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Moradores de Apuí fazem cerimônia pelo fim dos conflitos entre brancos e índios

Ato ecumênico aconteceu na praça de alimentação do município; tensão já influencia início das aulas para alunos indígenas

Aglomeração no distrito de Santo Antonio do Matupi sinalizava o clima de guerra

Populações de Apuí e Santo Antônio do Matupi (na foto, em manifestação do dia 25 de dezembro), pediram paz, mas também a punição devida aos envolvidos nos desaparecimentos (Reprodução/Internet)

Um grande culto ecumênico foi realizado neste domingo (5) em Apuí (a 455 quilômetros de Manaus) pedindo paz e uma solução para o caso do desaparecimento de três homens na reserva indígena Tenharim-Marmelos, próxima à cidade, e que vem se desenrolando desde o dia 16 de dezembro.

Cerca de mil pessoas, entre produtores rurais e moradores, participaram do ato, promovido pelo Sindicato Rural do Sul do Amazonas (Sindisul), juntamente com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas (Faea) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e que contou com o apoio de lideranças religiosas de Apuí e do município vizinho de Santo Antônio do Matupi.

Irisnéia Santos Azevedo, esposa de Stef Pinheiro, um dos desaparecidos, falou por telefone com as pessoas presentes. Ela contou sobre as dificuldades que vem passando desde o desaparecimento do marido e agradeceu o apoio da população.

De acordo com o pároco de Apuí, Raimundo Magalhães, a ação pede o fim dos conflitos, mas também a justiça devida aos envolvidos no desaparecimento dos três homens. “Nós atendemos a uma solicitação dos organizadores do culto e viemos falar pela paz; mas uma paz que também deixasse inquietas as pessoas para clamar por justiça. Uma paz que inquieta as pessoas, mas que não possa ocorrer incitação ao ódio. (...) que não seja, de fato, a justiça esquecida”, afirmou Raimundo.

Abaixo-assinado
No mesmo dia, o Sindisul também promoveu a coleta de assinaturas para um abaixo-assinado, pedindo a extinção da cobrança de pedágio na Rodovia Transamazônica, no trecho da reserva Tenharim. A cobrança de pedágio foi alvo dos protestos de moradores de Apuí, Matupi e Humaitá, e está entre as principais razões do conflito que vem ocorrendo na região.

O presidente do Sindisul, Carlos Koch, disse estar preocupado com a situação, e esclareceu a motivação para o ato. “Nós, produtores rurais, estamos demonstrando com esse movimento pacífico que nós somos humanos e que temos nossos direitos, entre eles o direito à vida e o direito de ir e vir”.

Autoridades de Apuí e Santo Antônio do Matupi também criticaram a situação de tensão, e afirmaram que ela afasta trabalhadores rurais e investidores, afetando a economia dos municípios.

Tensão prejudica as aulas de jovens indígenas
Em Humaitá, onde a tensão entre produtores rurais e moradores e os indígenas da reserva Tenharim têm provocado os conflitos mais violentos, a situação de insegurança e a hostilidade da população pode prejudicar o início do ano letivo para crianças e jovens indígenas.

De acordo com Ivanildo Tenharim, representante da etnia que habita a reserva e coordenador de Educação Escolar Indígena de Humaitá, mais de 30 professores que atuam nas escolas indígenas do município terão de passar por um curso de capacitação na cidade antes do início das aulas.

Os últimos acontecimentos, porém, como a destruição de propriedades indígenas em Humaitá e na entrada da reserva Tenharim, colocaram os índios em situação de confinamento, entre eles alunos e professores. “Além da falta de alimentação e de atendimento médico, essa é a questão que mais nos preocupa”, afirma Ivanildo.

Ainda segundo o representante indígena, a situação frustra o longo processo de integração escolar dos habitantes da reserva, lançando uma indefinição preocupante sobre o futuro dessas crianças e jovens.