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População estabelece os principais legados da Copa do Mundo de 2014 em Manaus

‘Up’ na autoestima dos manauenses - nativos ou radicados - que fizeram parte da Copa do Mundo, seja atuando como voluntários, dando show na Arena da Amazônia, ou uma aula de hospitalidade nas ruas da cidade, foi a maior conquista do Mundial

Estrangeiros, como um grupo de Croatas, ficaram tão encantados com a capital amazonense que não queriam mais ir embora.

Estrangeiros, como um grupo de Croatas, ficaram tão encantados com a capital amazonense que não queriam mais ir embora. (Evandro Seixas)

Num cenário em que quase todas as obras prometidas para a Copa do Mundo ficaram inacabadas ou no papel, coube à população de Manaus estabelecer o principal legado do mundial: a melhora da autoestima dos moradores da cidade e a boa impressão pela hospitalidade causada em turistas na calorosa capital do Amazonas.

A opinião de quem, de forma anônima suou a camisa e fez do trabalho uma forma de confraternização com os turistas do mundial, é unânime de que a missão foi cumprida e com louvor. E o prêmio, atribuídos pelos manauaras ouvidos por A CRÌTICA, é a alegria e o orgulho de ver a cidade bem avaliada pelos visitantes.

A atendente de um quiosque de café expresso no Centro da cidade, Eunice Pereira dos Santos, 50, adotou adjetivos carinhosos para melhor tratar os torcedores do Mundial: “nossos turistas” e “coração”. Eunice diz que percebeu no sorriso e olhar de cada um o bem estar pelo acolhimento.

“Esse momento foi especial. Todos pareciam dispostos, animados, felizes mesmo. E a gente tentou fazer o máximo para que isso não fosse quebrado. O que não tinha e eles pediam, a gente procurava dar um jeito para agradar”, afirmou a atendente.

Moradora da região Centro-Oeste, próximo à barreira da estrada AM-010, Eunice disse que conhecia pouco os pontos turísticos da cidade, mas o encanto que os turistas demonstraram deixaram nela profunda admiração pela história de Manaus. “Já gostava da minha cidade. Mas estou com o sentimento mais forte e quero conhecer mais”, revelou.

Vendedor de um quiosque de suvenir no Teatro Amazonas, Mário Pereira, 55, fez sua pesquisa de opinião pessoal sobre a aprovação dos turistas em relação a Manaus. A motivação principal dele foram as críticas da mídia internacional e nacional sobre a escolha da cidade como subsede da Copa. “Antes de saírem da loja, quando dava, perguntava: gostaram da cidade? Todos elogiavam. Estavam deslumbrados”.

A vendedora Lene Corrêa, 58, conta animada que ficou com a sensação de que os turistas, quando chegaram à cidade, entraram num sonho. “Eles parecem não acreditar que aqui no meio da Amazônia havia uma cidade urbana e um teatro com essa história. Era como se tivessem entrado num sonho”, disse. Ela afirmou que esse tipo de reação reforçou nela um sentimento de orgulho por morar em Manaus.

O gerente de fiscalização da Sempab, Adriano Pacífico, 36, que é formado em História, além do trabalho de manter a ordem no Centro em relação aos vendedores ambulantes, por algumas vezes teve que ser fotógrafo dos turistas que pediam ajuda dele. “Faltava isso em Manaus. Nós temos que conhecer a nossa história e aprender com ela. Gostar da nossa cidade para que os outros também gostem”, disse.

O gerente de Planejamento do Centro Integrado de Comando e Controle, coronel Hermes Macedo, afirmou que como cidadão ficou “magoado” com as declarações preconceituosas e a rejeição a Manaus como subsede do Mundial. O coronel afirma que durante o evento superou o sentimento ao perceber que os turistas gostavam da cidade. “Até os policiais que vieram de outros países gostaram de Manaus e disseram que vão voltar para aproveitar a cidade num outro período. Claro que, quando recebemos um elogio sobre a nossa casa, isso nos deixa felizes e orgulhosos”.

População continua atenta

A autoestima renovada pelos elogios a Manaus não enviesou a percepção da realidade que a população da cidade enfrenta, sobretudo nas zonas periféricas da capital amazonense - onde se concentra a maior parte da população - segundo a opinião dos profissionais e pessoas ouvidas por A CRÌTICA.

Pelo contrário, em alguns casos, reforçou o enfrentamento dos problemas de falta de estrutura na rotina da cidade. Foi o caso da atendente do quiosque de café expresso no Centro da cidade, Eunice Pereira dos Santos, 50, que se disse com autoestima de moradora renovada.

“Está tudo ótimo com a Copa. Mas, os ônibus, coração... misericórdia! Eu trabalhei muito e, como moro longe do Centro, tinha que pegar o transporte cedo para chegar aqui, inclusive aos domingos. Mas não sei porque a prefeitura pensa que quem mora Zona Centro-Oeste não trabalha ou não sai de casa no domingo. O ônibus some”, declarou sem perder o sorriso e o bom humor.

O soldado Emerson Carvalho, 26, diz que também percebeu que os turistas gostaram da cidade e ficou feliz de trabalhar nos dias do evento. “Mas não foram na Zona Leste. Se fossem nas ruas da periferia iam ver os buracos”, disse.

No Jorge Teixeira 1, a dona de casa Ednelza Lima disse que a Copa no Brasil foi a mais triste para ela. Os vizinhos não puderam se reunir para pintar as ruas por causa dos buracos.

Na Zona Norte, moradores ligaram frustrados para a redação do jornal denunciando falta de energia elétrica durante os jogos da competição.

Uma ‘nação’ de voluntários

Orgulho de fazer parte de uma “nação” que fez a Copa em Manaus ser reconhecida nacionalmente e até mundialmente. É esse o sentimento dos voluntários que trabalharam na Copa de 2014 em Manaus. Um deles é o universitário João Paulo Haydem, 19, que descreveu participar da Copa em Manaus como um voluntário como uma experiência de vida que ele vai guardar para sempre. João Paulo contou que aceitou trabalhar como voluntário porque queria ter uma experiência nova, e acabou se surpreendendo e virando motivo de orgulho na família.

O bancário Carlos Andrey da Silva Lima, 22, disse não ter palavras para explicar o que sentiu quando viu o locutor Galvão Bueno elogiando o trabalho dos voluntários. “Naquele momento, eu senti muito orgulho de ser amazonense e de ter colaborado para que a Copa em Manaus fosse uma das melhores do Brasil”.

Para os dois, a solidariedade, os novos amigos e as palavras de agradecimentos que receberam, não apenas dos turistas, foram a melhor recompensa. “Teve um turista que, além de me agradecer, disse que nós, voluntários, tínhamos a cara da Copa”, lembrou Carlos Andrey.

O bancário gostou tanto do trabalho que fez que, sempre que houver uma oportunidade para trabalhar como voluntário, ele promete aceitar. “Eu acho que o trabalho que fizemos foi muito bom e vai trazer benefícios para o Estado, que a partir desse momento começa ser visto de uma forma positiva nacionalmente e também por outros países”, disse João Paulo.

Lembranças bem além das fotografias


Quem foi ao Largo São Sebastião, no Centro, ou na Fifa Fan Fest, na Ponta Negra, dificilmente saiu de lá sem levar no celular uma foto com um turista estrangeiro. A cabeleireira de um salão de beleza próximo ao Largo, Lúcia Aquino, 56, vai guardar várias recordações da Copa do Mundo 2014. A principal delas são fotos feitas com os turistas que foram ao salão cortar o cabelo e fazer a barba. No final, agradecidos, eles sempre pediam para serem fotografados ao lado dela.

Lúcia disse que cortou o cabelo de dois estrangeiros e fez a barba de um norte-americano, que ficou surpreso quando soube que seria barbeado por uma mulher. Para a cabeleireira, o sentimento é de felicidade por poder contribuir para que os visitantes levem a melhor impressão possível de Manaus. “Eles foram educados e demonstraram estarem muito felizes com o tratamento que receberam”, disse a cabeleireira.

A comerciante de produtos artesanais Adália Vila Mendonza, 26, disse que a Copa do Mundo de 2014 vai entrar para a história do povo amazonense, que viveu esse momento de conhecer pessoas diferentes e interagir com eles e, mesmo falando idiomas diferentes, se entendendo. “Eles (turistas) não compraram muito os nossos produtos, mas passavam a maior parte do tempo aí na praça fazendo festa”, disse.

O garçom de um bar localizado no Largo São Sebastião Oreny dos Santos, 41, contou que, mesmo sem saber falar outro idioma, conseguiu fazer muitos amigos estrangeiros. Um deles é o inglês Richard Derflisger, que desde o primeiro dia da Copa frequenta o bar. Na terça-feira de manhã, lá estava ele, prometendo voltar, “porque aqui tudo é bom, principalmente a hospitalidade e a cerveja”.

Para Oreny, ficou a sensação gostosa de ter feito parte dessa festa. “Nos surpreendeu, foi cansativo, mas foi muito bom”, ressaltou.