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Golpe Militar deixa região amazônica subalterna ao regime

Walmir de Albuquerque, jornalista e professor-doutor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), diz que a Amazônia é parte do projeto da ditadura e da globalização onde são recusados projetos de origem local

Quando dirigiu a Suframa, Rui Lins transferiu recursos para a universidade

Quando dirigiu a Suframa, Rui Lins transferiu recursos para a universidade (Reprodução/Blog Cel. Roberto)

“A experiência da ditadura nessa região tem um lado muito ruim, na medida em que se é submetido a um sistema da ditadura. Tinham os agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI) dentro das salas de aula. Meu discurso como orador da turma foi censurado, com carimbo em cima de dois parágrafos. Eu não podia pronunciar o nome dos professores que davam aula, tocar em determinados temas nem usar determinadas biografias. Os programas das disciplinas eram todos vasculhados. Havia uma espécie de ‘pelotão’ atuando dentro da universidade. Senti isso como aluno, senti isso como professor. O Erasmo (Linhares), que seria contratado junto comigo e o Rui Alencar para o curso de Jornalismo, não pôde entrar porque havia sido preso à época do Golpe acusado de militar no Partido Comunista, e foi proibido de fazer a crônica do meio-dia na Rádio Rio Mar. Era o mais preparado entre nós e teve seus direitos cassados”.

Universidade

“O lado bom disso é que ninguém segura uma universidade por tanto tempo. A luta constante pelo poder no interior da instituição, o florescimento do movimento estudantil, o movimento dos professores que criaram a primeira representação, na forma de associação de servidores (a associação dos docentes veio depois), tudo isso se dá dentro das limitações impostas, mas acontece e, na base da sacolinha, para fazer os movimentos, pagar passagens para os encontros, trazer convidados, como o professor Paulo Freire. Tanta gente passou por aqui para colaborar, ajudar a esclarecer, numa espécie de iluminismo dentro da universidade”.

“A história da Amazônia sempre foi de participação nos processos. A região, claro, é parte do projeto da ditadura e de globalização onde são recusados qualquer projeto coerente e duradouro de origem regional. O projeto do deputado federal Cosme de Ferreira Filho, de uma agroindústria, de desenvolvimento de uma Amazônia com certa autonomia, embora ligado ao extrativismo e que pudesse dar certa qualificação e agregasse produtos, foi abandonado para abarcar a proposta da ditadura de ocupar a área para integrá-la com o Brasil e não entregar (dizia o slogan militar), como se aqui a integração fosse um fenômeno. Fala-se da nossa recusa e não éramos nós e sim a recusa permanente dos governos do Brasil em garantir que a Amazônia dele participasse”.

“A região era tratada como uma colônia e a ditadura reforça esse projeto colonizador que embora tenha gerado certo desenvolvimento econômico precisa ser visto como um processo colonizador da Amazônia, da parte ocidental dela, do Amazonas. Temos aqui os vice-reis que eram os superintendentes da Zona Franca de Manaus (Suframa). Figuras arrogantes, pretensiosas que vão desde Floriano Pacheco até Mauro Costa, o último grande vice-rei, já sem a ditadura, mas que assume a mesma postura, um subalterno do Ministério da Indústria e Comércio. Hoje eles conseguiram diminuir a arrogância que os cerca. Todos eles alienígenas na Amazônia, à exceção do Rui Lins que, para a universidade, foi bom porque repassou recursos que permitiram construir o minicampus. Agora, temos um superintendente (Thomaz Nogueira) que parece disposto a dialogar mais. De qualquer forma a política de subalternidade permanece. A ditadura construiu isso, deixou essa herança”.

“As instituições fortes (Suframa, direção dos portos, comandos militares, Ufam) são instituições federais ou vigiadas pelo próprio Governo Federal. Na questão da economia, a Suframa deu ao Estado um papel de subalternidade à administração estadual para gerir as carências do interior. Essa política de subalternidade é mantida pós-ditadura pelos laços criados com a elite política local que tem um caráter subalterno e que aceita e assume esse caráter e pouco se rebela contra a subalternidade. A aliança da Amazônia conseguiu, por exemplo, na hora da divisão das capitanias hereditárias da comunicação do Brasil igualar o Amazonas ao Rio Grande do Sul, Centro e Leste, tendo uma rede regional própria de televisa.

Partidos

“Quanto aos partidos ou melhor as pessoas que ingressam nos partidos têm que se enquadrar nas exigências do núcleo nacional. Quando você pega um PT ou PSDB que são mais paulistas, embora tenham querido se colocar como nacional, verifica que as lideranças locais, na maioria dos casos, são subalternas ao comando nacional. Onde está a autonomia política? Não falo nem dos partidos de aluguel porque esses já nasceram com essa pretensão, de ser partidecos, filhos legítimos da ditadura e do processo instaurado de fragmentar para dominar. O que preocupa é que essa subalternidade está virando cultural. Não conseguimos nesse período criar uma saída que nos levasse a vivenciar a autonomia. Essa é a grande luta da atual geração e das gerações futuras”.

Cidades do interior: chocadeiras

“Queremos uma certa identidade, um conceito falho ou em construção, mas não queremos ser índios nem que eles andem por aqui. Para muitos, eles reforçam o nosso esteriótipo. Somos do nosso tempo, temos uma história que está em nossa cabeça. É preciso pensar, e se pensa pouco e quando se pensa não se articula. Somos convocados a pensar e articular a partir da realidade que temos. O que fizemos? As cidades do interior são chocadeiras, onde têm meninos e velhos. Os jovens querem vir para Manaus, mas qual a perspectiva? Os velhos do interior vão morrer. Djalma Batista dizia que, se estamos no interior, estamos numa segunda Amazônia, sentado de cócoras, à espera de uma carona para Manaus. Foi assim comigo. Isso nos marca muito. A gente não pode ser um eterno passageiro na/da região. Temos que construir uma base mais sólida para viver”.