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‘Gosto de falar que o meu partido é o meu cliente’, diz advogada Maria Benigno

Jurista com trabalho reconhecido na Justiça Eleitoral, no Amazonas, a advogada Maria Benigno teve que se dedicar muito aos estudos para conquistar espaço em um segmento dominado pelos homens

Maria Benigno é um das poucas representantes femininas do Direito Eleitoral no AM

Maria Benigno é um das poucas representantes femininas do Direito Eleitoral no AM (Arquivo A CRÍTICA)

Responsável pela defesa de políticos campeões de votos no Estado, a advogada Maria Benigno se declara uma viciada em trabalho e apaixonada por futebol. Como estratégia para vencer o que chama de componente “político” nos julgamentos da Justiça Eleitoral a advogada afirma que se empenha em elaborar peças com rigor técnico. “É preciso colaborar com o juiz, com a Justiça”, defende a advogada.

Compondo uma ala tímida de mulheres no Direito Eleitoral no Amazonas, Maria Benigno carrega no currículo a criação do atual partido do governador Omar Aziz, o PSD, no Estado, uma lista de clientes em mais de 20 municípios do interior e a defesa de políticos como o deputado estadual Belarmino Lins (PMDB) e o deputado federal Silas Câmara (PSC). Leia a seguir trechos da entrevista concedida por ela  para A CRÍTICA:

AC- A senhora acha que o mercado de trabalho dos advogados ainda está tomado por homens?

MB- Não. O que eu vejo é que as mulheres advogadas procuram, geralmente, concursos públicos e por isso ficam menos expostas em audiências. Vejo também  que as mulheres são mais dedicadas e alcançam os postos mais altos nesses órgãos públicos.

AC- A senhora sempre advogou no Direito Eleitoral?

MB- Não. Atuei também no Direito Esportivo.

AC- A senhora acompanha o esporte hoje?

MB- Acompanho. O meu marido é o presidente do Holanda Futebol Clube e gosto de ir ao estádio ver jogos.

AC- Qual é o seu time?

MB- Meus  times de coração são o São Raimundo e o Palmeiras.

AC- Como a senhora optou pelo Direito Eleitoral?

MB- Nós tínhamos um amigo que se elegeu prefeito  (Anderson Souza, ex-prefeito de Rio Preto da Eva) e um ano depois ele teve problemas judiciais e me pediu ajuda. Foi ele que levou meu nome para outras pessoas. E gente que tinha problemas parecidos começaram a me procurar. Foi quando eu comecei a trabalhar com o Direito Eleitoral, um ambiente que era ainda predominantemente masculino.

AC- A senhora já acompanhava o cenário político antes de virar advogada eleitoral?

MB- Sim, eu sempre gostei muito de política.

AC- A senhora já sofreu alguma discriminação por ser mulher?

MB- Não. No início eu percebia que por ser uma pessoa nova na área e não ter ligação com nenhum político havia certa resistência. Então, eu ouvia de algumas pessoas que em causas mais complicadas precisavam de um advogado “medalhão”, que é aquele advogado que já tem um nome no mercado, com causas grandes ganhas.

AC- Como foram seus primeiros anos no Direito Eleitoral?

MB- Por ter que disputar com colegas que já tinham prática eu acabei me esforçando para evoluir muito mais e mais rápido para chegar a um nível que eu achava que era um nível ótimo, o nível deles.

AC- A senhora está dizendo que teve que redobrar a carga de estudo?

MB- Sim. No Direito Eleitoral o nível que você encontra nos argumentos dos colegas advogados é bem elevado.

AC- A senhora consegue acompanhar as sessões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)?

MB- Sim, porque a minha dedicação a isso é exclusiva. Eu vivo isso.  E eu penso que do meu trabalho depende não só o cargo do prefeito, mas das pessoas que estão ali trabalhando com ele e até mesmo do município. Porque quando você está com uma causa desse tipo, você afeta o município todo e por incrível que pareça as pessoas identificam a causa contigo.

AC- Como assim?

MB- Eu recebo no facebook mensagens de pessoas do interior dizendo que me conhecem por advogar pelo prefeito tal, por exemplo. Normalmente ou é algo elogiando ou atacando. Porque as disputas no interior são muito polarizadas.

AC- Esse tipo de comportamento lhe desagrada?

MB- No início eu tinha medo porque os cidadãos têm certa paixão pela eleição no interior. Hoje em dia não, as pessoas começaram a entender que a justiça eleitoral existe e precisa ser cumprida. Porque antes, tinham uma ideia de que (as ações criminosas) nunca ia dar em nada.

AC- Época eleitoral para senhora é muito complicada?

MB- Sim, mas também é o período do ano que  mais gosto. Inclusive esse ano está para começar! Agora nos meses de março e abril alguns políticos com mandato começam a se desincompatibilizar, já realizam as alianças e passam a cuidar de definir o que cada um vai disputar. Eu acho tudo isso muito interessante. E eu gosto muito de acompanhar essa mobilização.

AC- Como a senhora faz o acompanhamento dos seus clientes do interior?

MB- Hoje, a Internet ajuda muito, mas a gente ainda sofre um pouco. O que acontece é que a gente tem que ligar para as pessoas pedir que o processo ande, falar com o juiz, às vezes a gente só consegue falar aqui em Manaus para eles darem andamento, às vezes com um promotor. É um pouco complicado por conta da distância e alguns municípios é difícil a gente manter a comunicação até mesmo pelo telefone.

AC- Em quantos municípios a senhora têm cliente?

MB- Mais de 20. Mas não tenho o número ao certo na cabeça.

AC- Teve algum caso que deu mais trabalho pra senhora?

MB- Nenhum caso específico. Quando eu comecei no eleitoral, muitas pessoas me disseram: “Ah, ali no TRE o que decide não é o Direito. Ele é um tribunal político” e eu não me conformava com isso. Pensava que não era possível  e que isso não poderia acontecer. Foi aí que eu resolvi intensificar ainda mais o meu trabalho e desde então gosto de deixar bem claro aos meus clientes:  sei que existe esse componente político, mas eu vou fazer meu trabalho de uma forma que o juiz que for pegar o meu processo encontre argumentos técnicos para decidir de acordo com o Direito. Porque não adianta a pessoa confiar se o poder não pode evitar o que está ali no processo. É preciso colaborar com o juiz, com a Justiça.

AC- A senhora consegue arrumar um tempo para cuidar da beleza?

MB- Com certeza. Eu não sou muito de salão, de fazer meu cabelo, essas coisas não. Eu cuido de fazer exercícios, faço pilates sempre que possível e frequento salão semanalmente para fazer as unhas. Além disso faço aquelas outras coisas que todo mundo gosta de fazer como massagem, esses tratamentos, mas nada fora do normal.

AC- A senhora já foi paquerada no ambiente de trabalho?

MB- Muita gente acha que isso acontece, mas nunca aconteceu. Meu marido vai dizer que é mentira, mas não é assim! (risos). Eu sou muito mais observadora e  passo a imagem de ser muito séria.

AC- Nem por funcionários ou pessoas que não conhecem a senhora?

MB- Não. O que acontece e eu não considero cantada é ser elogiada. Ouvir que eu estou bonita ou que minha roupa é legal isso já aconteceu. Há um desembargador, por exemplo, que me chama de a advogada mais bonita ou  a advogada mais inteligente durante as sessões! Mas eu não considero uma cantada porque senão seria algo mais privativo, não em público, né? E os meus colegas brincam que assim não dá para competir, mas isso é brincadeira nossa mesmo, para descontrair um pouco.

AC- Qual é a parte do seu trabalho que a senhora mais gosta de fazer?

MB- Eu gosto muito das audiências e de escrever as peças. Gosto principalmente quando eu vou atuar em um processo em que o advogado do outro lado é um colega desses que eu respeito muito e que estão lá todos os dias comigo. Às vezes a gente pega peças e diz ‘meu Deus agora ele realmente se dedicou!’ (risos) Eu gosto porque para mim vira um desafio.

AC- Já aconteceu da senhora defender políticos de partidos nacionalmente rivais?

MB- Já. Até porque em cada município a eleição se configura de uma maneira diferente do que é no Estado e nacionalmente. Eu já atuei em uma causa, por exemplo, que era contra uma figura eminente do PT e defendi, em outro município, um político do PT. É complicado, mas geralmente dá para separar bem. Eu gosto de falar que o meu partido é o meu cliente. Então, se o PT naquele município me contratou então sou PT ali.

AC- Como a senhora consegue conciliar sua vida pessoal com o trabalho?

MB- Eu não tenho muita dificuldade porque o meu marido trabalha comigo nessa área (Paulo Radin, secretário-geral do PSD). Felizmente, ele conhece  meu trabalho até porque, praticamente, eu comecei a atuar no Direito Eleitoral por causa dele, e essas pessoas eram mais ligadas a ele do que a mim.

AC- A senhora não sofre então com cobranças dentro de casa?

MB- Não é bem assim também (risos). O meu marido me cobra às vezes, porque eu chego em casa e quero continuar falando sobre aquele assunto, que normalmente é política. A minha mãe reclama muito, dizendo que eu só trabalho. Os demais estão acostumados.

AC- A senhora se considera workaholic (viciada em trabalho)?

MB- É, acho que sim (risos). É que às vezes os clientes vão até o escritório no horário do almoço ou no do jantar. Aí, eu abro a mão do almoço ou do jantar. Mas eu digo que gosto de me dedicar muito.