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"O acesso à palavra é uma medida positiva", diz sociólogo

Atitude de deputados, na tribuna popular, deve ser acompanhada, diz sociólogo, para ver se a medida é substantiva ou só demagógica

Sociólogo afirma que atitude de deputados na tribuna popular deve ser acompanhada pela sociedade

Sociólogo afirma que atitude de deputados na tribuna popular deve ser acompanhada pela sociedade (Antônio Limaa - 23/fev/2012)

O doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marcelo Seráfico afirma que, no momento em que o Poder Legislativo passa por uma crise de credibilidade, a tribuna popular colocará a Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) diante de importantes testes. Um deles é o de mensurar o quanto o que se discute na Casa repercute fora dela.

“O Poder Legislativo se esvaziou de tal forma, tal é o império do Executivo, que pouco importa o que se diz ali. É importante ver qual a repercussão dessa medida no dia a dia”, afirmou Marcelo Seráfico. A seguir, trechos da entrevista concedida pelo sociólogo, por telefone.

Que análise pode ser feita sobre a criação da tribuna popular na ALE-AM?

Ainda que muito limitado, o franqueamento de acesso de qualquer cidadão à palavra é uma medida positiva, que devemos reconhecer.

Qual a importância desse instrumento?

A Assembleia tem rádio e tv. O cidadão que lá se manifestar pode alcançar um número significativo de pessoas. Mas é interessante acompanhar a presença dos deputados nesses debates, para saber se vai ser uma medida de cunho substantiva ou apenas demagógica. Outro fator é que o Poder Legislativo se esvaziou de tal forma, tal é o império do Executivo, que pouco importa o que se diz ali. É importante ver qual a repercussão dessa medida no dia a dia.

Demorar 161 anos para franquear a palavra ao cidadão reflete o grau de abertura do poder à sociedade?

Não chega a espantar essa dificuldade do conjunto de poderes, não só o Legislativo, em se abrir ao povo. Algumas vezes, com regras de formalidade muito distantes da realidade da maioria da  população, como a exigência de vestimentas que distanciam o cidadão.


O que contribui para esse fechamento do Poder Legislativo?

Há várias questões. O primeiro é que os partidos que dominam a ação da política compreendem o processo democrático num sentido muito limitado. Têm dificuldade enorme de compreender limites muito estreitos da democracia representativa. Quando eleito, o sujeito se julga portador de um cheque em branco, de uma enorme liberdade que só resta ao povo o constrangimento.

E o compromisso que os políticos assumem durante a campanha de representar o interesse dos eleitores?

Boa parte dos representantes, para se eleger, precisa conseguir financiamento para suas campanhas, que é muito caro. O que significa que muitos compromissos assumidos no processo eleitoral se esgotam quando o sujeito é eleito. E ficam apenas os que são assumidos com os financiadores de campanha. Então, a representação deixa de ser popular e passa a atender interesses particulares, muitos deles inconfessáveis.

Em que consiste hoje a atividade dos parlamentares?

Há um profundo compromisso, quase um conluio entre deputados, os da base aliada, com o Poder Executivo. Eles raramente legislam, e com frequência se contentam em assumir posição subordinada ao Executivo. É uma perversão do papel do legislador, que é fiscalizar a ação dos governantes e legislar.