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Tradição de roubar galinha deixa criadores do animal em alerta

Houve um tempo em Manaus no qual a tradição de roubar o frango na casa do vizinho era brincadeira que dava cana dura


Criadores de galinhas em Manaus redobraram os cuidados com as aves na noite de sexta-feira santa. Tudo para não ter nenhum animal roubado do quintal

Criadores de galinhas em Manaus redobraram os cuidados com as aves na noite de sexta-feira santa. Tudo para não ter nenhum animal roubado do quintal (Lucas Silva)

Furto de galinha na noite de Sexta-Feira Santa é uma tradição curiosa que aos poucos está desaparecendo, porém, ainda tira o sono de muita gente que para proteger a sua criação prefere ficar acordada nessa noite. O pior é que sempre aparece alguém mais esperto que consegue pegar a ave, fazer um bom guisado e, no dia seguinte, ainda vai tirar graça com o dono do animal. Este, ao invés de denunciar o ladrão à polícia, acaba levando na brincadeira.

A noite de Sexta-Feira Santa para o publicitário Raimundo Damasceno, 63, que há mais de 20 anos cria galinhas no quintal de sua casa no bairro Redenção, é de vigília total. A sua criação conta com mais de 30 aves e o local não é sem cercado. Elas circulam livremente, inclusive pelos quintais dos vizinhos sem ninguém mexer nelas.

Quando chega a noite de Sexta-Feira Santa a história toma outro rumo. No final da tarde de quinta-feira, Damasceno recolhe suas galinhas e tranca todas no porão da casa. Ele solta os cachorros e fica acordado e atento a qualquer barulho. “Quando o cachorro dá um latido eu já corro pra janela e olho se não tem nenhum gaiato por ali”, disse.

Mas nem sempre ele consegue evitar que suas galinhas sejam furtadas, na maioria das vezes, pela rapaziada da vizinhança. Segundo ele, no dia seguinte ainda passam por ele dando gargalhadas e confessando ter sido o autor do furto. Damasceno diz que nunca denunciou os ladrões à polícia. “Eles são amigos”, diz o publicitário. A única situação que o deixou triste foi quando os ladrões levaram a galinha que estava chocando e todos os ovos ficaram chocos.

Tradição de família

Alzemira José Ferreira Neves, 53, moradora do bairro Santa Etelvina, Zona Norte, tem a criação de galinhas como uma tradição familiar. “A minha família sempre criou galinhas no quintal e eu também crio e vendo”, diz. Mas, segundo ela, quando chega a Páscoa os ladrões sempre aparecem para roubar.

Às vezes levam muitas e a deixam aborrecida e triste. “Para mim elas são como crianças. Não tenho coragem de matá-las para comer”, diz. Segundo Alzemira, uma vez os ladrões levaram cinco galinhas e ainda esmagaram a cabeça de outras, mas ela nunca denunciou à polícia e assim ela continua com a criação.

Brincadeira pode terminar na cadeia

É difícil encontrar quem ainda pratique o roubo de galinha na Sexta-Feira Santa, mas ainda há quem aproveita o dia em que o Senhor está “morto”, de forma que não vê os pecados cometidos, para praticar o delito. O jeito pagão e transgressor de comemorar a Páscoa é crime perante a lei, segundo o desembargador Domingos Chalub.

Ele confessa que quando era adolescente chegou a furtar algumas galinhas na noite da Sexta-Feira da Paixão junto com os amigos deixando os donos das aves irados. Porém Chalub adverte que todo furto é crime e quem o pratica pode ser indiciado. O advogado Jorge Alberto Mendes Júnior disse que nunca fez a defesa de nenhum ladrão de galinhas de Sexta-Feira Santa e quando era juiz nunca condenou ou absolveu nenhum réu por esse crime.

Os delegados da Polícia Civil Rosenildo Benedetto e Orlando Amaral disseram que em suas delegacias nunca foram registrados ocorrências de roubos de galinhas ocorridos na noite da Sexta-Feira Santa. “Eu acho que isso nem acontece mais. E quando ocorre o pessoal resolve por lá mesmo, na base da brincadeira”, disse Benedetto.

Os furtos aconteciam sempre à noite. Os rapazes se juntavam e tarde da noite, quando todos já estavam dormindo, entravam nos quintais pegavam as galinhas e as preparava muitas vezes no fogão a lenha improvisado no quintal. Todos comiam ainda de noite em clima de festa. O roubo acontecia entre amigos, que se valiam da esperteza para ludibriar os companheiros.

Galinha no STF

 Recentemente o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luix Fux rejeitou um pedido de liminar para arquivar ação penal contra um homem acusado de roubar um galo e uma galinha, avaliados em R$ 40. Segundo o ministro, o caso deve ser resolvido no mérito do habeas corpus, após manifestação do Ministério Público. Todas as instâncias O caso do roubo de galinhas chegou ao STF após percorrer todas as instâncias do Judiciário. Segundo a denúncia, Afanásio Maximiniano Guimarães tentou roubar uma galinha e um galo, avaliados em R$ 40, que estavam no galinheiro da vítima, Raimundo das Graças Miranda, em setembro de 2013 na cidade de São João Nepomuceno, em Minas Gerais. Defensoria A Defensoria Pública pediu ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais que o processo fosse declarado extinto, uma vez que o acusado devolveu os animais. Apesar do pedido de aplicação do princípio da insignificância para encerrar o processo, a Justiça de Minas e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), última instância da Justiça Federal, rejeitaram pedido para trancar a ação penal. Celeridade O caso do roubo de galinha de Afanásio é um exemplo do porquê a Justiça Brasileira está cheia de processos que reduzem a celeridade e poderiam destravar o trabalho dos magistrados e também dos Ministérios Públicos.