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Ditadura, doenças e mortes na Amazônia

Marcus Barros conta que ficou alheio ao golpe na adolescência, e que sentiu a repressão da ditadura na faculdade de medicina

Barros é especialista em medicina tropical e membro da New York Academy of Science

Barros é especialista em medicina tropical e membro da New York Academy of Science (Clóvis Miranda)

Os projetos realizados na Amazônia brasileira a partir do golpe militar de 1964 produziram adoecimentos e mortes em larga escala na região. A afirmação é do médico amazonense, nascido no Município de Eirunepé, no Alto Juruá, Marcus Luiz Barroso Barros, 66, especialista em medicina tropical, dono do título de notório saber em Leishmaniose, membro da New York Academy of Science e da resistência à ditadura. Na última matéria da série O Golpe Militar na Amazônia, A CRÍTICA publica trechos do depoimento de Marcus Barros, ex-dirigente e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), hoje militante da Rede Sustentabilidade, enfocando principalmente o binômio saúde x repressão nas cidades amazônicas durante a vigência do regime militar, e a permanência de doenças trazidas pelas ações autoritárias de ocupação da Amazônia.

Em seis edições, este jornal ouviu estudiosos e militantes que são parte da história amazônica mais recente e publicou as interpretações deles sobre o golpe militar que completa 50 anos e sobre os efeitos produzidos pelo governo ditatorial na região. São recortes pequenos em meio a tantas outras vozes que devem ser ouvidas, mas que traduzem um mosaico onde se imbricam memória e leituras fundamentais para pensar a Amazônia que se quer construída a partir deste século e que não seja um projeto isolado do Brasil nem de cima para baixo. Os sofrimentos de tantos, as perdas, as ameaças e a resistência dos povos amazônicos aparecem em todos os depoimentos dados aliando-se a uma riqueza cultural ignorada regional e nacionalmente. Espera-se que reunidos, por meio das inteligências, da solidariedade e da defesa da democracia, que, em 2015 completará 30 anos de vigência no Brasil, sejam erguidas as vigas de um plano Amazônia construído na dimensão do coletivo e que a partir dele o País seja reposicionando.

“Onde eu estava quando ocorreu o golpe militar? Estava em Manaus, tinha 16 anos. É claro que vi a movimentação das tropas de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, vi Magalhães Pinto (governador de Minas Gerais, de 1961-1966, primeiro a aderir ao golpe); vi a esperança do Carlos Lacerda (jornalista, parlamentar e governador do Estado da Guanabara, de 1960-1965) e do JK (Juscelino Kubtichek, presidiu o País de 1956 a 1961) ainda saírem candidatos, depois do golpe. Vi todas essas cenas com o olhar de adolescente. Fazia o curso secundário e estava mais longe dos acontecimentos. E com toda sinceridade, digo que vi pouca movimentação daqueles da minha faixa etária àquela altura”.

“Vi assustado o Abraham Lincoln Gordon (embaixador dos EUA no Brasil, no período de 1961 a 1966) mostrar com toda arrogância o que os EUA poderiam fazer pelo Brasil. Me assustava aquele general (refere-se a Vermon Walters, militar que tinha ligações com o Brasil desde 1943), amigo do Castelo Branco que foi para o Vietnã, e quando o Castelo Branco morreu (em 18 de julho de 1967), ele mandou rezar uma missa no Vietnã”.

“Em 1968, quatro anos depois, eu era um jovem de 20 anos e estava na Faculdade de Medicina, em Manaus. Faço aqui recorte porque dos 16 aos 18 anos, sirvo o Exército. Fiz o NPOR (Núcleo Preparatório para Oficiais da Reserva) e me transformei num oficial da Reserva do Exército brasileiro, aquele que dominava o Brasil na primeira fase da ditadura. Aos 18 anos eu estava no corpo da tropa fazendo exercícios no Cigs (Centro de Instruções de Guerra na Selva, criado em 1964 e dois anos depois dava início aos treinamentos)”.

“Entre os 16 e 17 anos, não me recordo muito do sistema repressivo na Amazônia, me lembro bem do combate aos militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro); me lembro da prisão do Arlindo Porto (jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Amazonas, deputado cassado), do Sidio, do Belarmino Marreiro, do Amazonino Mendes (líder estudantil, ex-governador do Amazonas, ex-senador, ex-prefeito de Manaus) para citar alguns. Esses atos mostravam que a coisa não era para brincar e sim para valer”.

O estudante de medicina descobre a repressão“Meu ingresso na Faculdade de Medicina é um dado importante. Ali havia certo burburinho, as coisas não aconteciam com tranquilidade. No segundo ano de faculdade, um marco na minha vida que irá me levar a entender todo o processo que estava acontecendo para iniciar meu processo de desalienação e olhar para o Brasil torturado. Aconteceu um seminário no qual o governo dos EUA faz uma seleção nacional dos que eles chamaram de ‘líderes em potencial no Brasil’. Eu tinha 20 para 21 anos. Foram selecionados 10 brasileirinhos que tinham certa ascendência sobre o coletivo, entre eles, eu. Minha entrevista foi na sede do IBEU (Instituto Brasil-Estados Unidos). Os selecionados passaram três meses na Universidade de Los Angeles (USLA), na Califórnia, participando do Brazilian Leadership Seminary. Ali convivi com outras lideranças nacionais, discutindo, por exemplo, o papel dos EUA no Brasil. O golpe já tinha sido dado, o governo da ditadura estava instalado, e eles nos juntaram. Era o ano de 1969, o processo no Brasil estava radicalizado, a guerra no Vietnã em plena execução e 10 jovens brasileiros estão na USLA. Era como se eles dissessem para nós: - Olha o Brasil está sob ditadura pesada, estão torturando as pessoas. Em Manaus, fizemos um movimento em plena ditadura, foi um cordão rodeando o prédio da Faculdade de Medicina porque não tinha microscópio. A ditadura se assustou com aquilo. Prendeu uns colegas e já, no primeiro dia, apareceu um dedo duro (questionado quem era, Marcus Barros diz que ele já morreu e não cita o nome). Aí é um momento em que começamos a sentir a ditadura e a repressão dentro da sala de aula. É quando vem a minha reação a isso pelas disputas pelo diretório estudantil”.

Lugar para mobilizar as tropas

“O que foi o golpe militar? Na Amazônia, ele começa pelo dístico ‘Integrar para não entregar’. A região era altamente estratégica e precisava de mobilização das tropas. O que eles fizerem para executar esses projetos? Fizeram caminhos de infraestrutura para mobilizar as tropas, com obras do tipo Transamazônica, projetos como o desastre da Hidrelétrica de Balbina, no Município de Presidente Figueiredo. Quando presidi o Ibama ( de 2003 a 2007), vi que hidrelétrica bem pequeninha produzia o dobro de Balbina. Como médico, vi os projetos produzindo adoecimento e mortes na Amazônia. Uma das coisas que me chocaram foi a destruição das aldeias dos waimiri-atroari. Eu acompanhei o Egydio (Schwade, missionário, um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário, Cimi) e a Doroty (missionária educadora e indigenista, mulher de Egydio), alfabetizando os índios e enquanto a ditadura matava os índios com napalm (armamento militar desenvolvido na segunda guerra mundial). Os índios eram metralhados. E isso era desenvolvimento! Era a ação para abrir caminho da Torquato Tapajós até Boa Vista (RR) e de lá à Venezuela porque o Suriname ameaça a ideologia da segurança nacional traduzida na mobilização das tropas no interior da região”.

A Igreja ergue a tenda do apoio

Na Amazônia, iniciava um movimento junto à Igreja Católica, muito próximo de um cara chamado Dom Moacyr Grechi, uma figura muito significativa nesse processo de apoio, de abrigo à resistência e de espaço para a denúncia do que estava ocorrendo. Eu ia pro Acre, para a juntada dos camponeses, lá com Chico Mendes e com o Raimundo Cardoso que continuava numa militância pesada. Estava formado e tinha 27 anos. Queria prestar atenção aos surtos de malárias nessa região, na estrada Porto Velho–Rio Branco, onde havia um projeto de assentamento chamado ‘Padre Peixoto’.