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A voz que narrou à tragédia do naufrágio do Barco Sobral Santos

O radialista Benedito Lopes, 59, foi ameaçado pelo dono da embarcação por narrar as atrocidades que eram feitas com as vítimas

O radialista Benedito Lopes

O radialista Benedito Lopes (Alexandre Fonseca )

A imagem que não se apaga da cabeça do radialista Benedito Lopes, 59, que fez a cobertura jornalística do naufrágio do Sobral Santos, é a quantidade de sangue misturado  a uma espécie de gordura que se formou no leito do rio Amazonas, na frente do porto de Óbidos.

“Era gordura de gente, das pessoas que morreram. É que os homens rãs, que eram os mergulhadores contratados pelo proprietário da embarcação, iam ao fundo e furavam a barriga dos corpos para que estes não boiassem. Era uma forma de tentar esconder o número de passageiros que o barcos transportava”, afirmou Bené, relatando fatos bastante noticiados na época. “A gordura se espalhou por uma área de 500 metros de extensão no leito do rio”, completou.   

Parintins tomou conhecimento do naufrágio do Sobral Santos nas primeiras horas da manhã. A rádio Alvorada, a única emissora da cidade,  acordou os moradores com a triste notícia e Benedito Lopes foi o enviado especial até o local do sinistro.

Bené seguiu de barco, ainda pela manhã, e chegou à noite a Óbidos, na companhia de uma equipe do município nomeada, pelo prefeito Raimundo Reis para socorrer os conterrâneos. "Quando cheguei, vi a quantidade de corpos enfileirada no armazém do porto. A cidade estava em comoção. Vi o desespero das famílias que choravam e outros angustiados pelos desaparecidos", disse Benedito Lopes da Silva, que completara em 1981, 29 anos de idade.

De frente para o fato, o radialista passou a narrar barbaridades de como as vítimas e seus familiares foram tratados. Ele contou que os mergulhadores já não faziam mais questão de procurar sobreviventes ou de resgatar os corpos. “Só voltavam para o fundo do rio se os parentes das vítimas pagassem”, contou. Ele contou que comerciante José Pereira pagou caro aos homens rãs para que eles resgatassem sua mulher, Amélia.

“Ela morreu dentro do camarote, não conseguiu sair. Naquela época ele desembolsou 300 mil cruzeiros e eles foram lá e trouxeram o corpo dela. Todas as pessoas que vieram nos camarotes morreram”, acentuou. Na opinião dele houve também omissão por parte da Capitania dos Portos. “Fizeram vista grossa para muita coisa”, afirmou Benedito. 

Além de reportar para a Rádio Alvorada Benedito Lopes narrou os acontecimentos para a BBC de Londres, a Rádio Nacional, Voz da América, Rádio Rural de Santarém, Rádio Clube de Belém, Rádios Difusora e Rio Mar, de Manaus. “Para reportar, naquela época, eu ligava de um telefone convencional, para a Embratel e a empresa ligava para a Rádio Alvorada”, narrou. 

Ele teve acesso à lista de passageiros e contestava a versão oficial de desaparecidos e do número de pessoas que estavam na embarcação. O repórter foi ameaçado de morte pelos proprietários do Sobral Santos,  que acusavam os passageiros pelo naufrágio.  “O barco estava com excesso de carga e no porto de Óbidos mais passageiros ainda entraram no Sobral. Fui ameaçado de morte pelo seu Calil Mourão. Entreguei a lista de passageiros depois de muita pressão”, afirmou Bené, que hoje é funcionário da Prefeitura.        

MEMÓRIA

O barco Chicão, foi quem conduziu os 21 parintinenses que sobreviveram ao naufrágio do Sobral Santos de volta à Ilha. No meio da viagem, por pouco o barco também não naufragou ao colidir com um banco de areia. No Chicão viajava um menino, de oito anos, que conseguiu sobreviver à tragédia. O garoto era Emerson Nakath, que hoje está com 38 anos e dirige uma agência financeira, em Parintins. Ele não quis comentar o episódio. A mãe e o irmão dele morreram na tragédia do Sobral Santos. Em julho, deste ano, o pai Emerson, Nelson Nakauth, também morreu no naufrágio do barco Kirios II, de propriedade da própria família.