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Família de inglesa morta após colisão no rio Negro em 2013 virá a Manaus para pedir Justiça

Gillian Metcalf faleceu depois de uma colisão entre duas lanchas no meio do rio Negro, às margens de Manaus. O marido, Charles, e as filhas virão a capital amazonense na próxima semana para pedir o julgamento dos culpados

Gillian Metcalf, com Charles, Natasha e Alice, nas Cataratas do Iguaçu, antes de vir a Manaus. Ela morreu na colisão entre duas lanchas no meio do rio Negro

Gillian Metcalf, com Charles, Natasha e Alice, nas Cataratas do Iguaçu, antes de vir a Manaus. Ela morreu na colisão entre duas lanchas no meio do rio Negro (Divulgação)

A família da advogada inglesa Gillian Metcalf, que morreu em um choque entre duas lanchas no rio Negro em setembro do ano passado, virá a Manaus fazer um apelo à Justiça brasileira para que os dois supostos culpados por sua morte não permaneçam na impunidade. Seu marido, Charles Metcalf, e uma de suas filhas estarão em Manaus já na próxima semana para tentar sensibilizar as autoridades sobre o caso, no intuito de que fatos como aquele não se repitam. “A nossa experiência nesse dia demonstrou um desprezo pela vida humana por ambos os pilotos. Espero e rezo para que isso não seja a regra”, disse.

No início da manhã do feriado de 5 de setembro, Gillian, Charles e as duas filhas, Alice e Natasha, rumavam para o hotel Juma Jungle Lodge, em Rio Preto da Eva, no barco Shirley, conduzido por Raimundo Nonato Lima. O barco colidiu com o Clicia VI, pilotado por Mailson Gomes, que comprovadamente usava uma habilitação de condutor de barcos falsificada. Gillian morreu na hora, como atesta forte trecho do depoimento da sua filha Alice, no inquérito ao qual A Crítica teve acesso. “Eu vi o sangue e procurei o pulso de minha mãe, mas ela não tinha pulsação”.

Todos os ouvidos no inquérito encaminhado à Justiça pelo delegado Pablo Geovanne em outubro do ano passado foram unânimes em afirmar que as duas lanchas estavam em velocidade alta. Alguns falaram que parecia um “racha”. O laudo da Polícia Civil, que fez a reconstituição do acidente à época, e o da Marinha, ambos anexados no longo inquérito de mais de 200 páginas, defendem erro humano e negligência dos dois pilotos.

O laudo da Marinha atesta que as lanchas vinham “em média para alta velocidade e nenhuma sequer parou as máquinas ou desacelerou para evitar o choque”. Uma testemunha afirmou que ouviu, ao contrário, barulho de motor acelerando.

O resultado dos laudos técnicos das perícias coincide com a frase de Charles no inquérito. “Eles (os dois barcos) vinham em alta velocidade e eu pensei na hora: ‘Quem será que vai parar?’, mas nenhum parou e foi tudo muito rápido. Gritei, me abaixei e achei que iríamos todos morrer”, declarou.

Justiça

O inquérito está nas mãos do promotor Raimundo Oliveira, da 9ª Vara Criminal do Fórum Enoch Reis. O promotor não tem data para oferecer a denúncia, ou seja, encaminhar à Justiça para julgá-los, condená-los e definir suas penas. Mas, no dia 27 de março, o promotor solicitou ao delegado Geovanne que ouvisse os dois peritos da Marinha novamente.

“Os peritos foram ouvidos, frisaram e repetiram o que disseram na perícia anexada ao inquérito concluído em outubro passado: que a causa determinante do albaroamento foi falha operacional (humana) de ambas as embarcações”, destacou o delegado.


O delegado Geovane Pablo (de branco) apontou, no inquérito, que a culpa pela colisão foi dos dois condutores (Divulgação)

Geovanne indiciou tanto Mailson quanto Raimundo Nonato por homicídio culposo majorado. O majorado determina um terço a mais sobre a pena de 1 a 3 anos por serem os supostos criminosos pilotos de embarcação profissionais (a pena aumenta “quando o crime resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício”).

A família Metcalf costumava viajar nas férias para conhecer países exóticos e interagir com a cultura local. Antes de vir a Manaus, eles passaram pelo Paraná, onde tiraram diversas fotos nas Cataratas do Iguaçu.

Pena branda é o temor, diz marido

Uma fonte jurídica ouvida por A CRÍTICA  diz que a punição nesse caso, assim como em crimes de trânsito, ainda é muito branda. “Incrível acreditar que o motorista da lancha Clícia IV pode ser preso por ter falsificado seu documento como condutor de lanchas, mas no Brasil nunca seria preso por matar uma pessoa num acidente de trânsito, no caso, trânsito no rio”. Por homicídio culposo a pena é de 1 a 3 anos, normalmente convertida para doação de cestas básicas ou serviços à comunidade. Já por falsificar documento o condenado pode ficar preso de 2 a 6 anos.

Pela distância entre os dois países, Charles Metcalf diz que se angustia muito em pensar que o crime possa ficar impune. “Eu sinto muito fortemente que ambos os pilotos tiveram um papel no incidente. Eu não vou chamá-lo de um acidente, pois não foi assim. Qualquer um dos pilotos poderia ter evitado a colisão, mas não iria ceder, era como uma disputa. Depois de ler os testemunhos dos dois no inquérito, tenho certeza de que as autoridades brasileiras vão concordar”.

Charles não quis comentar se acha as penas brasileiras brandas para casos desse tipo. “Eu não sou advogado, mas sei que prisão não é incomum no Reino Unido por infrações graves assim”. Para ele, não faz diferença saber que o piloto da Clicia VI tinha uma habilitação falsa para conduzir embarcações. “A certificação ou não que cada motorista tinha não muda o fato de que ambos os pilotos agiram de uma maneira deliberada de pôr em perigo a vida de todos”. Por ser da responsabilidade federal (da Marinha) em conceder a habilitação do aquaviário, quem está com o inquérito sobre o documento falso é a Polícia Federal.  A assessoria da PF não enviou resposta à reportagem sobre em que pé estaria o processo.

O inglês destaca que seu foco estará concentrado até o fim do processo no Brasil. “É nossa esperança fervorosa que seja feita justiça em relação a ambos os pilotos. Se eu puder ajudar nesse sentido, virei quantas vezes for necessário ao País”.

Tributo na forma de ajuda na África

A família de Gillian vive em Tenterden, cidade pacata de menos de oito  mil habitantes no condado de Kent, no Sul da Inglaterra. A advogada era uma pessoa querida na comunidade e apontada como mãe e esposa dedicada na imprensa local. Nas férias, a família gostava de conhecer lugares exóticos e, em uma dessas viagens, Gillian se encantou com uma escolinha no Zâmbia.

Para homenagear a mãe, as duas filhas Natasha, de 20 anos, e Alice Louise, de 18, começaram há uma semana a recolher fundos (fundraising) no https://www.justgiving.com/gillmetcalf para reformar e ampliar a escola Tajutane, no Zâmbia. A expectativa era arrecadar mil libras. Já arrecadaram quase nove vezes mais. A campanha ainda fica no ar mais três semanas. “Esta é a maneira de fazer algo positivo da tristeza das meninas. Estou muito orgulhoso do que eles estão fazendo por Gill”, disse Charles.

Contribuição

Para estimular as doações, Natasha, Alice e mais cinco primos e amigos estão participando de provas de obstáculo em Tunbridge Wells, com fotos e vídeos no Facebook e  página específica das provas (http://www.majorseries.com/obstacles). Elas avisam no site:  “todo o dinheiro arrecadado vai para o Fundo Memorial Gillian Metcalf, destinado à Escola Tujatane”. A escola foi inaugurada em maio de 1996 e oferece educação para crianças da comunidade local, em uma área onde a disponibilidade de uma educação de qualidade é escassa.