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Golpe Militar: Socióloga amazonense destaca que não há Brasil sem Amazônia

Marlene Corrêa da Silva Freitas faz um inventário das estratégias do regime militar para integrar a região Amazônica ao Brasil

Ex-reitora da Universidade do Estado do Amazonas, Marilene Corrêa é uma das pesquisadoras mais respeitadas da Amazônia

Ex-reitora da Universidade do Estado do Amazonas, Marilene Corrêa é uma das pesquisadoras mais respeitadas da Amazônia (Arquivo/AC)

“A Amazônia foi uma das regiões do País mais impactadas pelo regime militar, mais impactadas pela organização dos projetos militares e mais impactadas quando do processo de reafirmação dos militares diante da opinião pública nacional, por vários motivos. Em primeiro lugar, os militares assumem a tese recorrente na tecnocracia regional a respeito de que o Governo Federal e a sociedade nacional estavam de costas viradas para a Amazônia, o que até certo ponto acontece até hoje”.

“Mas ao assumir esse discurso que era veiculado por Arthur Cezar Reis (primeiro governador do Amazonas na ditadura, substitui Plínio Ramos Coelho, cassado), debatido por Samuel Benchimol (empresário, um dos proprietários do grupo Bemol, pesquisador, escritor e professor da Ufam, falecido em 2002), os intelectuais de Belém também centravam muito nesse discurso, o regime militar prepara uma estratégia de anexação da Amazônia ao Brasil, estratégia essa que passava por um processo de desenvolvimento articulado com o capital internacional, por um processo de capitalização da terra fazendo girar a superpopulação relativa brasileira, aquela que não cabia no campo e vinha para a cidade ou se deslocava para os grandes projetos de colonização, assumindo a construção da ligação em cima de uma tese de que a Amazônia precisava estar acoplada ao Brasil pelos grandes projetos”.

Grandes projetos

É nesse contexto que vem a história da Transamazônica, depois a reedição na articulação Norte, de todo o Norte com a América Latina, criando para cada pedaço da Amazônia uma identidade marcada pelo regime: o Amazonas com a Zona Franca; o Acre com o Polo Madeireiro e Florestal; Rondônia, com os projetos de colonização; Roraima, com o garimpo; e o Pará, com o Polo Mineiro-Metalúrgico que alimentaria a plataforma daquela época chamada tri-lateral. A nossa parte competiria fornecer energia para o Japão, o que inclusive o pessoal do Pará discute até hoje sobre a criação e a permanência desse arranjo”.

“Essa foi uma dimensão na qual o regime militar fez a consolidação da imagem pública do próprio regime para o Brasil à custa da Amazônia. Tem outra dimensão a ser pensada, o fato de o regime militar ao integrar a Amazônia adquirir a credibilidade de ter tirado a Amazônia do atraso; de ter favorecido a integração da Amazônia ao Brasil; de ter criado as universidades federais em cada área. Então, estamos diante de uma estratégia de grande porte, e que de algum modo aumentou inclusive a credibilidade nacional junto aos bancos internacionais, ao capital agrário internacional, ao capital financeiro internacional atraindo para cá um conjunto de medidas entre as quais as estratégias sobre as quais falei anteriormente e que passavam pela anexação física, a integração cultural e a tese do desenvolvimento regional”.

Região como berço de grandes projetos

“Desse processo vivido nesses 50 anos, a Amazônia sai com uma marca, inclusive um conceito para nós – a Amazônia dos grandes projetos. O que significou essa Amazônia berço dos grandes projetos, das grandes intervenções do Estado sobre a sociedade? Não se diz dos grandes dramas que essa intervenção causou. O projeto Calha Norte (cujas ações começaram a ser implementadas em 1985) é uma extensão dos grandes projetos; as novas agências de desenvolvimento regional, como o Polo Industrial de Manaus e a Suframa, além de um grande projeto, gerou outras extensões porque essa radiação da economia de enclave tem, hoje, forte impacto em toda a Amazônia Ocidental não só no Amazonas. Saímos de uma sociedade civil onde a impossibilidade democrática foi maior do que em outros lugares. Estamos diante de um impacto de longo prazo, uma marca de uma sociedade civil que conciliou militarismo com populismo e que gerou a elite que atualmente temos”.

Índios foram as maiores vítimas

Para os povos da Amazônia, afirma a pesquisadora Marilene Corrêa da Silva Freitas, o golpe e o governo militar foram catastróficos. “Aqui me lembro do livro do prof. Octavio Ianni - ‘Ditadura e Agricultura’ - embora o nome seja agricultura, ele implica em vários recortes que impactam sobre o posseiro, o caboclo, o caipira e, especialmente, o indígena. Os índios foram os grupos sociais, as nações e os povos onde esse processo de intervenção militar gerou impacto maior porque desorganizou a terra, desarticulou a cultura; porque trouxe a fronteira nacional para a proximidade das fronteiras interétnicas e culturais, sobrepôs um desejo da integração das ditaduras latino-americanas sobre todos os povos da América Latina, sobre as minorias étnicas do Peru, das nações e dos povos da Bolívia, do Equador. Ou seja, havia uma articulação militar que ultrapassava as fronteiras nacionais da Amazônia e esse impacto atingiu sobretudo as áreas da tríplice fronteira onde a maioria da presença era de grupos não contatados que tinham uma identidade muito marcada sob o ponto de vista da sua cultura. Esses povos foram os mais atingidos, pelas estradas, pelos projetos de colonização. Foram colocados face a face com os empreiteiros, com os fazendeiros, com os garimpeiros e aqui se está falando de frentes econômicas articuladas pelo regime de exceção com seus aliados. Houve uma ação combinada da economia e do militarismo na fronteira da Amazônia e os indígenas sofreram porque foram integrados compulsoriamente a essa dinâmica de exceção que era transnacional”.