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Historiador desvenda a situação dos ‘filhos sem pai’ das comunidades rurais do AM

A questão foi pesquisada na dissertação de mestrado denominada 'As mães dos ‘Filhos da Mãe’ em Tefé: a ilusão do impacto da ausência', defendida no município de Tefé, pelo historiador Rônisson de Souza de Oliveira

Durante a apresentação do trabalho, Rônisson citou a ‘viajante’ Elizabeth Agassis que registrou nos livros sobre a Amazônia fenômenos culturais como o dos ‘filhos da fortuna’ e os ‘filhos dos botos’

Durante a apresentação do trabalho, Rônisson citou a ‘viajante’ Elizabeth Agassis que registrou nos livros sobre a Amazônia fenômenos culturais como o dos ‘filhos da fortuna’ e os ‘filhos dos botos’ (Márcio Silva)

O fenômeno social da ausência dos pais no documento de registro de nascimento das crianças, alvo inclusive de campanhas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), é cada vez mais frequente em comunidades rurais de municípios como Tefé (a 525 quilômetros de Manaus). A questão foi pesquisada na dissertação de mestrado denominada “As mães dos ‘Filhos da Mãe’ em Tefé: a ilusão do impacto da ausência”, defendida na última quarta-feira pelo historiador Rônisson de Souza de Oliveira, 25, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Ao destacar que esse comportamento no interior do Estado hoje reproduz o mesmo em nível nacional, Rônisson aponta para uma particularidade: o registro de nascimento não regula a vida cotidiana porque outras pessoas assumem o papel do pai.

Natural de Tefé, onde se formou pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Rônisson pesquisou 11 anos dos registros de nascimento no município e de 27.105 identificados, 2.439 não tinham o nome do pai, o equivalente a 8% do total. Segundo ele, foram reconhecidos posteriormente apenas 8%, como resultado de campanhas como a do “Pai Presente”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O pesquisador, que foi orientado pela professora doutora Maria Auxiliadora Ruiz, identificou a influência das relações de gênero, a concepção da idealização da mulher como mãe e uma delimitação histórica da função do pai e da mãe. Para ele, o problema está na transformação da intimidade na atualidade, problema do qual a sociedade e a família não dão conta. “Os jovens estão muito libertários hoje e o problema está em não tentar deixar que a gravidez aconteça”, disse ele, para quem o problema é conjuntural.

Em relação à ausência do pai, há modificação em relação aos amparos se comparados às cidades urbanas, pois no interior da Amazônia, ainda há o resquício da vida comunitária, que está mais preparada para acolher um ‘filho da mãe’ do que numa cidade mais desenvolvida, onde as pessoas não tem tempo para cuidar das outras. “Na Amazônia, ainda tem muito cuidado dos outros, avós, tios. Na minha pesquisa, identifico que esse filho não está sem pai, pois outra figura o substitui, como avô, padrasto e tio”, assegura.

Intimidade

Rônisson diz que enquanto algumas sentem raiva por terem sido abandonadas, outras teimam pelos filhos, a maioria não está preocupada com isso, mesmo sendo pobres, com pouco estudo e de ter engravidando na adolescência. “Mais de 93% das pesquisadas não foram atrás do reconhecimento da paternidade, o que permite discutir a falta de regulação do registro”, explicou ele, citando relatos de viajantes na Amazônia do Século XIX como Elizabeth Agassiz, que registrou a ocorrência dos chamados “filhos da fortuna” e os “filhos do boto”, de mulheres que criavam os filhos cujos pais eram desconhecidos.

Na conclusão, Rônisson advertiu que o problema não estava na ausência do pai, que para elas tinha solução na substituição, mas antes, no fato de elas não saberem lidar com a transformação da intimidade, na medida em que com a ocidentalização, perderam os conhecimentos indígenas que as faziam ter estratégias para lidar com a sexualidade. “Eu as vejo como guerreiras que não se colocam no lugar de vítimas, pois com a gravidez amadureceram, se fortalecem e se articulam para cuidar do filho da mãe”, finaliza.