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Golpe Militar e suas marcas da ditadura na Amazônia

Para o cientista social e professor titular da Universidade Federal do Amazonas, Renan Freitas Pinto, a região foi reinventada com o golpe

Renan Freitas Pinto é um estudioso do pensamento social e político na Amazônia

Renan Freitas Pinto é um estudioso do pensamento social e político na Amazônia (Márcio Silva)

“Precisamos ter o compromisso de fazer uma diferença: existem aspectos resultantes desse acontecimento político chamado golpe militar que tem o lado militar de fato, mas há um componente muito mais complexo que é civil também. Banqueiros, empresários, setores importantes da sociedade brasileira se alinharam em torno da ideia de uma modernização conservadora ou modernização autoritária. Em relação à Amazônia, a região foi mais uma vez reinventada. Passamos a viver aqui aspectos que ainda não tínhamos experimentado. Com a instalação da Zona Franca de Manaus (ZFM) que foi um dos produtos desse novo modelo político autoritário, criou-se um polo industrial, o Distrito Industrial de Manaus, e, por meio dele, a formação de uma nova classe trabalhadora com um tipo de inserção inclusive e principalmente de pessoas de origem rural atraídas pelas vantagens oferecidas pelo comércio de Manaus, pelos serviços e pela oportunidade de ganhar dinheiro, de ter emprego e renda”.

Migração

“Tem um aspecto importante nesse processo sobre o qual ainda precisamos pensar e agir: a migração para Manaus. A cidade sofre uma explosão demográfica; os movimentos populacionais que se dirigem para a Amazônia são muito mais intensos do que para qualquer outra região do País. Essa nova migração para a região se transforma dentro do modelo implantado na última fronteira e na grande fronteira econômica, política e geopolítica de investimentos, na introdução desenfreada da propriedade privada, do capitalismo na sua forma talvez mais brutal que aconteceu aqui (na Amazônia). Uma ação que implicou no desmantelamento e em um grave comprometimento das sociedades indígenas porque suas terras foram apropriadas de forma intensa. Não vivemos mais o período caracterizado como o do golpe militar e da longa ditadura, mas os efeitos desse modelo permanecem nas suas linhas mais fortes”.

“Do ponto de vista da sociedade, tomemos como parâmetro a universidade. Houve um crescimento, porque fazia parte desse modelo político-militar o interesse em uma nova forma de lidar com a educação e com a pesquisa. O CNPq (criado em 1949, e que passou a funcionar em 1951) ganha nova função. As políticas relacionadas à pesquisa tiveram grande estímulo com grandes volumes de recursos financeiros que antes da ditadura não existiam. Tudo isso para administrar e controlar o processo de produção do conhecimento. O objetivo era orientar a pesquisa e desenvolver um novo tipo de relação da ciência com o poder”.

“Na contramão desse movimento, na Manaus da Zona Franca e do Distrito Industrial, pouca coisa foi feita em termo de pesquisa voltada para o DI. Isso porque os modelos das indústrias que vinham para cá já eram consolidados nos países de origem das empresas. Aqui funcionavam como plataforma de montagem com uma pequena inserção de um trabalho local ou nacional. A pesquisa no Brasil se voltou fundamentalmente para a agricultura”.

Turismo: um fracasso

“O que ficou da experiência desse projeto autoritário para o turismo na Amazônia e no Amazonas? Acho que não existe nenhum esforço sério. Você quer levar um amigo que vem à cidade para um passeio de uma hora para ver o rio, um bom museu, ao restaurante, ao cinema. O que faz? Quais as opções que você tem? O que há de interessante do Amazonas para ser mostrado aos que visitam Manaus? Investir responsavelmente nessa área já seria uma alternativa a esse modelo industrial. Escolas de música, de teatro, de cinema seriam atração turística porque estariam equipadas com todas as facilidades de uma cidade moderna, atendimento hospitalar e transporte público condizentes que são condições que o turista exige para ir a qualquer lugar. O turismo cultural na Amazônia é uma possibilidade que não está sendo levada a sério. Na Espanha, praticamente metade da renda vem dessa atividade. Por que a Amazônia, que tem tantas possibilidades, também não é imaginada por esse caminho? É uma das saídas, mas existem outras que não estão no extrativismo, como a alta tecnologia. Criar nas cidades do interior a capacidade para aquele jovem desenvolver tecnologia de ponta, como fizeram os Estados Unidos com o Vale do Silício”.

Os atrasos nas cidades

“O Brasil teve no extremo sul e em outras regiões situações muito próximas da nossa e hoje você verifica por lá um outro padrão, inclusive cultural. São cidades dinâmicas. Aqui convivemos com um processo de estagnação. Não acontece. O que oferecemos, por exemplo, para os jovens de cidades como Tabatinga, Manicoré, Tefé, Fonte Boa, Coari? Que sociedade o Estado, o Governo Federal e o Governo Municipal estão oferecendo a esses jovens? Como se educam, se formam? Quem é que determina essa estagnação? Falamos sempre de uma política de desenvolvimento. Ora, sabemos que existe na ciência política e na sociologia estudos sobre a formação e a produção do subdesenvolvimento que se dá simultaneamente com as tentativas de desenvolver. Djalma Batista, em ‘O Complexo da Amazônia’, trabalhou isso. O esforço dele é para explicar o porquê do nosso subdesenvolvimento, por que nos falta essa vontade de formar, efetivamente, um sistema de educação que produza cidadãos, técnicos profissionais, cientistas, artistas. O projeto autoritário aqui instalado trabalhou noutra direção, distanciou esse caminho”.