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Morte de jovens é crescente em Manaus

Índice de crianças, adolescentes e jovens vítimas de homicídio, em Manaus, é crescente e preocupa especialistas e familiares

Números preocupam: Só no primeiro semestre deste ano, mais de 240 adolescentes e jovens com idade entre 15 e 25 anos foram assassinados, em Manaus

Números preocupam: Só no primeiro semestre deste ano, mais de 240 adolescentes e jovens com idade entre 15 e 25 anos foram assassinados, em Manaus (LUIZ VASCONCELOS)

 Aos 17 anos de idade, Paulo (nome fictício) está marcado para morrer. Ele sobreviveu à segunda tentativa de homicídio na semana passada, quando recebeu 16 facadas dentro da casa, depois de ter decidido deixar o tráfico de drogas. Outros 242 jovens de Manaus com idade entre 15 e 25 anos não tiveram a mesma sorte. Neste primeiro semestre do ano, eles engrossam as estatísticas do genocídio sistemático de jovens no País, conforme definem especialistas como o doutor em sociologia Luiz Fábio Paiva, 32, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Enquanto as taxas de mortalidade por causas naturais na faixa etária de 1 a 19 anos de idade despencaram de 387,1 óbitos por 100 mil pessoas, em 1980, para 88,5 em 2010, a de causas externas, como homicídios, foram responsáveis por 26,5% de total de óbitos de crianças e adolescentes, no mesmo período.

Nomes e rostos

Esses números têm rostos, nomes, idades e histórias quase tão comuns que parecem reprise de uma novela. Paulo, aos 9 anos, morava em uma área de invasão na Zona Leste, onde começou a cheirar cola. Logo virou “avião”, como é chamado no tráfico o entregador da droga ao usuário. Passou várias vezes pelos centros socioeducativos Raimundo Parente e Dagmar Feitosa. Quando saía, em pouco tempo e pela proximidade com os traficantes, logo era obrigado a voltar a entregar drogas.

Segundo a família, Paulo é um menino alegre e comunicativo, mas não quis estudar e só conseguiu concluir o 2º ano do ensino fundamental. Diante do apelo dos pais, resolveu deixar o mundo das drogas, indo trabalhar como pedreiro com o pai, mas seus passos foram acompanhados pelos traficantes.

Recebeu o primeiro aviso de que não poderia largar o tráfico com quatro facadas, desferidas no mês passado. Na segunda investida, houve mais violência. “Eles não estão brincando, não querem que ele deixe de vender drogas, já tinham furado ele há um mês e agora pegaram mais feio. Não sabemos o que fazer e nem a quem recorrer”, disse a avó dele.

Infância foi perdida para traficantes

Na Zona Centro-Sul, o jovem Carlos, 15, (nome fictício) morreu após receber mais de 20 facadas no beco onde morava com a família que, temendo represálias, pediu para que não fossem revelados o local do crime nem seus nomes. “Os criminosos estão soltos, passam na nossa frente armados para mostrar que dominam aqui”, afirma uma tia, indignada com a falta de opções de lazer para os meninos do bairro e a exposição deles ao tráfico.

“Ele não teve infância. Aos 12 anos começou a cheirar cola, não queria nem assistir desenho animado. Só vivia na rua, na mão dos traficantes”.

A mãe dele ia trabalhar e Carlos ficava sob os cuidados da irmã, também adolescente. Apesar de não ser agressivo, chegou a roubar pertences da família e de vizinhos e acabou internado no Centro Socioeducativo Senador Raimundo Parente.

A mãe, que criou os filhos sozinha, chegou a mudar de bairro várias vezes para afastar Carlos do tráfico. A avó o levou para o município de origem dela, Humaitá (a 600 quilômetros de Manaus) onde ele ficou um mês, mas teve que voltar depois de se envolver em encrencas.  Vê-lo morto no beco onde morava foi uma cena forte demais para a família, que pede justiça. “Não é porque o menino estava errado na vida, que merecia morrer daquele jeito”, desabafou o irmão de Carlos.

Dependência é maior nos jovens

O contato cada vez mais precoce das crianças e jovens com o álcool e as drogas é a causa do aumento do número de usuários de entorpecentes, que sustentam o tráfico. Essa é a opinião da psiquiatra Martha Ana Jesierski, diretora de um centro de referência no atendimento e tratamento de usuários e dependentes de álcool, crack e outras drogas de São Paulo. Segundo ela, quanto mais cedo o contato com as drogas e o álcool, mais rapidamente surge a dependência.

Martha esteve em Manaus há uma semana, ministrando um treinamento de profissionais da saúde para resposta às situações de urgência, promovido pela Secretaria de Estado da Saúde (Susam). Na ocasião, ela divulgou uma pesquisa nacional indicando que o início do consumo de álcool se dá aos 13 anos. “Até os 24 anos, o cérebro está em formação e desenvolvimento. É muito preocupante porque o uso de qualquer substância estimulante, como álcool e tabaco, sensibiliza o cérebro, que está em formação, com maiores chances de causar a dependência”, explicou.

Trauma

Ao comentar o caso do garoto que começou a cheirar cola aos 9 anos idade, Martha afirmou que ele viveu mil anos em 10, tendo “sujado sua memória de forma indelével e traumática”.

A especialista explica que o cérebro de uma criança não tem maturação. “O início do uso de drogas o deixa sem condições de se preparar para essa fase tão importante”, diz a médica, chamando a atenção para a importância de o Estado assumir o papel de ajudar essas crianças cuja maioria já perdeu vínculo familiar.

O uso continuado de drogas pelos adolescentes pode levá-los, segundo a psiquiatra, a quadros de demência. “Isso vai ter um preço que os garotos vão pagar a longo prazo”, disse ela, dizendo ainda que nas meninas esse processo é mais violento porque elas têm menos metabolismo para processar essas substâncias.