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Abandono: travessia de perigos e desafios é notada na BR-319

Quem se arrisca a percorrer os 877 quilômetros que separam Manaus de Porto Velho pela rodovia BR-319, e não é nem louco nem aventureiro, deve pegar a estrada preparado para acidentes, atoleiros, pneus furados, pontes quebradas e todo tipo de risco

Atoleiros que intensificam com a chuva se estendem por mais de 400 km

Atoleiros que intensificam com a chuva se estendem por mais de 400 km (Euzivaldo Queiroz)

É comum ouvir dizer que quem pensa em percorrer os 877 quilômetros da BR-319 deseja aventura, está louco ou não sabe os desafios que encontrará pela frente. Na prática, há os que acreditam em um pouco dos três. A rodovia, de fato, está intrafegável e guarda apenas a lembrança do asfalto que recebeu em 1970, quando foi aberta pelos militares, mas isso não é novidade. Em 40 anos sem receber atenção do Governo Federal, a rodovia, que é a única ligação de Manaus a Porto Velho (RO), no Norte, às demais regiões do Brasil, se tornou o símbolo do abandono.

Órgãos federais se habituaram a dar informações que acham conveniente sobre o estado de conservação da BR-319. Contudo, só quem vive a experiência de fazer todo o trajeto tem propriedade para falar sobre o que acontece na estrada que se transformou em algo semelhante a um ramal em alguns pontos e, principalmente, constatar que o discurso governamental não reflete a realidade.

A CRÍTICA participou da expedição “BR-319 - Chegada Atoleiro - Reconstrução Já”, realizada pela Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado Federal. Foram três dias de viagem saindo de Porto Velho até Manaus para verificar as condições da rodovia. O intuito foi chamar atenção do Governo Federal para autorizar as licenças ambientais que impedem que a pavimentação seja feita. Cerca de 30 carros participaram da expedição. Encarar a BR-319 é mais que um desafio, é uma missão iniciada sem a certeza de chegar ao destino final.

DIÁRIO DE BORDO

Início da expedição

Saímos de carro de Porto Velho com destino a Manaus, às 15h30, atravessamos o rio Madeira de balsa, uma vez que a ponte que facilitará a travessia ainda não foi concluída, e chegamos a Humaitá após 3h50, num trecho fácil de dirigir. O veículo utilizado foi uma picape modelo L 200 Triton.

Pernoitamos no município e às 4h seguimos em direção ao trecho mais difícil, sem nada comer, acreditando que pararíamos para fazer uma refeição ainda em Humaitá. Duas horas depois, havíamos saído do município sem nenhuma parada porque os líderes do comboio tinham se alimentado e estavam com suprimentos nos veículo. O asfalto e placas de sinalização da BR-319 desapareceram e deram lugar a barro e florestas dos dois lados.

Noventa quilômetros à frente, chegamos à comunidade Realidade, última concentração de moradias antes do completo isolamento na floresta. A partir de Realidade, a “realidade” da viagem mudou completamente. Não havia mais civilização e nem um único trecho em que o carro parasse de trepidar em meio a buracos. É como se a pessoa estivesse sendo chacoalhada dentro de uma caixa durante um dia inteiro.

No local, verdadeiras crateras chegam a “engolir” o carro. Por mais que a determinação de fazer o percurso fosse grande, a natureza da floresta, que reclama o espaço tomado dela, foi maior. Por este motivo, é preciso estar preparado física e psicologicamente, além de levar mantimentos, remédios, ferramentas e peças de reposição para o caso de um acidente que deixe o aventureiro isolado, por dias, até passar alguém que faça o resgate. O que não foi o nosso caso.

Marinheiros de primeira viagem, nada levamos, confiando na promessa da comitiva de que tudo seria disponibilizado, desde a hospedagem à alimentação e suporte. O mesmo ocorreu com jornalistas de Rondônia, que seguiam a comitiva e ficaram “a ver navios”, sem nenhuma assistência. A confiança na palavra de terceiros foi um erro primário, condenável por aventureiros experientes, e que algumas horas depois, descobriríamos que nos custaria caro. Ficou evidente que a viagem estava sendo feita à revelia, sem preparo.

Dificuldades se multiplicam

Logo nos deparamos com atoleiros, pontes quebradas, passagens por igarapés, desvios no barro à beira de abismos, chuva, poeira, entre outras dificuldades que surgiam, sempre no plural. A comitiva com quase cem pessoas não tinha nenhum médico, mecânico ou motorista com experiência em estrada de barro. Os condutores eram policiais militares da Casa Civil de Rondônia, designados para a tarefa.

A comitiva seguiu em frente e ficamos para trás, com outro dois veículos, porque a picape em que estávamos apresentou problemas no câmbio e na tração. Passamos por mais de 110 pontes de madeira quadragenárias. A maioria delas é um risco evidente de acidente. Uma das pontes, dentro da Reserva Extrativista Lago do Capanã Grande, quebrou justamente quando o carro que estávamos passava.

A construção, com a madeira visivelmente podre, praticamente esfarelava ao toque. Quase no final da ponte, a madeira não suportou o peso do carro e quebrou. O pneu dianteiro direito passou pela madeira como se estivesse no vazio. O carro não caiu ponte abaixo porque o chassi ficou apoiado em outras tábuas, mais resistentes. Saímos do carro, avaliamos a situação e, como não dava para retornar, a alternativa foi retirar o veículo para tentar seguir viagem. Pegamos madeira e calçamos o carro enquanto o motorista acelerou.

Foi um alívio quando o carro alcançou a outra margem da ponte. Passada a comemoração, os dois carros que seguiam atrás do que estávamos passaram à frente e, em pouco tempo, os perdemos de vista. A fome começou a castigar e estávamos no meio do nada, em um cenário dominado pelo verde da floresta e o amarelo do barro, sem comida. Não existe civilização e nenhum lugar onde se possa comprar qualquer coisa no trecho do meião. Sorte que a picape que estávamos tinha cinco galões de diesel, caso contrário ficaríamos isolados sem poder seguir em frente ou retornar por falta de combustível.

Iniciamos a viagem com tanque cheio e paramos para abastecer uma vez. O lugar mais próximo de onde estávamos ficava a 700 quilômetros, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), Igapó-Açu, nos limites de Careiro Castanho.

Pão de cada dia

Começou a chover e não dava para enxergar nada à frente. A condução do carro estava às cegas, com velocidade reduzida e deslizando para os lados em função da lama. A noite caiu e a visibilidade era obtida apenas com os farois da picape. Quando passamos em mais uma ponte, o pneu traseiro furou. Um prego na ponte abriu um rasgo do tamanho de um palmo no pneu. O carro saiu deslizando e, por pouco, não capotou.

Trocamos o pneu e retomamos a viagem por mais algumas horas até avistarmos uma luz distante que, a cada minuto, ficava mais perto. Era o primeiro fragmento de vida humana desde que deixamos a “Realidade”.

Estávamos há exatas 17 horas sem comer quando chegamos à RDS Igapó-Açu. Saímos do carro com o corpo dolorido e logo apareceram crianças pedindo dinheiro, prática que descobrimos, minutos depois, ser comum no local. Avistamos a taberna do seu Raimundo, um homem de cabelos grisalhos. Vimos que tinha ovos e conserva em lata sobre o balcão. “Seu Raimundo, diga o seu preço. Quanto o senhor quer nesses ovos e na conserva? Pode falar que pagamos”, indagou o motorista. “Quero R$ 20”, respondeu Raimundo. “Pode fazer”, finalizou o condutor.

Quando a panela, com fundo preto pelo tempo de uso, chegou fumaçando à mesa, foi uma alegria. Foi a melhor refeição que comemos na vida. O ovo frito misturado com conserva e farinha teve sabor digno de prêmio. Ainda teve um refrigerante de laranja, que é comprado em Manaus por R$ 3 e que seu Raimundo vende por R$ 7, para descontar o valor que tem com o transporte. Pouco depois, pegamos uma balsa para atravessar o rio São Sebastião do Igarapé-Açu e continuar na estrada.

Mais surpresa

Quando pensávamos que os sustos tinham acabado, os seis parafusos da roda traseira quebraram e o carro começou a deslizar de lado na lama, exatamente no trecho em que a estrada é alta e existe um abismo nas laterais. A torcida era para a picape parar antes do abismo. Ela deslizou e parou aproximadamente a um metro de seguir em queda livre pelo barranco.

Saímos do carro com o coração na boca, como dizem. Depois de estudar as alternativas por mais de uma hora, vimos faróis em meio ao escuro. Eram os dois carros que estavam à frente, que voltaram para ajudar. Surgiu a ideia de tirar dois parafusos de cada uma das outras três rodas para montar a roda quebrada. Desmontamos as rodas na chuva e na lama. O macaco afundava na lama e foi preciso buscar madeira para dar apoio à ferramenta.

Tiramos todos os parafusos necessários com dificuldade. No momento de montar a última roda, onde os pedaços dos parafusos ficaram presos no tambor de freio, o aro não encaixou. Passamos três horas tentando montar a roda, com o objetivo de chegar ao Careiro Castanho ainda durante a noite, mas dominados pelo estresse, raiva e cansaço, chegarmos à decisão mais sensata: desistir. Os dois carros que voltaram foram embora e ficamos aguardando resgate.

Ninguém sabia, mas dois quilômetros à frente havia o Destacamento Cabo Barbosa do 6º Batalhão de Engenharia e Construção (6º BEC) do Exército, no quilômetro 215 da BR-319. Uma das equipes que seguiu à frente buscou ajuda com os militares, que foram ao nosso encontro. Fomos resgatados, levados à base, cheios de lama, e bem tratados em todos os momentos.

Dormimos em um contêiner e, pela manhã, depois do primeiro café em dois dias, o mecânico do Exército nos acompanhou até o carro e descobriu que o tambor de freio não encaixava porque o freio de mão estava puxado. A raiva sentida naquele momento foi reflexo da falta de experiência em mecânica e despreparo para a expedição.

Reviravolta

Com o carro de volta à ativa, seguimos em direção à sede do Careiro Castanho, em mais 200 quilômetros. Durante o final do trajeto ao município, a caixa de marcha da picape, que apresentou problema desde o início da expedição, não permitiu que a viagem continuasse. O carro voltava para ponto morto a todo o momento e, por mais que fosse acelerado, não saía do lugar.

O motorista, que é militar em Rondônia, conseguiu autorização da Polícia Militar do Amazonas, no Careiro Castanho, para deixar a picape no quartel até o dia seguinte, quando o Governo de Rondônia mandaria buscar o carro de balsa, em quatro dias viagem. Acabava naquele momento nosso contato com a picape e com os demais membros daquela equipe.

Pegamos um táxi no Careiro Castanho e seguimos para o Careiro da Várzea nos últimos cem quilômetros, onde embarcamos para o porto da Ceasa, em solo manauara. Antes, ainda deu tempo de contemplar o Encontro das Águas e ter a certeza de estar, finalmente, perto de casa.