funcionam como escolas municipais.

Índios

Na segunda-feira, índios pararam as máquinas de construtora responsável por obras da Avenida das Torres. O projeto passa por terreno onde eles estão instalados, no Conjunto Cidadão 12, no bairro Nova Cidade, na Zona Norte.

Salário

Funcionários da empresa terceirizada Rudary, paralisaram as atividades e bloquearam a entrada da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Eles reclamavam de atraso nos salários, que chegava há dois meses.

Barricadas

No bairro Japiim e em outras áreas da cidade, moradores recorrem a protestos com barricadas nas ruas para reclamar das seguidas interrupções no fornecimento de energia. De acordo com eles, o bairro já ficou mais de 22 horas sem energia elétrica.

Em números

120,8 Mil famílias em Manaus moram em casas alugadas ou cedidas por familiares e conhecidos. Os dados são do Censo 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

1.215 - É o número de denúncias contra a Manaus Ambiental entre janeiro a agosto desse ano. A concessionária é a campeã de reclamações, segundo informações do Procon-AM.

55 -Mil domicílios, no Amazonas, não têm energia elétrica em casa. O dado é da Eletrobras Amazonas Energia. O programa Luz Para Todos atendeu 90 mil casas desde 2004.

33 - Municípios dos 61 do Amazonas não têm estabelecimentos de saúde com atendimento de emergência em traumatologia e ortopedia, segundo o IBGE. Em Manaus são 19.

1.104 - E o número de reclamações contra a Telemar no Procon-AM, de janeiro a agosto deste ano. A empresa só perde para a Manaus Ambiental em número de denúncias no período.

180 Mil pessoas em Manaus , segundo a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Amazonas (Arsam), não têm água encanada em casa. Equivale a 10% da população da cidade.

Comentário - Luiz Antônio Nascimento – Sociólogo

“O padrão é que temos protestos semanalmente em defesa de direitos e demandas efetivas. É água no Manoa, transporte no São José, e por aí vai. E é uma prática consolidadíssima de toda sociedade mais ou menos organizada. Esses protestos só ocorrem porque não há respostas. Você não ver protestos por falta de sala de aula. Porque de certa forma, há sala de aulas. Nem há protestos por vacina. Agora o povo protesta por transporte público, porque isso não tem. Me parece que esse é o sentido desses movimentos. Moro há 21 anos em Manaus, e há 21 anos a população do São José reclama por falta d’água e de energia elétrica. O problema não está num suposto modismo. Na verdade tem um espetacularização dos protestos. Outro dia um jornal publicou uma matéria que dizia: “Manifestantes queimam 500 carros na França”. E na página local, a matéria era “Baderneiros queimam dois carros”. Ou seja, o protesto dos outros é protesto. O daqui é baderna”.

Análise – Renan Freitas - Sociólogo

“Combinação de fatores”

“É extremamente saudável (os protestos). Temos que atribuir parte desse fenômeno ao peso da Internet. Isso está mudando o sistema de concentração política. E o Brasil entrou até atrasado nisso, porque já acontece há muito tempo em outras partes do mundo. Esses atos representam especialmente um amadurecimento entre os jovens. Eles que estão descobrindo essa forma de forma de manifestar suas insatisfações nas ruas. É um fenômeno ligado a essa geração. Não se pode definir claramente em que momento começou. Mas as condições para isso acontecer estavam dadas. Foi uma combinação de fatores. Sobretudo do sistema de comunicação via Internet, que permite mobilizar e organizar movimentos fora dos partidos políticos e dos sindicatos. Esse movimento tem muito a ver com isso”.