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Mulheres vítimas de assédio no transporte público reclamam de humilhação e sociedade machista

‘Os homens acham que podem fazer o que querem com as mulheres, acham que os corpos delas são públicos’, afirma representante de movimento de mulheres

Mulheres ainda não procuram a delegacia especializada para denunciar quando são molestadas no ônibus

Mulheres ainda não procuram a delegacia especializada para denunciar quando são molestadas no ônibus (Michael Dantas/Arquivo AC)

“Eles chegam encostando. Na primeira vez eu me afasto, mas se eu perceber que continua, eu xingo, ameaço bater, não fico quieta não. Mas é uma humilhação.” O relato de Diana Cavalcante, empregada doméstica de 50 anos, e de tantas outras mulheres, é recorrente em todo o País.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, este ano foram registrados, 285 casos de importunação ofensiva ao pudor – quando a vítima é assediada sexualmente em local público – em todo o estado. Desses casos, 17 ocorreram dentro de coletivos e 13 nos pontos de ônibus.

Há 13 anos, Diana depende de ônibus e do trem para se locomover. “Já vi cenas terríveis, já levantaram a saia de uma mulher e ela não teve reação nenhuma, porque se a gente fala alguma coisa, eles ofendem a gente, acham ruim. Ela simplesmente desceu na estação seguinte”, relata a doméstica.

“Ontem mesmo eu presenciei uma cena. Um rapaz fingiu que tropeçou para molestar uma menina. Na hora eu não percebi, mas depois parei para pensar. Foi de propósito”, lembra o porteiro Eli Alves do Nascimento, de 25 anos.

Para ele, falta punição para os casos de assédio. “A solução é montar um sistema estratégico com pelo menos um policial disfarçado por vagão. Quando acontecer um fato como esse, ele já filma a pessoa, passa o rádio, já faz a abordagem e prende a pessoa. Isso vai fazê-los ficarem mais inibidos com esse tipo de atitude.”

Alfinetes

Aline Valderrama Alves de Narciso, 23, também já foi vítima dos abusadores.  Ela revela os truques usados por muitas mulheres para se defender. “Procuro ficar mais entre as mulheres. Se chega um homem perto, eu procuro ficar de lado, ou então de frente para ele. Tem o truque do cotovelo também. Inclino o cotovelo para trás, para afastá-lo de mim”, diz.

Outro artifício que vem sendo usado por elas é espetar o molestador com um alfinete. Na última sexta-feira (4), na cidade de São Paulo, uma ação do movimento Mulheres em Luta distribuiu cerca de 400 alfinetes para usuárias do transporte na Estação Capão Redondo do metrô, durante o horário de pico.

“A ação no Capão Redondo foi muito boa. As mulheres, que sempre sofrem, apoiaram, vieram nos parabenizar, pedir ajuda”, diz Janaína Rodrigues, organizadora da campanha “Não me encoxa, que eu não te furo”. O movimento pretende percorrer as principais estações de São Paulo levando esclarecimento às passageiras e entregando kits com o alfinete.

Delegacia

Ananda Felisberto, representante de outro movimento de mulheres, o Levante Popular da Juventude, também já foi vítima do assédio. Ela acredita que a raiz do problema está na própria sociedade brasileira, marcada pelo machismo.

“Os homens acham que podem fazer o que querem com as mulheres, acham que os corpos delas são públicos. Na rua, a gente leva cantada e isso é tido como natural. E se você vai à delegacia, ainda perguntam que tipo de roupa você estava vestindo ou o que você estava fazendo. Isso é reflexo do machismo”, disse.

Uma das maiores reclamações da representante do Levante é o fato de as mulheres não se sentirem seguras para ir a uma delegacia. Segundo relato dos agentes de segurança que trabalham à paisana no metrô de São Paulo, 80% das mulheres que sofrem assédio em situações que são presenciadas por eles preferem não prestar queixa.

Frotteurismo

Alguns dos abusadores, inclusive, aproveitam-se da impunidade para continuar agindo. Um dos encoxadores mais conhecidos pelos agentes em São Paulo tem nove passagens pela polícia e já foi pego praticando assédio em shoppings, elevadores, ônibus e vagões de metrô e trem. “Ele sempre diz que não consegue evitar, porque tem 'frotteurismo'”, conta um dos agentes, que não pode ter a identidade revelada.

José Leon Crochík, docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), explica que o frotteurismo é um comportamento mais comum entre os homens - excitação sexual resultante da fricção dos órgãos genitais no corpo de outra pessoa vestida. “Eles aproveitam espaços com muita gente para ter contatos sexuais sem a permissão dos outros. Em outras palavras, trata-se de um tipo de abuso sexual.”

De acordo com Crochík, o que estimula quem sofre de frotteurismo é a expectativa de não ser punido e o desejo de ter prazer com o outro, sem a sua permissão. “Isso o faz sentir domínio sobre o outro, é mais do que a masturbação e bem menos do que o ato sexual forçado. De todo modo, é um ato solitário que incomoda o outro”, explica.

Campanhas

Já a consequência nas vítimas desse tipo de abuso é o medo de estar em situações em que possam ser molestadas novamente. E uma das estratégias para minimizar esse problema é que os ônibus, trens e metrôs tenham câmeras para que seja possível identificar os agressores.

Essa ideia é defendida por Sonia Coelho, militante e integrante da Marcha Mundial das Mulheres e da Sempreviva Organização Feminista (SOF). Para ela, devem também ser feitas campanhas educativas e preventivas nesses ambientes. “É preciso ter campanhas sistematicamente. Por que não usamos os meios de comunicação no transporte público para fazer coisas educativas?”, disse.